“No ano de 1953, queríamos chegar a um compromisso com a Irmandade Muçulmana, se eles se demonstrassem razoáveis. Encontrei-me então com o líder da Irmandade Muçulmana e ele sentou-se comigo e fez-me os seus pedidos. A primeira coisa que me pediu foi que o hijab fosse obrigatório no Egipto, e que todas as mulheres que andem na rua tenham de usar a tarha.”
No meio de risos gerais, um homem na audiência a gritar “ele que a use!”. Mais risos. Isto não é uma discussão no ‘Ocidente’. É um discurso do líder Egício Gamal Abdel Nasser, que havia bloqueado e nacionalizado, uns anos antes, o Canal do Suez. Nasser continua:
“Eu disse-lhe que cada pessoa na sua própria casa decide as suas regras. E ele respondeu-me que não, que eu, como líder, era responsável. E eu disse-lhe ´o senhor tem uma filha na escola de Medicina, e ela não usa a tarha. Porquê? Se o senhor é incapaz de obrigar uma mulher – a sua filha – a usar a tarha, quer que eu sozinho obrigue 10 milhões de mulheres?!’”
Mais risos e a multidão que o ouvia explode em aplausos. Isto passa-se no Egipto de 1958. Poucos anos mais tarde, num país vizinho não árabe, as mulheres ganhavam o sufrágio. A Revolução Branca do Irão de 1963 elegeu seis mulheres para o Parlamento e, no final dos anos 60, havia mulheres nos corpos diplomáticos, na força policial e nos “corpos de serviço revolucionários” (educação, saúde e desenvolvimento). Em 1966, num esforço de coligação de vários grupos de direitos das mulheres, a Organização As Mulheres do Irão é criada. Em 1968, Farrokhroo Parsa torna-se a primeira mulher num Governo, assumindo a posição de Ministra da Educação. Em 1969, cinco mulheres foram apontadas juízas.
Dez anos depois, o regime iraniano caía, dando lugar à República do Irão liderada por Ayatollah Khomeini. Três semanas depois, as mulheres iranianas — que até então gozavam das leis mais progressistas no médio oriente — saem à rua em protestos contra o novo dress code, mas sem sucesso. O primeiro acto oficial de Khomeini quando chega ao poder é repelir a Lei da Proteção das Famílias: a idade legal para as mulheres poderem casar desce de 18 para os 9 anos. O hijab torna-se obrigatório em 1983.
O controlo do corpo feminino e a opressão das mulheres é uma questão existencial da República do Islão e fundamental à sua ideologia fundadora. A libertação feminina é vista pelo regime como um mal do imperialismo cultural ocidental, que ameaça os valores tradicionais iranianos e islâmicos. Há duas coisas engraçadas nesta lógica:
- Como vimos pelo discurso de Nasser, não é o Islão que é contra os direitos das mulheres, antes os movimentos fundamentalistas, que são, ainda que se mascarando como uma repetição dos ímpetos de conversão religiosa, filhas dos ideais revolucionários Modernos. Aliás, Khomeini andou pela Sorbonne, onde bebeu grande parte das suas ideias revolucionárias. Sayyid Qutb estudou nos EUA. Como os marxistas e os neo-liberais, os islâmicos radicais estão convencidos de que poderão redimensionar a condição humana. O terror revolucionário é uma invenção Moderna: os horrores cometidos pelo Nazismo alicerçavam-se na crença futurista no Homem novo; a URSS foi uma tentativa de incorporar a ideia positivista de um mundo sem poder ou conflicto; a “War on Terror” foi animada pela crença de que o “capitalismo democrático” americano seria o único caminho para uma civilização universal. Durante a Guerra Fria, os movimentos religiosos no Médio Oriente foram financiados e armados contra os Soviéticos. Eis que o Islão radical incorpora os efeitos da globalização, como é evidente na tecnologia da Al-Qaeda e na utilização de instituições offshore e do mundo online por parte do Estado Islâmico. Não vem das trevas: vem da mecanização do Ocidente.
- Quando achamos que a cultura islâmica é assim mesmo, avessa à liberdade, estamos precisamente a cair na cantiga tecida pelos regimes autoritários islâmicos. É que o grito de liberdade que a juventude iraniana está a querer que o mundo ouça não é produto de uma ocidentalização: é uma tentativa de recuperar os valores que lhes foram roubados pelo fundamentalismo.
O que se passa nas ruas do Irão expõe a hipocrisia de um regime que, em resposta, se refugia numa paranoia conveniente, alegando que as revoltas que o desmascaram são orquestradas por inimigos estrangeiros. É importante que percebamos, aqui no Ocidente, que não, o Islão não preconiza opressão, que o Islão não é, como alguns por estes lados querem fazer parecer, sinónimo de agressão, das trevas, de despotismo, e que a juventude iraniana está a criar aquilo que será, talvez, um dos maiores protestos democráticos do nosso século.
O meu coração está com as mulheres iranianas que lutam pela sua liberdade de escolha, pelo Irão que lhes foi roubado. Deixo-vos com as palavras de Muhammad al-Bukhari:
“Religion is very easy and whoever overburdens himself in his religion will not be able to continue in that way. So you should not be extremists, but try to be near to perfection and receive the good tidings that you will be rewarded; and gain strength by worshipping in the mornings, the afternoons, and during the last hours of the nights.”
Este poema data do século IX, ainda estávamos nós por fazer violentas cruzadas em nome de uma religião. Urge estender a mão às jovens que lutam, hoje, pela mudança. Senão, corremos o risco de as fechar num regime tirânico e ficaremos a falar sozinhos – e solilóquios são tristes para o pluralismo liberal.
- Sobre a Maria Castello Branco -
É mestre em Teoria Política pela London School of Economics and Political Science, com enfoque no pensamento político chinês, pensamento pós-colonial e em teoria política comparada. A sua tese focou-se na China e na crítica ao universalismo e metafísica. Estudou Ciência Política e Relações Internacionais no Instituto de Estudos Políticos da UCP. Fez parte da Comissão Executiva da Iniciativa Liberal. Feminista.