Caras/os leitoras/es, confesso-vos que demorei algum tempo a decidir se devia escrever sobre este tema. Mas creio que talvez seja interessante a perspetiva que vos trago.
É meu hábito trazer algumas reflexões sobre a deficiência e um facto que insiste em permanecer é o reconhecimento global de que somos uma das maiores minorias do mundo; de que somos um dos grupos populacionais mais pobres e marginalizados do mundo; e, também, que as questões relacionadas com a deficiência vão continuar a existir levantando inúmeros problemas éticos e sociais e a necessidade de uma força global centrada no reconhecimento, materialização e proteção de um conjunto vasto de direitos humanos que nos assiste. Até aqui creio que as posições seriam, em larga medida, consensuais.
No entanto, tal como tantas outras minorias marginalizadas historicamente, a nossa história está também marcada por lutas, ativismo, vontade de mudança. Por sede de reconhecimento de dignidade e de gritos de revolta em busca de um mundo mais justo. Perdoem-me o modo simplista como o afirmo, mas creio que este é mesmo um grande pano de fundo nestas matérias.
Mas voltemos às minorias. Certamente não vos espantará que os processos de luta contra injustiças e opressão venham acompanhados - e partam também de, talvez - pela afirmação de identidades positivas e de orgulho. Pelo autorreconhecimento de valor, de afirmação de uma existência positiva e pela qual se luta orgulhosamente. Uma espécie de luta contra a maré de sistemas e ideias estruturalmente estigmatizantes que oprimem e inferiorizam de formas, muitas vezes, devastadoras. Não estranharão, certamente, expressões como “orgulho negro” ou “orgulho gay”, a título de exemplo.
Eis a questão: poderemos falar de orgulho na deficiência? Será legítimo e sensato que o façamos? Não é meu propósito responder a tais questões. Mas convido-vos a pensar sobre alguns aspetos.
Sejamos francos: ninguém deseja, em intenção vincada e consciente, nascer ou adquirir uma deficiência (refiro-me em particular às mais significativas e que colocam entraves diários em várias dimensões da vida). Aliás, persiste a ideia socialmente partilhada de que viver com uma deficiência acarreta sofrimento, dores, constrangimentos diversos. Não é à toa de que quem não vive uma experiência de deficiência ou tem proximidade com esta realidade a associa a tragédia pessoal, a dificuldade. E, em termos gerais, evitamo-la sempre que possível.
Com toda esta carga “cinzenta”, poderemos então falar de orgulho na deficiência? A verdade é que poucos contextos se “atreveram” a usar o termo. O exemplo mais notório é o dos Estados Unidos da América onde o movimento das pessoas com deficiência teve e tem uma força notória e uma identidade coletiva consolidada e forte.
O outro lado que vos quero trazer são os contornos que este orgulho poderá, eventualmente, assumir. Não será insensato afirmar que muitas pessoas com deficiência constroem uma autoimagem de si positiva e onde poderá existir orgulho na sua identidade enquanto pessoa com deficiência (tal como acontece com outras dimensões de identidade). Não quero com isto negar ou subestimar as experiências de dor existentes, mas acredito ser possível a procura de um equilíbrio entre aquilo que é a nossa existência diária e o autorreconhecimento de que temos vidas válidas, felizes, satisfatórias, plenas.
É um exercício complexo e ardiloso, é verdade. E certamente não haverá consensos sobre isto. Poderá até parecer insultuoso falar disto a pessoas que vêem os seus direitos não respeitados quotidianamente; que continuam à margem e com expectativas baixíssimas sobre si mesmas porque o meio envolvente e os olhos dos outros as empurram para lugares inferiorizantes e redutores. Reconheço tal facto e perdoem-me se ferir algumas suscetibilidades.
Mas é também verdade que tal orgulho e identidade positiva são um caminho possível - que poderá não ser consensual e linear - que talvez possa dar um impulso ao início ou continuação de lutas por justiça e contra múltiplas opressões que ainda persistem nas nossas vidas. Porque as nossas vidas também importam. E não são tragédias, ao contrário do que muitas vezes se possa pensar. Porque, eventualmente, poderemos ter orgulho em quem somos e como somos.
-Sobre a Ana Catarina Correia-
Licenciada e mestre em Sociologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto com interesse particular na problemática da deficiência. Foi doutoranda na mesma escola e área disciplinar, num projeto de investigação que versa sobre as políticas para a deficiência em Portugal e na Europa e que dá enfoque à filosofia da Vida Independente e que ainda não foi finalizado.
Atualmente, é técnica no Centro de Apoio à Vida Independente Norte da Associação Centro de Vida Independente. Na mesma organização é dirigente e coordena a delegação do Porto. Colabora, ainda, com outras organizações representativas de pessoas com deficiência. É ainda atleta federada de Boccia pelo Sporting Clube de Espinho e membro da seleção nacional da modalidade desde 2016.
Grande motivação na vida: a crença de que a construção de sociedades justas e inclusivas depende de cada um de nós e que esse será um dos grandes sinais de desenvolvimento humano. E qual é uma das grandes bases para este desenvolvimento? A educação e uma consciência global de Direitos Humanos.