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Júlia Cunha

Uma entrevista a Júlia Cunha, autora da obra gráfica “Green Wash”, originalmente publicada na Revista Gerador 40, que podes descobrir também em baixo.

Texto de Andreia Monteiro

Ilustração de Júlia Cunha

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Como artista e como pessoa, Júlia Cunha diz não se conseguir afastar de temas como a política, assuntos LGBTIA+, saúde mental e humor. É esta sua constante tentativa de usar «a sua voz para deixar o mundo um bocadinho menos horrível» que nos fez querer trazer o seu traço para a obra gráfica da edição desta Revista

Júlia Cunha é uma ilustradora portuguesa, com um pé em Braga e o outro em Lisboa. Estudou Design de Produto na Universidade do Minho. Começou a trabalhar como designer de comunicação em 2017 e voltou a pegar na ilustração, que tinha sido deixada na infância. Com menos princesas e pokémons, desta vez. Dedica-se à ilustração digital, mas também trabalha com cerâmica e têxteis.

Dando-lhe liberdade para criar a obra sobre o tema que desejasse, presenteou-nos com Green Wash, uma representação da «forma como as empresas utilizam o greenwashing para nos vender coisas», em que, mais uma vez, usa o «humor para falar sobre situações sérias».

Green Wash

Às vezes, pode ser importante – diria até, saudável – usar o humor para falar sobre situações sérias. Até porque, neste caso, se não quisermos chorar, só dá mesmo para rir. A forma como as empresas utilizam o greenwashing para nos vender coisas faz o meu sangue ferver, então, esta é uma das formas que encontrei para lidar emocionalmente com o assunto.

Demasiadas empresas tentam atirar-nos areia para os olhos, muitas vezes com sucesso, porque compreensivelmente nem toda a gente tem toda a informação que precisa para evitar estas táticas de marketing. O greenwashing é exatamente isto, uma tática para vender mais, apelando ao nosso desejo de não viver numa distopia climática, e assim mudar pouco ou nada o seu modelo de negócio.

Não quer dizer que a utilização de produtos ecológicos – dos detergentes biodegradáveis aos carros elétricos – seja inútil, muito pelo contrário. O problema é quando um produto nos é vendido como uma solução em si, em vez de uma mudança mais profunda que, quando implementada, faria uma diferença muito maior. 

É isso que temos de ter em mente quando pensarmos em comprar um tupperware eco-cenas de 40 euros.

Descobre a obra aqui:

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Gerador (G.) – Foste a autora da obra gráfica desta Revista Gerador. Quando te lançámos o desafio de ocupares estas páginas da Revista, o que te levou a escolher ilustrar, desta forma, o tema do greenwashing?

Júlia Cunha (J. C.) – Senti que tinha de abordar o assunto com humor. Muitas vezes, tentam vender-nos coisas de forma tão descarada que eu tinha de fazer uma crítica mais sarcástica. Queria também mostrar que o greenwashing não acontece só quando uma marca nos mente acerca do quão «amigo do ambiente» o seu produto é. Acontece, sobretudo, quando indústrias inteiras nos manipulam para manter a sua hegemonia económica sem pouco ou nada mudar as suas práticas ou os sistemas opressivos que as sustentam.

G. – O que achas que pode ser feito para que as pessoas, em geral, fiquem mais despertas para as táticas de greenwashing?

J. C. – O ideal seria mesmo haver mais educação sobre as indústrias que estão por detrás de muitos produtos que nos são vendidos como ecológicos e a destruição que causam nos ecossistemas à sua volta. É fácil acreditarmos nas táticas de greenwashing quando estamos afastados dos sítios onde os danos acontecem. Se o lítio necessário para obter uma frota automóvel totalmente elétrica em Portugal fosse extraído no nosso território, o país transformava-se numa mina a céu aberto. É mais fácil vermos o carro elétrico como ecológico quando não somos nós a viver nesse cenário. Assim sendo, acho que esta edição do Gerador é um instrumento de aprendizagem importante, mas precisamos de mais. O assunto merece mais presença no discurso político e nos meios de informação que as pessoas já conhecem.

G. – Achas que existe falta de literacia ambiental na sociedade?

J. C. – Acho que existe e não é por acaso. Se as pessoas não tiverem conhecimento de um determinado problema, não se vão indignar, revoltar e tentar resolvê-lo. Temos cada vez mais consciência ambiental, e há muita gente a evitar produtos descartáveis e a reduzir o desperdício (o que é ótimo, eu também tento fazê-lo), mas sinto que ainda não conseguimos percecionar bem o problema de forma macro. Isto é, a crise climática, a poluição e o plástico nos oceanos não são problemas que se resolvem se consumirmos em massa mais «produtos verdes»; têm de ser feitas mudanças drásticas na forma como nos organizamos social e economicamente.

G. – Na tua obra, vemos-te brincar com algumas discrepâncias que muitas vezes vemos nos produtos à venda e que tentam passar-se por «amigos do ambiente». Sentes que, por via da ilustração, se pode alertar as pessoas para este tipo de incongruências de que nem sempre nos apercebemos no dia a dia?

J. C. – Sim, acho mesmo que sim. A arte pode e deve ser usada para mobilizar e sensibilizar as pessoas. Muitas vezes, a nossa resposta emocional é mais intensa quando olhamos para uma obra de arte do que para um conjunto de factos, por exemplo. Se queremos agir a favor de alguma causa, como artistas, temos nas nossas mãos uma ferramenta muito poderosa. A política e o ativismo também se fazem assim.

A obra gráfica foi originalmente publicada na Revista Gerador 40, que podes comprar aqui:

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