— Que os meus traumas e os teus traumas não se tornem os nossos traumas. E que os nossos traumas não se transformem nos traumas das nossas crianças.

Falo de traumas que são realmente reais, não aquela piadinha de se dizer que se tem um trauma quando não se gosta de gomas verdes, ou assim. Esses “traumas” tratam-se com um like num meme. Falo de traumas que interferem com a nossa vida, com a nossa interação com outras pessoas, que criam padrões de acção que nos fazem fazer a mesma merda de forma cíclica no mesmo campo da nossa vida.

Há situações que constroem traumas, dada a sua agressividade física e/ou psicológica. Muitos traumas, quando não são tratados, explicados, ultrapassados, crescem, tirando qualidade de vida. Além disso, podem, por consequência, traumatizar outras pessoas. O meu trauma pode gerar o teu trauma, se eu não tratar do meu, mas antes te envolver nele: o efeito dominó.

O volume de um trauma não pode ser medido quantitativamente de uma forma meramente racional, mas sim dentro da esfera emocional. Assim, racionalmente, poderemos chegar à conclusão, sozinhas ou com ajuda, de que temos um trauma. No entanto, a sua descoberta tem muito de emocional. O seu tratamento tem tudo de emocional. Um trauma é gerado na nossa esfera emocional através de uma situação vivida, uma realidade, uma perspetiva de realidade, percepcionada, absorvida, e processada. Este trauma pode acabar por integrar a nossa base comportamental, o que vai influenciar a nossa forma de agir em situações ligadas consciente e inconscientemente ao trauma, os chamados “padrões de acção”.

Ainda, a imensidão do trauma, as raízes que cria, está interligada não só à situação traumática e ao seu pós, mas também ao pré: o nosso grau zero de acção antes do trauma. Isto é, o nosso contexto de género, social, geográfico, político e económico, cultural, familiar, vai ditar como a situação vai ser processada na nossa mente. Assim, não podemos indicar o volume quantitativo de um trauma: podemos identificá-lo, examinar as raízes que ele cria, e descobrir a origem, desconstruindo-a. Trata-se de uma escavação arqueológica em terra desconhecida, mesmo sendo nossa: vamos indo e vamos vendo.

Como se fazem essas escavações de traumas? Com amor-próprio e terapia. Há diversas escolas, adaptáveis à necessidade de cada pessoa. Lembra-te de que as pessoas profissionais de saúde são pessoas. Não são todas perfeitas para todas as pacientes. Mas, com certeza, poderás encontrar uma pessoa terapeuta que seja indicada para ti.

Noutro prisma da questão, há uma ideia errada de que um trauma é para esquecer. Não, um trauma é para compreender e ultrapassar. Se o perceberes, vais identificar as raízes, e queimá-las, desde o centro até às pontinhas. Se esconderes o trauma numa caixinha, mais tarde ou mais cedo, a tampa salta e volta tudo ao que estava, ou ainda pior. Imagina uma jardineira fechada no frigorífico durante três meses: o cheiro fica contido pela tampa do tupperware um certo tempo até todo o frigorífico ficar a cheirar mal. Esse Tupperware pode ser a única coisa dentro de um frigorífico extremamente limpo, que vai cheirar mal à mesma.

Bem, pondo a analogia nojenta aqui posta de lado, a única pessoa que realmente pode tratar do trauma, com ajuda, é a pessoa que o tem. Se a pessoa que o tem não o tratar, vai atingir de granada as pessoas à sua volta. Tenho acesso a muitos testemunhos de pessoas que lidam feitas saco de boxe com os traumas dos parceiras, parceiras, parceiros. Muitos filhos, filhas e filhes que acabam por ir para terapia para lidar com traumas dos pais projetados neles. Namorada, Esposa, Namorado, Marido, Filha, Filho, etc. não são terapeutas, são familiares/amigues. Não depositemos nas nossas pessoas próximas o peso de nos curarem.

A maior parte das vezes, as acções de pessoas com traumas por resolver que magoam pessoas à sua volta são explicáveis, mas não devem ser toleradas pela vítima. Tomemos como exemplo um namorado, que é obsessivo e vigia a namorada: “tem de saber” com quem ela fala, com quem interage, com quem sai, quem conhece, provavelmente usando a desculpa que é para a proteger de alguém que lhe possa fazer mal. A sua obsessão, neste caso hipotético, explica-se no facto de nunca ter tido o apoio dos pais na sua juventude, o que faz com que ele sinta que “tem de” garantir que não o abandonam. Ora, este trauma de abandono desenvolve-se aqui como a necessidade de vigiar a namorada. Embora a violência exercida na namorada seja explicável, não justifica, de todo, a violência psicológica que exerce na namorada, nem esta deve ser tolerada pela vítima.

Falando em questões de género, não é novidade nenhuma que a maior parte das pessoas que fazem terapia são mulheres. A pressão social que a masculinidade tóxica provoca nos homens, de que têm de ser fortes, de que não podem ser sentimentais e sensíveis, dificulta o seu à-vontade quanto à procura de ajuda psicológica. Claro que é de esperar que uma pressão que os quer impedir de partilhar os seus sentimentos vulneráveis, os impeça de partilharem os seus sentimentos com vulnerabilidade. No entanto, a masculinidade tóxica é uma realidade, e nunca uma desculpa para violência psicológica.

Ressalvo que os traumas afetam todos os géneros sem excepção.

Não te obrigues a lidar com os traumas de alguém que não está, por sua vez, a lidar com os seus traumas.

Não deposites o peso de lidar com os teus traumas noutra pessoa, o trabalho tem de ser teu, com ajuda profissional.

Namorada/o não é terapeuta.

Mãe/Pai não é terapeuta.

Migues não são terapeutas.
(Mesmo que seja a sua profissão, não podem ser teus terapeutas)

Medicação não substitui terapia. Pode, em situações específicas, complementar.

Nota: A terapia ainda é de acesso privilegiado, economicamente falando. Uma consulta pode variar entre os 35€ e os 75€, em formato particular. Há seguros que te podem ajudar. Fala, também, com a tua médica/médico de família.

Por muito escuro que o presente te possa parecer, melhores dias virão. Luta por isso, luta por ti!

-Sobre Clara Não-

Clara Não é ilustradora e vive no Porto. Licenciada em Design de Comunicação, pela Faculdade de Belas Artes do Porto, e fez Erasmus na Willem de Kooning Academie, em Roterdão, onde focou os seus estudos em Ilustração e Escrita Criativa. Mais tarde, tornou-se mestre em Desenho e Técnicas de Impressão, onde estudou a relação fabular entre Desenho e Escrita. Destaca-se pela irreverência e ironia nas ilustrações, onde reivindica a igualdade, trata tabus da sociedade e explora experiências pessoais.  Em 2019, lançou o seu primeiro livro, editado pela Ideias de Ler, intitulado Miga, esquece lá isso! — Como transformar problemas em risadas de amor-próprio.  Nas horas vagas, canta Britney.

Texto de Clara Não
Fotografia de Another Angelo
gerador-gargantas-soltas-clara-nao