Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Opinião de Manuel Luar

Ir para a idade

Nas Gargantas Soltas de hoje, Manuel Luar celebra as novas idades.

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Uma piada engraçada sobre “fazer 68 anos” é a que diz que ainda conseguimos correr atrás de um interesse romântico, mas já só em plano inclinado, para baixo. 

E levamos tanto tempo que, quando apanharmos o “assunto” em questão, já não sabemos bem o que fazer com aquilo…

Mas consola imenso poder pensar que somos quase 15 anos mais novos do que o Mick Jagger, pôrra!

Se descontarmos essas, as outras piadinhas que pululam nos sites especializados são um bocado maldosas:

 - “Não há tampo de mobília em casa que não tenha um par de óculos bifocais em cima.”

- “Os filmes da minha vida são aqueles em que os atores estão todos a fazer tijolo”

-“Escolho cada vez mais o restaurante por causa do parque de estacionamento”

 - “Em cada médico, um velho amigo!”

- “Deixei de ir à praia. As manchas do fígado têm a mesma cor e duram todo o ano!”

- “As gengivas estão de tal forma retraídas que acham que nasci na Transilvânia”.

- “Queimo sempre os dedos quando tenho de acender todas as velas do cab*** do bolo de anos!”

Deixando essas bocas para trás devo dizer que me sinto bem com os meus “sessentas e oitos”.

Continuo com a maior parte dos defeitos que tinha quando era (mais) novo, e francamente não consigo descortinar nenhuma das qualidades que pretensamente a idade traria consigo…

Muito importante: tenho os dentes todos que Nosso Senhor decidiu dar-me durante a vida, exceto os sisos que me foram retirados por um inimigo à falsa fé, disfarçado de médico dentista. 

E nem um pedacinho de chumbo existe na minha boca! Sem contar quando mastigo alguma perdiz, das de caça, o que é infelizmente cada vez mais raro…

Como e bebo de igual forma, tal e qual como quando tinha 40 aninhos.  Do ponto de vista gastronómico até acho que aumentei as minhas capacidades discriminatórias desde que assentei arraiais à beira dos fogões.

Não sou, nem aparentemente virei a ser, mais cauteloso e mais sábio. Essa “sabedoria da idade madura” passou por mim (se é que passou) mas nunca parou…Assustou-se com o que viu.

A maleita que mais me aflige é a traição do joelho direito, que se meteu à bofetada com um frigorífico que ia a descer uma escada sozinho e perdeu, evidentemente.

Fora isso – e que é grande “pincel” – não tenho achaques, nem me queixo de nada. Até sou de opinião que aos sessenta e oito começa a vida. 

Pode ser “outra vida”, claro, mais lenta, mais compassada, mas não menos importante.

Fazem 68 anos em 2023 alguns rapazes com bom aspeto:  Billy Idol, Bruce Willis, Kevin Costner, Jeff Daniels, Bill Gates (quer dizer, o Bill Gates não tem muito bom aspeto, mas quem é que liga a isso?).

E, se pensarmos bem, J.R.R. Tolkien apenas viu “The Lord of the Rings” finalmente impresso aos 62 anos, George R.R. Martin (“Game of Thrones”) tem atualmente 75 anos, goza que se farta a “matar” as suas personagens principais e ainda não sabe bem como vai terminar a saga…E Nelson Mandela só foi Presidente aos 71 anos.

A única coisa que me preocupa é aquela história da senhora de 60 que começou a fazer running com essa idade e todos os dias corria mais uns metros, de tal forma que a partir dos 68 anos a família nunca mais a viu…

Tal como Churchill defendo-me dessas ocorrências estranhas evitando qualquer tipo de atividade física não essencial.

Na definição de “essencial” está o segredo… Eu tenho a minha. Os leitores terão as vossas.

Voltando às coisas mais sérias, nesta altura da vida há homens que reagem de forma distinta.

Para os americanos ou europeus bem de vida e metidos no (ou que gravitam ao redor do) show business e das artes em geral, estará na altura de comprar um Porsche. De preferência descapotável.

Porquê? Penso que é um dos mistérios insondáveis da ficção ocidental, milhares de vezes repetido em filmes, séries de televisão e na literatura. Admito que o Porsche tenha um apelo juvenil e viril, muito James Dean (que como sabem se matou ao volante de um).

Outros menos afortunados financeiramente ( e não sei se levados a esse extremo pelo mesmo tipo de motivação) em vez do Porsche comprarão uma bicicleta de montanha.

Outros ainda inscrevem-se num ginásio – de notar que há dúvidas sobre se será para melhorar o "tónus muscular", se para espreitar o corpo das companheiras de infortúnio modelado pela Lycra dos maillots de treino. Nalguns casos a observação deve provocar pesadelos, mas isso sou eu que digo.

Os que têm famílias estruturadas, com mulher e filhos e alguns até já com netos a caminho, parece que – contra o que seria de esperar – serão os mais afetados por estas alterações espirituais que precedem alguma decadência física, mas que com ela muitas vezes se interligam.

Poderá estar em causa o último assomo do leão ferido de morte (não é piada futebolística) ou o que lhe quiserem chamar para indicar este último levantar (salvo seja) do ego masculino, da "Ombridad", antes da atenuação de alguma tendência predatória pelo sexo oposto

Jean-Anthelme Brillat Savarin, clérigo e gastrónomo notável, postulava que era nos "anos de ouro " da sua existência que o erudito dado aos prazeres da mesa tinha as suas horas de glória: pela experiência acumulada que lhe permitia escolher mais sensatamente, pela bolsa mais recheada que lhe permitia gastar mais com produtos de primeira qualidade e pela educação do gosto, que lhe permitia comer e beber o que verdadeiramente lhe agradava.

Ora estes conselhos, se pensarmos bem, não só se aplicam à gastronomia como a quase todos os aspetos da nossa vida. 

Perto dos 70 a vida começa a ser demasiado curta para se beber mau vinho, para aturar pessoas de quem não gostamos, para ver e ouvir o que não queremos. 

E este deveria ser o verdadeiro grito de liberdade nestas idades:

Meu amigo é quem não me chateia! E só almoço com quem gosto! 

Os outros? “No passarán!”

- Sobre Manuel Luar -

Manuel Luar é o pseudónimo de alguém que nasceu em Lisboa, a 31 de agosto de 1955, tendo concluído a Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, em 1976. Foi Professor Auxiliar Convidado do ISCTE em Métodos Quantitativos de Gestão, entre 1977 e 2006. Colaborou em Mestrados, Pós-Graduações e Programas de Doutoramento no ISCTE e no IST. É diretor de Edições (livros) e de Emissões (selos) dos CTT, desde 1991, administrador executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações em representação do Instituidor CTT e foi Chairman da Associação Mundial para o Desenvolvimento da Filatelia (ONU) desde 2006 e até 2012. A gastronomia e cozinha tradicional portuguesa são um dos seus interesses. Editou centenas de selos postais sobre a Gastronomia de Portugal e ainda 11 livros bilingues escritos pelos maiores especialistas nesses assuntos. São mais de 2000 páginas e de 57 000 volumes vendidos, onde se divulgou por todo o mundo a arte da Gastronomia Portuguesa. Publica crónicas de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.

Texto de Manuel Luar
As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

24 Março 2026

Um mergulho na Manosfera

10 Março 2026

Depois vieram os trans

24 Fevereiro 2026

Protocolo racista, branquitude narcísica

10 Fevereiro 2026

Presidenciais e Portugal – algumas notas

27 Janeiro 2026

Museu dos sapatos

13 Janeiro 2026

A Europa no divã

24 Dezembro 2025

Medo de assentar

10 Dezembro 2025

Dia 18 de janeiro não votamos no Presidente da República

3 Dezembro 2025

Estado daquilo que é violento

26 Novembro 2025

Uma filha aos 56: carta ao futuro

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Autor Leitor: um livro escrito com quem lê 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

17 novembro 2025

A profissão com nome de liberdade

Durante o século XX, as linhas de água de Portugal contavam com o zelo próximo e permanente dos guarda-rios: figuras de autoridade que percorriam diariamente as margens, mediavam conflitos e garantiam a preservação daquele bem comum. A profissão foi extinta em 1995. Nos últimos anos, na tentativa de fazer face aos desafios cada vez mais urgentes pela preservação dos recursos hídricos, têm ressurgido pelo país novos guarda-rios.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0