Num percurso por algumas das mercearias mais antigas de Lisboa, procurámos pela diversidade dos espaços que entraram, desde o início do século, nas casas da capital, e da forma como as suas portas movimentam a história, fechando ou abrindo-se para o presente.

A balança dos tempos em desequilíbrio

“Todos os dias, às oito da manhã, já estou aqui. Levanto-me às seis. Vim em 1945. Estou aqui há setenta e cinco anos. Estávamos aqui três ou quatro. Vinha de eléctrico. Tudo isto estava cheio de produtos de toda a espécie. Tudo aquilo estava cheio. Hoje não é necessário ter mais coisas,” diz, apontando para antigas prateleiras de madeira vazias.

António Fonseca tem 90 anos e a Mercearia Celta, em Campo de Ourique, a qual abre todas as manhãs, é centenária. Chegou a este espaço quando tinha 16 anos, mas já estava há três anos em Lisboa. Proveniente de uma família numerosa, da Beira Alta, teve de migrar para a capital, sozinho, juntando-se ao destino de tantos rapazes do campo. A pobreza chegou mais próximo da casa quando o pai falecera. “Não cheguei a conhecer o meu pai, a não ser por fotografia. Havia grandes tempestades e não tinham onde se guardar quando iam para os terrenos. Apanhou uma gripe tal…. Lá, não tinha médicos, nem farmácias. Ainda tenho a fotografia em conjunto comigo.”

“Tinha a quarta classe. Podia ter estudado para padre, porque a professora ainda encaminhou a minha mãe…” Porém, o comboio trá-lo-ia para uma mercearia na Graça e, mais tarde, na Almirante Reis. “Nós, os rapazes, fazíamos a distribuição da mercadoria, muitas vezes às costas, para irmos entregar ao terceiro, quarto ou quinto andar, porque a maior parte dos edifícios que existem na rua da Praça do Chile até ao cemitério não tinham elevador. Eramos três, mas, depois, um foi levado pelos pais, porque não tinha grande força. Era o que havia. Eram os futuros donos do comércio. Às vezes, davam-lhes sociedade, os patrões, noutras vezes, eram os encarregados das casas e, noutras, ficavam com as casas.”

O Grupo Brasileiro Pão de Açúcar, fundado em São Paulo, pelo português Valentim Diniz, introduziu em Portugal, em 1970, o conceito de supermercado, associando-se ao grupo nacional CUF. Criava-se, assim, a SUPA – Companhia Portuguesa de Supermercados. A primeira loja deste grupo abriu na Avenida Estados Unidos da América, em Lisboa, e a segunda, na Avenida de Ceuta. Actualmente, no espaço da primeira, encontramos o Pingo Doce.

Era precisamente um folheto desta cadeia que o sr. António estava a ler, escondido atrás de um armário, sentando num banco, com os óculos na mão, quando entrámos. É um dos “grandes”, como chama, que faz com que apareçam “duas ou três pessoas, ou nenhuma” na sua loja, com as luzes apagadas. A balança, no balcão, já não tem o que pesar. As paletes azuis, das frutas, só têm a sua forma. Os boiões de plástico com rebuçados, já estão amarelos. O utensílio para retirar a porção dos pinhões, das nozes e das amêndoas, está dentro das caixas, que, destes frutos, só têm o nome. Contudo, é algures por ali que guarda a correspondência da mãe e a memória do namoro com a rapariga com quem se veio a casar.

O chão que já não conhece filas

Ainda veste um casaco azul escuro, de merceeiro, que também nos conta a casa. Mas o sr. António, numa espécie de desafio, resiste com ela. Sabe que está ali, não pelo negócio, que reconhece já não ter, mas “para passar o tempo”. “Se fico em casa, morro. Por isso, é que cheguei onde cheguei. Se a gente fica em casa e se conforma que não quer fazer mais nada, é o fim do fim. Depois andam no jardim, a jogar às cartas, os cavalheiros, e as senhoras noutra missão. E eu ainda tenho a sensibilidade… Também tenho de fazer exames… Se eu estivesse sentado, tudo me doía e, assim, não…”

António Fonseca, proprietário da Mercearia Celta

Já com dificuldade em ouvir, deixava as perguntas no ar e seguia contando o que queria, convocando vários tempos como se fossem um. Recorda as senhas de racionamento, utilizadas durante a Segunda Guerra Mundial, as seiscentas cadernetas de famílias registadas naquela loja. “Nessa caderneta tinham quatro ou cinco coisas e havia um selo por cada coisa. Nem sempre podiam pagar e a gente facilitava quando podia. Mas, também, às vezes, os que tinham dinheiro pagavam quando queriam.” Fala dos prédios e de como o bairro se foi transformando, do que foi abrindo e fechando, e, de repente, o ar desconfiado do início, de quem estranhou presenças demoradas e perguntas, já se suaviza na despedida.

Montra da Mercearia Celta

Numa das ruas paralelas à Escola Politécnica, no lado do rio, descobrimos uma banca de fruta e hortaliças. Ouvimos o barulho de uma televisão e entramos. Atrás do balcão, encontramos Fernando Pacheco, de 63 anos. Também fez parte do movimento migratório das crianças e jovens que vinham para as cidades. Muitas das raparigas vinham trabalhar como criadas de servir, enquanto que os rapazes encontravam sustento no comércio. Veio do Alentejo para Lisboa, aos 12 anos, tomando conhecimento desta possibilidade através de um rapaz da sua aldeia, que tratou de lhe arranjar emprego por conta do mesmo patrão, que tinha uma mercearia e uma taberna na Lapa. Residiu na casa deste último durante oito anos, com outros cinco rapazes, nas mesmas condições. Eram eles que tratavam da residência, limpando-a e cozinhando. Comparando a sua situação, naquela altura, com a de outros rapazes diz: “Era um bocado escravidão. Tratavam mal os rapazes. Por acaso, tive sorte com o patrão.”

“Naquela altura, trabalhava-se muito e ganhava-se pouco. As mercearias tinham muitos empregados, miúdos. Chamavam-se marçanos. Íamos a casa das pessoas perguntar se precisavam de alguma coisa e, depois, íamos lá entregar.” Começava a trabalhar às sete horas, na companhia dos outros rapazes com quem vivia. Como ao lado da loja, estava a taberna, apesar da primeira fechar às 19 horas, o trabalho continuava num novo espaço, que devia encerrar às 23 horas, “mas era sempre até às quinhentas”. Contudo, recorda o convívio, o movimento, as conversas à porta de casa dos clientes, a importância da sua visita às pessoas mais velhas e sozinhas, que encontravam, naquele momento, um pretexto para a partilha. “Fazíamos quase de padres. No fundo, era trabalho, mas havia muito convívio.”

Depois de ter cumprido o serviço militar, veio para a Casa das Frutas. Nos finais da década de 70, naquele quarteirão, havia quatro mercearias. Agora, é só a sua banca, em frente da montra, que dá cor à rua. Apesar de não saber quantos anos este espaço tem, assegura que ultrapassa os oitenta. Porém, a certeza de que muitos mais se lhes acrescentem, não é grande.

Fernando Pacheco, proprietário da Casa das Frutas

A casa é procurada por todo o tipo de clientes, mas, sobretudo, quando notam a falta de algo, necessário no imediato, e que não compensa a deslocação a uma grande superfície comercial. Os produtos mais vendidos são a fruta e a hortaliça, a imagem da entrada, pois há um reconhecimento da maior qualidade destes, da sua frescura, comparando com os disponíveis nas grandes cadeias. Fernando e a esposa transformaram o espaço há cerca de quinze anos, adaptando-o às condições exigidas pela Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), o que apagou algumas marcas do tempo.

“Neste momento, só cá estou eu e mal chega para mim… Com as grandes superfícies comerciais, as mercearias foram acabando. Compram em grandes quantidades e conseguem ter preços que nós não temos. Antes da pandemia, o turista ajudava um bocado. Antigamente, eram as pessoas mais idosas, que vão morrendo. Os mais novos mandam vir pela Internet. Acabando eu, acabou.”

“Compramos a fruta e a hortaliça, todos os dias, no mercado”

Fernando aponta ainda o problema dos contratos de arrendamento, que podem ser alterados ao fim de cinco anos, o que faz com que muitos dos negócios mais pequenos não consigam manter as portas abertas, em caso de aumento.

Entretanto, surgiu uma fila de três pessoas à porta da Casa das Frutas, uma vez que, devido ao tamanho reduzido desta, só um cliente pode estar no interior do espaço, neste tempo de pandemia. Tivemos de seguir viagem.

O peso do tempo reinventado

Paulo Manso, o gerente e vendedor d’A Mariazinha, uma mercearia fina, como gosta de lhe chamar, e não “loja gourmet”, abre-nos a porta e logo um aroma a café nos acolhe. A Mariazinha traz perfume e sabor a Lisboa, desde 1934. Inicialmente, estava situada na Baixa. Foi criada por Jerónimo Coutinho, que lhe deu o nome da sua filha. Em 1957, a loja abriu em Alvalade e, há trinta e dois anos, pertence à família de Paulo, que assumiu a gerência em 1992. A decoração é herança dos primeiros anos e muitos olhares apreciaram os painéis pintados, os letreiros, o mobiliário em madeira casca de ovo e azul.

Em 2018, A Mariazinha adquiriu o estatuto de Loja com História, atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa

Cafés, chás, chocolates, biscoitos, bolachas, frutos secos, rebuçados, compotas, mel, farinhas, doces artesanais, cafeteiras, bules, moinhos de café, caixas, boleiras, chávenas… Não há nenhum espaço vazio. Cada forma faz-nos imaginar um sabor. Mas as especialidades da casa são o chá, mais procurado no Inverno, e o café, que viaja todo o ano, desde o Brasil, Timor, Colômbia, São Tomé, Cabo Verde, Nicarágua, Angola, Uganda, Vietname e Indonésia, por exemplo. O tempo foi levando produtos e trazendo outros, pois, para Paulo Manso é importante saber ler o comportamento do consumidor e adaptar-se-lhe, mantendo a linha da casa. A Mariazinha dá resposta ao que não se consegue adquirir nos hipermercados, para além da experiência de outro tipo de serviço, mais informado e personalizado. Verifica-se uma preferência pelos produtos nacionais, desde o mel de rosmaninho, do Monte dos Bens, em Mértola, as nozes do Alentejo, os pinhões de Alcácer do Sal, a amêndoa de Trás-os-Montes, os biscoitos de cacau da linha Doces D’Aveiro, a farinha Amparo, a ginja de Óbidos, as bolachas Paupério, as tabletes Regina, os caramelos Penha, os rebuçados de mentol Mouro, os rebuçados Santo Onofre.

A moagem dos cafés é realizada na hora
Não é clara a designação deste espaço. “Quando criámos, tivemos de pôr ‘casa especializada em chás e cafés’. É um segmento muito pequenino. Há quem englobe em ‘mercearia’.”

Estes produtos são familiares nas mesas de quem os procura. A casa mantém-se a partir dos seus clientes assíduos, geralmente residentes naquele bairro. “Alguns deles já vêm antes de eu cá estar”, comenta Paulo. “Uma das coisas mais interessantes é que nós vemos a evolução. Já estou aqui há 32 anos e vi gerações que vinham cá com os avós, em carrinhos de bebé, e, neste momento, são meus clientes. Tenho clientes que já não são clientes, são nossos amigos e, alguns, quase família. Por exemplo, há um senhor que, se não vier cá todos os dias cumprimentar, no outro dia, já estou a ligar para saber se está tudo bem.” Muito provavelmente é este um dos motivos para que não se verifique uma quebra de vendas durante o período pandémico, uma vez que o rendimento deste estabelecimento não está dependente do turismo.

Os rebuçados Dr. Bayard, que aqui se compram avulso, como todos os outros, são intemporais e a sua caixa está sempre a perder o volume. Há produtos cuja procura varia consoante a moda e, neste momento, é a de bagas e sementes.

Bagas e sementes

Apesar de, na última década, notar um aumento da procura por parte dos jovens, continua a considerar este público o mais afastado. Este regresso verifica-se nos “novos casais, que começam a constituir família.” A venda de café também tem registado uma subida, “ao contrário de quando apareceram as cápsulas, o que nos deu um grande arrombo.”

Paulo Manso, proprietário d’A Mariazinha

Distintamente do que os outros merceeiros partilharam, parece que esta casa continuará na família Manso. A filha de Paulo, com 24 anos de idade, terminou a sua formação em Turismo e Gestão Hoteleira, mas começou a trabalhar no negócio herdado dos avós, neste Verão. Procurando novos mercados, criou a loja online, que abriu a 1 de Outubro deste ano, e já recebe pedidos de várias regiões do país.

A Mariazinha localiza-se no nº 25B, na Avenida Rio de Janeiro

*Este artigo encontra-se ao abrigo do Antigo Acordo Ortográfico

Texto de Raquel Botelho Rodrigues

Fotografias de David Cachopo