Uma piada engraçada sobre “fazer 68 anos” é a que diz que ainda conseguimos correr atrás de um interesse romântico, mas já só em plano inclinado, para baixo.
E levamos tanto tempo que, quando apanharmos o “assunto” em questão, já não sabemos bem o que fazer com aquilo…
Mas consola imenso poder pensar que somos quase 15 anos mais novos do que o Mick Jagger, pôrra!
Se descontarmos essas, as outras piadinhas que pululam nos sites especializados são um bocado maldosas:
- “Não há tampo de mobília em casa que não tenha um par de óculos bifocais em cima.”
- “Os filmes da minha vida são aqueles em que os atores estão todos a fazer tijolo”
-“Escolho cada vez mais o restaurante por causa do parque de estacionamento”
- “Em cada médico, um velho amigo!”
- “Deixei de ir à praia. As manchas do fígado têm a mesma cor e duram todo o ano!”
- “As gengivas estão de tal forma retraídas que acham que nasci na Transilvânia”.
- “Queimo sempre os dedos quando tenho de acender todas as velas do cab*** do bolo de anos!”
Deixando essas bocas para trás devo dizer que me sinto bem com os meus “sessentas e oitos”.
Continuo com a maior parte dos defeitos que tinha quando era (mais) novo, e francamente não consigo descortinar nenhuma das qualidades que pretensamente a idade traria consigo…
Muito importante: tenho os dentes todos que Nosso Senhor decidiu dar-me durante a vida, exceto os sisos que me foram retirados por um inimigo à falsa fé, disfarçado de médico dentista.
E nem um pedacinho de chumbo existe na minha boca! Sem contar quando mastigo alguma perdiz, das de caça, o que é infelizmente cada vez mais raro…
Como e bebo de igual forma, tal e qual como quando tinha 40 aninhos. Do ponto de vista gastronómico até acho que aumentei as minhas capacidades discriminatórias desde que assentei arraiais à beira dos fogões.
Não sou, nem aparentemente virei a ser, mais cauteloso e mais sábio. Essa “sabedoria da idade madura” passou por mim (se é que passou) mas nunca parou…Assustou-se com o que viu.
A maleita que mais me aflige é a traição do joelho direito, que se meteu à bofetada com um frigorífico que ia a descer uma escada sozinho e perdeu, evidentemente.
Fora isso – e que é grande “pincel” – não tenho achaques, nem me queixo de nada. Até sou de opinião que aos sessenta e oito começa a vida.
Pode ser “outra vida”, claro, mais lenta, mais compassada, mas não menos importante.
Fazem 68 anos em 2023 alguns rapazes com bom aspeto: Billy Idol, Bruce Willis, Kevin Costner, Jeff Daniels, Bill Gates (quer dizer, o Bill Gates não tem muito bom aspeto, mas quem é que liga a isso?).
E, se pensarmos bem, J.R.R. Tolkien apenas viu “The Lord of the Rings” finalmente impresso aos 62 anos, George R.R. Martin (“Game of Thrones”) tem atualmente 75 anos, goza que se farta a “matar” as suas personagens principais e ainda não sabe bem como vai terminar a saga…E Nelson Mandela só foi Presidente aos 71 anos.
A única coisa que me preocupa é aquela história da senhora de 60 que começou a fazer running com essa idade e todos os dias corria mais uns metros, de tal forma que a partir dos 68 anos a família nunca mais a viu…
Tal como Churchill defendo-me dessas ocorrências estranhas evitando qualquer tipo de atividade física não essencial.
Na definição de “essencial” está o segredo… Eu tenho a minha. Os leitores terão as vossas.
Voltando às coisas mais sérias, nesta altura da vida há homens que reagem de forma distinta.
Para os americanos ou europeus bem de vida e metidos no (ou que gravitam ao redor do) show business e das artes em geral, estará na altura de comprar um Porsche. De preferência descapotável.
Porquê? Penso que é um dos mistérios insondáveis da ficção ocidental, milhares de vezes repetido em filmes, séries de televisão e na literatura. Admito que o Porsche tenha um apelo juvenil e viril, muito James Dean (que como sabem se matou ao volante de um).
Outros menos afortunados financeiramente ( e não sei se levados a esse extremo pelo mesmo tipo de motivação) em vez do Porsche comprarão uma bicicleta de montanha.
Outros ainda inscrevem-se num ginásio – de notar que há dúvidas sobre se será para melhorar o "tónus muscular", se para espreitar o corpo das companheiras de infortúnio modelado pela Lycra dos maillots de treino. Nalguns casos a observação deve provocar pesadelos, mas isso sou eu que digo.
Os que têm famílias estruturadas, com mulher e filhos e alguns até já com netos a caminho, parece que – contra o que seria de esperar – serão os mais afetados por estas alterações espirituais que precedem alguma decadência física, mas que com ela muitas vezes se interligam.
Poderá estar em causa o último assomo do leão ferido de morte (não é piada futebolística) ou o que lhe quiserem chamar para indicar este último levantar (salvo seja) do ego masculino, da "Ombridad", antes da atenuação de alguma tendência predatória pelo sexo oposto
Jean-Anthelme Brillat Savarin, clérigo e gastrónomo notável, postulava que era nos "anos de ouro " da sua existência que o erudito dado aos prazeres da mesa tinha as suas horas de glória: pela experiência acumulada que lhe permitia escolher mais sensatamente, pela bolsa mais recheada que lhe permitia gastar mais com produtos de primeira qualidade e pela educação do gosto, que lhe permitia comer e beber o que verdadeiramente lhe agradava.
Ora estes conselhos, se pensarmos bem, não só se aplicam à gastronomia como a quase todos os aspetos da nossa vida.
Perto dos 70 a vida começa a ser demasiado curta para se beber mau vinho, para aturar pessoas de quem não gostamos, para ver e ouvir o que não queremos.
E este deveria ser o verdadeiro grito de liberdade nestas idades:
Meu amigo é quem não me chateia! E só almoço com quem gosto!
Os outros? “No passarán!”
- Sobre Manuel Luar -
Manuel Luar é o pseudónimo de alguém que nasceu em Lisboa, a 31 de agosto de 1955, tendo concluído a Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, em 1976. Foi Professor Auxiliar Convidado do ISCTE em Métodos Quantitativos de Gestão, entre 1977 e 2006. Colaborou em Mestrados, Pós-Graduações e Programas de Doutoramento no ISCTE e no IST. É diretor de Edições (livros) e de Emissões (selos) dos CTT, desde 1991, administrador executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações em representação do Instituidor CTT e foi Chairman da Associação Mundial para o Desenvolvimento da Filatelia (ONU) desde 2006 e até 2012. A gastronomia e cozinha tradicional portuguesa são um dos seus interesses. Editou centenas de selos postais sobre a Gastronomia de Portugal e ainda 11 livros bilingues escritos pelos maiores especialistas nesses assuntos. São mais de 2000 páginas e de 57 000 volumes vendidos, onde se divulgou por todo o mundo a arte da Gastronomia Portuguesa. Publica crónicas de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.