“Oh meu amor” é a nova canção de Janeiro que reflete o seu “parar para ver de fora sem lá dentro ficar”. O músico fabricou-a na sua produtora Dali², ao lado da videógrafa e fotógrafa Daniela Gandra.

Depois de se ter tornado independente no início de 2020, de ter lançado o seu segundo LP duplo Com Tempo, Sem Tempo, do EP com o músico brasileiro Paulo Novaes, Protocolar Volume 1, e ter pisado vários palcos nacionais – e também além fronteiras –, com a Janeiro Sessions Live Tour, o músico criado em Coimbra e com uma voz para ser escutado pelo mundo, surge com um novo tema que reflete a sua forma de estar – “oh meu amor”.

A sua mudança para o campo durante a pandemia levou-o para mais perto da natureza e do vagar. Depois de montar o seu home studio na sua nova casa, num módulo onde vive com Daniela Gandra, para quem escreveu este novo single, “oh meu amor”, decide trabalhar a partir de casa e assumir pela primeira vez a produção integral de uma música. A fuga da cidade foi também motor para a criação de Dali², a produtora audiovisual, construída com a sua companheira, a videógrafa e fotógrafa Daniela Gandra. O primeiro projeto é o videoclipe deste tema “oh meu amor” que criaram, escreveram, realizaram, filmaram e editaram.

Em entrevista ao Gerador, Janeiro falou-nos da sua produtora, da sua presença durante o processo de criação e do que podemos esperar do novo álbum que sairá em 2022. Em conversa sobre a sua nova música, Janeiro falou sobre a liberdade das palavras e de como o abrandar é semente para criar.

Gerador (G.) – Numa Janeiro Sessions, com o António Zambujo, falas sobre o choque que sentiste quando chegaste do Brasil, pela diferença de culturas. Essa tua aventura levou-te também a este disco?

Janeiro (J.) – Eu senti uma grande discrepância, uma diferença de frequências, entre as pessoas do Brasil e de Portugal, que se traduz numa abertura e forma de comunicação diferente que fazia com que as coisas fluíssem mais, como se não olhassem só para o problema e para o stress, mas para a solução. Eu pensava que era só do povo brasileiro, mas não, também existe o contrário. Há uma grande maioria de pessoa que são muito abertas, que te abrem as portas de casa, mas também sei que acedi a um estrato que não tem dificuldade para fazer as coisas e confiam. De qualquer forma, quando cheguei, tive uma espécie de ‘depressãozinha’, porque senti que existia uma discrepância, que éramos todos atados a uma barreira, a uma limitação qualquer que ninguém sabe qual é. Deixou-me um pouco para baixo e claro que ultrapassei, é um pouco um ‘problema de primeiro mundo’.

G. – Foste encontrar esse estilo de vida no campo?

J. – Sim, há um companheirismo diferente, há um querer saber do outro que se perdeu completamente na cidade, onde és um número.

G. – Mas nessa fuga da cidade para o campo, o campo tornou-se mais inspirador?

J. – Eu também me coloco nessa frequência, se calhar, qualquer outra pessoa que não criasse, chegava aqui e achava que era uma pasmaceira. Tem tudo a ver com a narrativa que contas a ti próprio. Se eu estou a acordar todos os dias a dizer que vou produzir e montar, não é só por estar aqui, é por ser eu. É um pouco aquela conversa de que, será que o Jimi Hendrix fazia a mesma coisa sem as drogas, ou que o Pessoa, neste caso o Bernardo Soares, escrevia o livro do Desassossego sem o ópio ou o absinto, não sabemos. Também não sei se é por estar aqui, o que sei é que estou a retirar problemas, um deles é a EMEL, e um conjunto de coisas que me fazem estar fora da frequência de criação.

G. – Tens 26 anos, normalmente as pessoas só se apercebem do estilo de vida que levam mais tarde, achas que te teres apercebido deste ritmo frenético, faz de ti um sortudo?

J. – É engraçado que a questão da sorte também é muito dúbia porque sei que de sorte tem muito pouco. Claro que sou um privilegiado, nasci numa família de classe média que me deu as condições para eu viver, mas andei sempre em escola e hospital público, os meus pais deram-me um computador e uma guitarra. Não estou a dizer que sou melhor ou pior, mas, de repente, divergi para aqui, decidi usar o meu tempo todo a fazer isto, e é aí que reside a grande diferença. Desde 2015 que entrei nesta missão de levar música às pessoas e ainda não parei, estou sempre a reinventar-me, a tentar mais, a criar algo meu. Estou a cortar os intermediários que tenho ao máximo, porque comecei a perceber que quero fazer algo em que acredite e no qual tenha controlo do início ao fim. Mas continuo a achar que de sorte tem muito pouco, é muito trabalho.

G. – Esta nova música é o primeiro filho da tua nova produtora, Dali². Porque decidiste criar esta produtora?

J. – Foi com o objetivo de construir algo que nos permitisse, de alguma forma, controlar o processo todo, desde a criação de um vídeo ao lançamento, porque também se instituiu que uma pessoa para lançar uma música tem de aparecer com um grande videoclipe, mas isso não tem nada a ver, porque só reflete o teu poder financeiro. Durante a pandemia, comecei a explorar a fotografia e o vídeo e no dia 30 de dezembro, eu e a Daniela Gandra, a minha companheira, viemos para o Alentejo, decidimos mudar de ares e começámos a construir isto tudo juntos (tanto o estúdio como a produtora). Estamos num sítio sereno e estamos a tentar organizar-nos para não termos intermediários a meio do processo, tanto sou eu que faço a canção como sou eu que a coloco online e penso o plano do videoclipe. Quero construir uma estrutura para podermos realmente fazer algo que nos faça sentido, que respeite o processo e o tempo de cada coisa, desde o momento em que cozinho uma coisa, no dia em que a vou gravar, até ao momento em que se vai gravar com calma, não quero que exista um limite de tempo.

Janeiro e Daniela Gandra | Imagem do videoclipe da música "oh meu amor"

G. – Notas um crescimento desde o Fragmentos, um disco a que vais buscar fragmentos teus com os outros, para o disco que vai sair, Fugacidade?

J. – Sim, mas, ao mesmo tempo, quero acreditar que não. Ou seja, o meu lado emocional e de criança diz que não, que estamos sempre no mesmo sítio a fazer música e só queremos divertir as pessoas, mas, o outro lado racional diz que é um disco mais maduro produzido por mim. Na verdade, sinto-me a voltar a mim, à minha essência, a conseguir explorar-me e às minhas milhares de formas de expressão, quer por um vídeo, um poema, ou uma música. Emocionalmente não, mas racionalmente sim.

G. – Tens-te apresentado a solo, e agora trazes uma música quase a dois, foi por teres encontrado essa “simbiose emocional e artística com alguém”?

J. – Totalmente. Apresento-me muito a solo, por toda a logística de ter uma banda. De repente, percebi que, se vou estar sempre a depender de músicos, vão existir sempre entraves. Continuei a avançar a solo, mas tenho, por exemplo, esta obra com o Paulino Novais. Avancei muito mais para esta ideia de criação das minhas coisas sozinho para depois tocar em banda, para depender cada vez menos dos outros para avançar.

G. – As tuas músicas são sempre com um respeito e abraço à língua portuguesa, sem medo. “Eu amo-te tanto”, por exemplo, parece ser algo ainda tão difícil de dizer no nosso dia a dia. Esta relação com as palavras é uma preocupação tua ou é uma marca tua?

J. – As duas coisas. Essa preocupação em desconstruir isso, para que as pessoas se libertem e sejam elas próprias, para que digam o que sentem, mas, ao mesmo tempo, esta ideia de que não há pudor em dizer seja o que for. Gosto que sejam as duas coisas, mas também não haver esse pudor em dizer que amas alguém, ou que te preocupas com alguém. Lembro-me de falar com a minha equipa sobre a música e me dizerem que isto podia ser muito frontal. Alguém que diz que algo pode ser demasiado frontal, significa que a própria pessoa que está a comentar não consegue ser frontal com ela própria e com os outros, ou que a outra pessoa que está a lançar a música está a ser frontal na sua normalidade? Temos muito este bloqueio que vai a um espectro de comunicação. Não conseguimos sequer dizer “amo-te”, usar uma palavra, e isso interessa-me que seja desconstruído porque não faz sentido limitarmo-nos por palavras. Sinto sempre que, quando olho para o mundo numa perspetiva macro, as pessoas estão todas a lutar para que todos utilizemos as mesmas palavras, e eu não quero que utilizes a mesma palavra que eu, só quero que a sintas e a ressignifiques na tua cabeça, para que as tuas ações se coadunem com a minha liberdade. As tuas palavras são a tua liberdade, não são a minha e isso é difícil de explicar. É quase o que um escritor faz, puxar para a frente a língua e a compreensão pela língua.

G. – Qual foi a ideia por trás do videoclipe?

J. – O videoclipe foi desenhado por mim e pela Daniela, e a ideia por trás era, basicamente, sermos dois amigos e ela ser a minha amiga imaginária. No final, estamos de mãos dadas e ela não existe, existe apenas o reflexo dela, quase como se estivesse a viver um sonho, uma viagem onírica, que me leva só a sentir a felicidade numa ilusão. Isto vem um pouco de tudo o que estamos sempre a dizer de não acreditarmos na nossa própria vida e de nos questionarmos se é real. Eu fico sempre a pensar nesse conceito, e gosto de puxar um pouco o lado surreal e, por trás do vídeo está muito essa premissa de ela ser a minha amiga imaginária, não existir e eu estar numa trip quase, com uma pessoa que é demasiado perfeita para existir, demasiado simbiótica, ou seja, ou somos um ou ela não existe.

G. – O que podemos esperar do Fugacidade?

J. – Vou ter muitos featurings, covers como “Uma pequena flor”, dos Entre Aspas e o “Estou na Lua”, dos Lunáticos, ainda não posso adiantar quem vai ser, mas vou ter no disco o Edu Mundo dos Cordel, vai entrar também o André Viamonte, a Artéria FM, uma artista brasileira incrível. Há também uma série de pessoas que vou juntar e o disco vai andar nesta ideia da partilha, tal como o Sem Tempo, que era muito diverso, tinha tanto malta do jazz como da pop, e da bossa nova, e este quero produzir aqui, mas não quer dizer que não vá aumentar o leque de diversidade sónica do disco, isso interessa-me. Vou ter vários featurings, e vai ser um disco de partilha – mais uma vez, pelo processo, e não pelo resultado final.

Texto de Patrícia Nogueira
Fotografia da cortesia de Janeiro

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