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Opinião de Nuno Varela

Kriativu

“Criatividade representa a emergência de algo único e original”, Anderson, 1965 “Criativo” e “criatividade” são…

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"Criatividade representa a emergência de algo único e original", Anderson, 1965

"Criativo" e "criatividade" são palavras que ouvimos muito nos últimos tempos. Eu próprio uso muito e sinceramente não as estou a ver saírem do meu vocabulário.

Há um silêncio constrangedor quando alguém me pergunta o que faço. Normalmente não respondo logo porque tenho os neurónios a combater: “diz que és empresário”, “diz que és manager de artistas”, “diz que tens uma associação”. Tanta coisa que acabo sempre por terminar com uma piada seca, mas tudo isso mudou quando comecei a dizer que sou um criativo numa empresa ligada a música e entretenimento. Dizer que sou um criativo deixa-me de peito inchado e cheio de moral. Não sei, mas acredito que seja o mesmo feeling que um advogado deve sentir quando se apresenta como advogado.

A última viagem que fiz em trabalho foi à Alemanha, na cidade de Friburgo, onde as reuniões diárias eram uma espécie de laboratório criativo, cheio de hubs, todos organizados em contentores marítimos, mas todos muito bonitos, cheios de toques urbanos, e com gente contente a andar de um lado para o outro com canecas de café nas mãos, e todos com um ar de quem andava a inventar a próxima Google ou o novo Spotify.

Ao mesmo tempo que eu acompanhava este projeto europeu que me fez ir à Alemanha, estava em parceria com outras entidades Portuguesas a desenvolver uma candidatura para um projeto no território nacional no âmbito do programa BIPZIP, e foi lá que se fez luz, o que deveria ser o meu próximo grande projeto, um espaço criativo em Chelas na ZONA M. E assim nasce o KRIATIVU by Hip Hop Sou Eu e Chelas é o sítio.

No fundo, não é um projeto que surgiu recentemente, é algo que sempre esteve ali na caixinha das ideias, mas eu pensava não conseguir executá-lo já, mas consegui e posso dizer que o meu “bairro” tem, neste momento, um espaço de desenvolvimento à criatividade, onde todos os interessados vão poder ter acesso a workshops totalmente gratuitos, como poder gravar músicas num estúdio com qualidade ou fazer sessões de fotografia no nosso estúdio de fotografia. Gostavas de fazer um podcast? No Kriativu tens todo o equipamento necessário para o teu podcast, e tudo isto é totalmente gratuito para a comunidade.

Considero o meu bairro um mar de jovens criativos. Quando eu criei a Hip Hop Sou Eu, ainda morava na Zona M. O cantor Matay é de lá, Lewis CZM é de lá, Danny the Dawg que recentemente esteve no “Pela primeira vez” do Sam the kid é de lá, e temos o Tchapo, os Mbm que contam com milhões de views no Youtube e muitos outros jovens que tenho vindo a conhecer. O bairro tem todo este talento, mas nunca teve um centro, um espaço onde os jovens pudessem desenvolver os skills ou aprender algum tipo de arte. Mas vamos lá pensar, se nunca tiveram e o bairro é rico em criatividade, imaginem lá se tivesse. Por isso, dei corda aos sapatos e, com os parceiros certos, este projeto arrancou e vai ser uma lufada de ar fresco, não só para o meu bairr,o mas para toda a zona de Chelas, porque este projeto é para todos, não só para o meu bairro, mas para todas as zonas de Chelas. Criativos de outros bairros e de outras zonas também são bem-vindos. Aliás, já estamos a criar parcerias com outras associações para as sessões de workshops terem a presença de jovens de outras zonas.

Estamos em Fevereiro, mas as obras do espaço começaram em Dezembro, e foram todas feitas por moradores do bairro. Não são profissionais, mas são curiosos. Não ficou tudo impecável, mas ficou criativo. Inicialmente, pensei em contratar uma empresa, entregar a chave e aparecer só no fim, mas depois surgiu a ideia de contratar dentro do bairro, que tanto precisa.

 E assim foi, sem grandes expectativas a obra começou, com muitos dramas pelo meio, risos, almoços e  muita aprendizagem.

Passei horas no site Pinterest a ver espaços por esse mundo todo, e todas as noites ia imaginando como o nosso espaço ia ficar. Fiz dezenas de visitas ao Leroy Merlin, onde gastei milhares de Euros em material de construção. Aprendi muito, mas muito com esta obra. Para quem dizia não perceber nada de obras, agora posso dizer que percebo 35 %.

A obra foi executada por duas pessoas do meu bairro que conheço desde sempre, conhecia as caras e alguma da história, mas não a fundo. Depois de tantas horas passadas, fiquei a saber muito mais: histórias do bairro que merecem ser contadas, mas que merecem um texto só para eles. Um deles tem 5 filhos; e o outro tem 25 anos de prisão cumpridos, não seguidos, mas na totalidade. Boas pessoas com boas ideias, mas talvez mal encaminhados e com algumas más decisões pelo caminho. Uma realidade que, da minha forma, fui mudando enquanto íamos trabalhando e que penso poder continuar ajudar, mas tal como disse, vamos deixar isso para outro texto.

Quando os visitantes que tenho tido apontam o dedo a algo sobre a obra, digo que, se fosse no Lx Factory ou num bar do Bairro Alto, seria algo rústico. É mesmo para ficar assim. Como é no bairro, querem ter tudo perfeito, mas nop, aqui também está tudo com um ar rústico, completamente diferente das imagens que eu andei a ver durante meses no Pinterest. Mas, se este projeto tiver a projeção que pretendo e conseguir abrir em outras zonas, talvez lá para o espaço número 24, os meus colegas de obras já consigam estar num nível digno do “Querido mudei a casa”. Hehehehe, estou a brincar.

Neste projeto, temos como parceiros um projeto chamado Gingada, que tem como objectivo ligar a cidade, e para isso está a criar uma rede de pontos onde a comunidade vai poder alugar bicicletas de forma gratuita. O nosso espaço faz parte dessa rede. É algo que começou de forma muito informal, pelo facto de ter 3 bicicletas no espaço, muitos jovens perguntavam se podiam andar sem saberem que o espaço ia estar equipado com mais de 10 bicicletas para utilizarem de forma gratuita, e assim podemos dizer que foi o arranque do KRIATIVU no Bairro do Armador.

Estou muito orgulhoso deste grande projeto e sei que não vai ficar por aqui. O meu sonho seria que todas as zonas sensíveis deste país tivessem um espaço KRIATIVU e que a gestão passasse por personalidades da música, artes e por aí, pelo facto de todo o network que podem trazer para o projeto.

Este projeto é financiado pelo programa BIPZIP e conta com os apoios da Junta de Freguesia de Marvila, Associação rés do Chão, Câmara Municipal de Lisboa, Biblioteca de Marvila e Associação descalçada.

-Sobre Nuno Varela-

Nuno Varela, 36 anos, casado, pai de 2 filhos, criou em 2006 a Hip Hop Sou Eu, que é uma das mais antigas e maiores plataformas de divulgação de Hip Hop em Portugal. Da Hip Hop Sou Eu, nasceram projetos como a Liga Knockout, uma das primeiras ligas de batalhas escritas da lusofonia, a We Deep agência de artistas e criação musical e a Associação GURU que está envolvida em vários projetos sociais no desenvolvimento de skills e competências em jovens de zonas carenciadas. Varela é um jovem empreendedor e autodidata, amante da tecnologia e sempre pronto para causas sociais. Destaca sempre 3 ou 4 projetos, mas está envolvido em mais de 10.

Texto de Nuno Varela
Fotografia de Pedro Vaccaro
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