Depois da Segunda Intifada, a revolta palestiniana entre 2000-2005, a brutalidade do exército israelita e as graves violações dos direitos palestinianos foram expostas ao mundo. Com o objetivo de lavar esta imagem, Israel começou, com a ajuda de empresas de marketing, uma campanha de diplomacia pública, que chamou de “Brand Israel”; uma tentativa de substituir a imagem de um regime opressivo pela de um país “moderno”, “progressista”, “ocidentalizado” e “democrático” que contrastasse com as nações vizinhas.
Poucos anos depois, foram adicionados ao plano desta campanha de propaganda financiada pelo governo ações para mudar a imagem de Israel de um país ocupante para um paraíso LGBTQIA+ longe da guerra. Recrutou pessoas de todo o mundo desta comunidade, – incluindo de Portugal, para visitar Israel e realizar formações na tentativa de melhorar a imagem do país no mundo. Ao mesmo tempo também investiram em anúncios e vídeos turísticos que mostravam Israel como destino LGBTQIA+ de excelência, escondendo o facto que estes turistas se iriam divertir pisando as ruínas das vilas e as cidades palestinianas que foram etnicamente limpas para estabelecer este país. Os direitos LGBTQIA+ tornaram-se assim numa ferramenta de propaganda muito útil para as relações públicas de política internacional israelita, representando este estado como sendo comprometido com a igualdade sexual, como se isso pudesse atenuar ou legitimar as políticas de colonização e opressão.
Ademais, esta alegada política a favor dos direitos LGBTQIA+ tinha sido garantida apenas para algumas pessoas, aquelas que se comprometiam a ser “boas cidadãs”, fiéis ao regime colonial e racista deste estado. É este o contexto que leva a teórica queer Jasbir Puar pela primeira vez a falar de “homonacionalismo”, no seu livro Terrorist Assemblages: Homonationalism in Queer Times (2007). Trata-se de uma prática que liga o nacionalismo aos direitos LGBTQIA+, reforçando estereótipos sexuais e raciais através da estigmatização de um grupo como sendo LGBTQIA+fóbico para justificar moralmente o ataque contra o mesmo. Prática essa que reforça o que a autora designa de “homonormatividade” que copia a heteronormatividade de uma nação. Assim, enquanto Israel aceita soldados judeus LGBTQIA+ no seu exército, aplica o regime de apartheid a qualquer pessoa palestiniana, inclusivo às pessoas que lutam pelos direitos LGBTQIA+.
Esta ferramenta colonial que se apropria dos direitos LGBTQIA+ transmitindo uma imagem de um país progressista para ocultar os seus crimes contra o povo palestiniano foi designada pelas ativistas queer da Palestina como Pinkwashing (branqueamento rosa).
Através do Pinkwashing, Israel manipula e constrói uma imagem de estado moderno e progressista e de um porto seguro para a comunidade LGBTQIA+, ao contrário da Palestina e do mundo árabe, que alegadamente ao contrário deste país, são “homofóbicos, bárbaros e repressivos”. Esta estratégia – invocando a definição do humano de Judith Butler – transforma os ataques israelitas numa “guerra justificada” contra uma “cultura sanguinária”, uma representação que nega a humanidade de determinados tipos de seres humanos atribuindo-lhes uma vida cujo fim não merece o choro.
Em Portugal, e depois da Marcha do Orgulho LGBTQIA+ em Lisboa ter recusado explicitamente a participação da Embaixada de Israel, a mesma particionou numa festa de “orgulho” israelita no Finalmente, club (que era) de referência para vida noturna lisboetas e comunidade LGBTQIA+ – esta festa de “orgulho” aconteceu precisamente dois dias depois da morte do menino palestiniano Mohammed Al-Tamimi, que tinha sido baleado na cabeça pelos soldados israelitas. Não foi a primeira vez que a Embaixada de Israel recorreu ao Pinkwashing em Portugal. Em 2010, Israel participou no festival de cinema Queer Lisboa. Contudo, após a sensibilização por parte de organizações e coletivos, bem como a posição do realizador John Greyson de retirar os seus filmes do evento por este motivo, o festival não voltou a aceitar este patrocínio. Este ano, a comunidade palestiniana e organizações amigas participaram formalmente na Marcha de Orgulho de Lisboa, trazendo a voz queer palestiniana e a sua luta interseccional contra um complexo sistema opressivo. Uma voz que diz ao mundo que a inclusão de oficiais gay no exército da ocupação israelita é uma farsa, porque quando se atravessa um checkpoint, a sexualidade do soldado que está a revistar, humilhar e manter o regime colonial pouco interessa. Uma voz que diz ao mundo que no muro do apartheid não há portas cor-de-rosa. Uma voz que diz ao mundo que, sob ocupação, pertencer à comunidade LGBTQIA+ não elimina as dinâmicas de poder. Uma voz que diz ao mundo que o Pinkwashing não é nada menos do que uma forma de violência colonial. Uma voz que diz ao mundo que não há libertação queer com apartheid, capitalismo, imperialismo, racismo, antissemitismo, islamofobia ou qualquer tipo de opressão. Uma voz palestiniana que diz ao mundo: ser queer não é simplesmente uma identidade, mas é uma ação também no caminho de decolonização, uma acção pela liberdade, mas toda a liberdade. Não há orgulho no apartheid! No pride in apartheid!
- Sobre Shahd Wadi -
Shahd Wadi é Palestiniana, entre outras possibilidades, mas a liberdade é sobretudo palestiniana. Tenta exercer a sua liberdade também no que faz, viajando entre investigação, tradução, escrita, curadoria e consultorias artísticas. Procurou as suas resistências ao escrever a sua dissertação de Doutoramento em Estudos Feministas pela Universidade de Coimbra que serviu de base ao livro “Corpos na trouxa: histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio” (2017). Foi então seleccionada para a plataforma Best Young Researchers. Obteve o grau de mestre na mesma área pela mesma universidade com uma tese intitulada “Feminismos de corpos ocupados: as mulheres palestinianas entre duas resistências” (2010). Para os respectivos graus académicos, ambas as teses foram as primeiras no país na área dos Estudos Feministas. Na sua investigação aborda as narrativas artísticas no contexto da ocupação israelita da Palestina e considera as artes um testemunho de vidas. Também da sua.