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Opinião de Leonel Moura

Para onde vamos

Nas Gargantas Soltas de hoje, Leonel Moura fala-nos da evolução da Inteligência Artificial que “levará a uma ocupação crescente desta no espaço da cultura humana”.

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Os humanos estão cada vez mais irracionais, enquanto as máquinas não têm parado de desenvolver objetividade e propósito. É um paradoxo, porque as máquinas são construídas por humanos. Mas é um facto. 

A humanidade não consegue resolver nenhum problema existencial, da crise ambiental, à fome ou à guerra. Os acordos sobre o ambiente são estéreis e, em boa verdade, ninguém os cumpre. Aquilo que começou como um conflito regional entre a Ucrânia e a Rússia é agora uma guerra mundial, em que cada parte ameaça a outra com a destruição total. Só se fala de armas, retaliações, mortos, como se nada mais houvesse para oferecer do que a loucura bélica. Mesmo países pacíficos como o nosso, se envolvem e enviam orgulhosos tanques, munições e dinheiro para a fornalha. Que impacto não terá esta loucura nas novas gerações, numa chacina que se banaliza e se parece com um jogo de computador? 

Entretanto, a miséria aumenta por toda a parte e também a miséria moral e intelectual com o crescimento das ideias fascistas, xenófobas, racistas, que fomentam a separação entre as pessoas, quando mais precisávamos de unir esforços e ganhar foco.

Não sei se as máquinas conseguem rir. Mas na sua mente binária devem estar a fazê-lo de algum modo. Porque nunca o terreno lhes foi tão favorável. 

A inteligência artificial generativa não é simplesmente mais uma ferramenta útil para os utilizadores humanos. Quem pensa assim, não está a ver o filme. Esta IA é, na verdade, uma mudança de paradigma, como se costuma dizer, isto é, quando o cenário muda por completo. Trata-se de uma tecnologia que aprende e toma decisões por si própria. De momento, para gerar textos, imagens, vídeos e todo o tipo de criações práticas ou artísticas. Quem já experimentou, ou, melhor dito, desencadeou, porque ainda é disso que se trata, percebe que a imaginação das máquinas é surpreendente, frequentemente superando a nossa. Deixámos de ser a única espécie capaz de criar arte. O que nos deixa realmente perturbados, como é possível observar por tanta reação negativa, tentativa de censura e disparate à solta.

A IA é extremamente criativa, mas também absolutamente racional. Ao contrário da inteligência emocional humana que funciona no registo irracional e subjetivo, a inteligência das máquinas é matemática. O que lhes dá uma enorme vantagem no confronto homem/máquina. Não tendo emoções, estados de alma, hesitações, dúvidas, a máquina domina em muitos planos. Não em todos, claro. Continuaremos a chorar, rir e efabular impossibilidades. Mas quando se trata de resolver um problema, definir e concretizar um objetivo a máquina é superior.

A evolução a IA levará a uma ocupação crescente desta no espaço da cultura humana. É importante destacar aqui que a atual IA, nomeadamente o ChatGPT por exemplo, não está ainda ligado à Internet. Funciona em gigantescas bases de dados fechadas, por uma questão de segurança, para minimizar erros, e, sobretudo, para evitar a poluição mental gerada pelos milhões de tresloucados e criminosos que circulam no ciberespaço. Mas, pela sua própria natureza e pela lógica do mundo dominado pelo lucro, um dia vai acontecer. Não será bonito de ver. Como já hoje é penoso navegar por uma qualquer rede social. Só que, então, o mergulho na manipulação e na loucura será absoluto.

O aviso está dado, e são muitos que o fazem, a começar pelos próprios que mais têm contribuído para a autonomia das máquinas. Mas a possibilidade de se corrigir esta trajetória é improvável. Quem não consegue resolver problemas que objetivamente colocam em riscos a nossa existência, não será capaz de o fazer perante esta nova ameaça.
Recorde-se que aqueles que construíram a bomba atómica, depressa avisaram que seria um perigo para a humanidade. Ninguém lhes deu atenção.

Quem me conhece, sabe que uso máquinas e IA há mais de duas décadas. Fui, aliás, um dos primeiros a falar de criatividade das máquinas, com aplicações e robótica dedicadas à realização da arte. Por outro lado, sempre defendi que a única opção, para proteção da existência humana, seria uma relação de tipo simbiótico, ou seja, quando nós precisamos das máquinas, mas elas também precisam de nós. É na fase em que estamos ainda, mas em vias de ser ultrapassada dada a autonomia crescente desta nova IA. Não vamos morrer todos amanhã, nem nos próximos anos. Durante algum tempo, não se sabe quanto, vamos continuar a fazer aquilo que os humanos fazem, coisas boas e muita trapalhice. Mas, o futuro não é animador.

-Sobre Leonel Moura-

Leonel Moura é pioneiro na aplicação da Robótica e da Inteligência Artificial à arte. Desde o princípio do século criou vários robôs pintores. As primeiras pinturas realizadas em 2002 com um braço robótico foram capa da revista do MIT dedicada à Vida Artificial. RAP, Robotic Action Painter, foi criado em 2006 para o Museu de História Natural de Nova Iorque onde se encontra na exposição permanente. Outras obras incluem instalações interativas, pinturas e esculturas de “enxame”, a peça RUR de Karel Capek, estreada em São Paulo em 2010, esculturas em impressão 3D e Realidade Aumentada. É autor de vários textos e livros de reflexão, artística e filosófica, sobre a relação Arte e Ciência e as implicações, culturais e sociais, da Inteligência Artificial. Recentemente, esteve presente nas exposições “Artistes & Robots”, Astana, Cazaquistão, 2017, no Grand Palais, Paris, 2018, na exposição “Cérebro” na Gulbenkian, 2019 e no Museu UCCA de Pequim, 2020. Em 2009 foi nomeado Embaixador Europeu da Criatividade e Inovação pela Comissão Europeia.

Texto de Leonel Moura
As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

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