Vivemos em uma sociedade que funciona à base de “checklists” em que estamos constantemente em aquilo a que podemos chamar uma corrida onde no fim, caso a performance tenha sido adequada, temos a felicidade. Há toda uma pressão social para que se atinja o máximo de objetivos num curto espaço de tempo acompanhado da ideia de que a felicidade é alcançada no fim da corrida como um prémio e não algo constante que temos ao longo da vida. Toda esta forma de encarar a vida deixa-nos um total de zero margem para erro e explorar aquilo de que gostamos e nos faz feliz. E, no fundo, qual é a melhor forma de apreender senão, exatamente através do erro?
O nosso sistema de ensino é desde mesmo cedo baseado em avaliações e metas fazendo com que inconscientemente o erro seja, desde o início da nossa vida, associado a sentimentos como vergonha e algo a ser evitado sendo que vem atrelado com más consequências. Isto leva a dificuldade em explorar e arriscar exatamente porque um erro equivale a consequência de ter uma má avaliação. É importante perceber que o erro por si só não é diretamente associado a consequências negativas. Um erro significa que a ação falhou e na maioria das vezes apenas significa isso e através da falha temos oportunidade de aprender. Acho curioso que cada vez mais tenhamos um mercado de trabalho que exige profissionais que sejam flexíveis, possuam inteligência emocional e experiência, mas ao mesmo tempo o nosso sistema de ensino não nos está a preparar para isso. Sendo assim, tem que partir do indivíduo o interesse em explorar os seus conhecimentos. Pessoalmente acredito que a maneira mais eficiente de o fazer é através da educação não formal e do voluntariado uma vez que estes não visam certificados ou notas, mas sim que o conhecimento seja passado e que a pessoa aprenda através de experiências e, de certa forma, através de erros. Sendo assim, o voluntariado abre a porta para a possibilidade de experimentar coisas novas sem que um processo de avaliação esteja envolvido.
O voluntariado dá-nos então a chance de experimentar sem compromissos ou um contrato fixo. Temos a oportunidade de trabalhar em áreas distintas e ganhar experiência e conhecimento não só do mundo que nos rodeia como de nós mesmos. O sentimento de estarmos perdidos e não ter algo com que nos identificamos ou a dita paixão que nos move é algo comum e com que todos nós podemos relacionar de certa forma. Na minha opinião, a ideia de que vamos olhar para um objeto e perceber o que gostamos de fazer e o que é o nosso objetivo de vida parece-me romantizada e irrealista. O primeiro passo para começar a perceber quem somos e o que gostamos de fazer é exatamente perceber quem não somos e aquilo que não gostamos de fazer. Tive o privilégio de desde cedo ter oportunidade de realizar diferentes tipos de voluntariado e projetos.
No fim do secundário descobri o mundo do Erasmus+ e que o poderia fazer a nível internacional e de forma gratuita. No fim do secundário também percebi que estava perdida e tinha um monte de interesses soltos, mas que não via como se poderiam interligar entre si ou o que poderia fazer a nível de estudos com eles. Decidi então fazer um Gap Year para explorar as áreas em que tinha interesse e o facto de que a União Europeia financia trainings, exchanges e voluntariado facilitou a parte económica. Durante esse ano tive então experiência de trabalho em várias áreas como feminismo, ambiental, digital, trabalho com crianças e idosos e até limpezas. Percebi que gostava de lidar com pessoas e, surpreendentemente, que a minha personalidade era menos introvertida do que aquilo que pensava até então. Acabei por desenvolver também muito interesse na área da ecologia e de tomar pequenas decisões como deixar de comer carne e diminuir o consumo de recursos. Por outro lado, também percebi, através de alguns erros, que não sou pessoa de lidar com partes burocráticas, financiamentos e que detesto trabalhar com computadores. Tudo isto fez com que fosse aprendendo o que gostava de fazer e desenvolver a capacidade de escolher, cada vez com mais sucesso, o tipo de projetos com os quais gosto de trabalhar e acabou por ser a base para a escolha do curso que decidi ingressar na faculdade e também de coisas mais simples como perceber que pintar me relaxa e diminui a minha ansiedade, coisa que só percebi depois de fazer voluntariado com crianças em que tinha que utilizar materiais artísticos.
Sendo assim, o voluntariado permite-nos experimentar e errar em uma sociedade perfeccionista em que o erro é encarado como algo assustador e a evitar. Permite-nos sair da nossa bolha/zona de conforto e entrar em contacto com pessoas novas assim como trabalhar em áreas em que não temos experiência. Acaba então por levar a um aumento da autoestima sendo que começamos a perceber o que nos faz feliz e o nosso leque de interesses abrange devido ao contacto com diferentes realidades e tarefas. Aconselho cegamente a todos a experiência de fazer diferentes tipos de voluntariado, e sendo que o podem fazer de forma gratuita e segura, principalmente através de programas europeus como o Corpo Europeu de Solidariedade, assim como training courses e youth exchanges.
-Sobre a Mariana Souza-
Apesar da sua localização nunca ser exata, cresceu em Constância, uma vila pequena, mas encantadora no Ribatejo. Sempre foi “uma rapariga das causas” o que fez com que o voluntariado e as causas humanitárias fizessem parte da sua personalidade desde a adolescência.
Licenciou-se em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Nova de Lisboa e, durante toda a licenciatura e mesmo agora, no ano seguinte à mesma, esteve sempre envolvida em projetos de voluntariado internacional e nacional.
É uma das co-fundadoras da Youth Cluster e tem como objetivo tornar não só o voluntariado internacional como diversas oportunidades como estágios remunerados e formações acessíveis a todas as pessoas.