fbpx

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Opinião de Manuel Luar

Páscoa no Prato

A tradição mandava que a Páscoa (até mais do que o Natal) se passasse na…

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

A tradição mandava que a Páscoa (até mais do que o Natal) se passasse na casa da Serra da Estrela, na pequena quinta que pertencia à família de meus sogros há já muitos anos.

O cascavélico (habitante de Cascais) não deixava de  trazer para a Serra o bom peixe da costa atlântica para os dias magros da quadra pascal: Corvina e Garoupa para cozer; raia, cação, tamboril e safio para uma caldeirada feita “à pescador” com tudo posto em cru e apurando cerca de uma hora em tacho forrado de cebolas.

Nesses dias – Quinta e Sexta Feira Santas – bebia-se o excelente branco da casa, feito pelo meu sogro com as suas uvas, simplesmente refrescado à temperatura da adega virada a norte e bem fria, onde repousava em garrafas empinadas.

No Sábado de Aleluia largavam-se os fastios e guisava-se para o almoço uma Feijoca à Pastor da Serra – uma boa puxada de carnes de vaca (chambão) , pé de porco e chouriço caseiro da matança, que é misturada ao feijão branco grosso (feijoca) que esteve previamente de molho, cozeu e refogou-se em seguida. O segredo é só a lentidão da execução ao lume, com as carnes a embeberem no molho grosso largado pela feijoca em lenta cozedura que leva bem umas quatro horas sempre no mínimo do bico do fogão.

Para acompanhar um tinto da mesma lavra caseira, que se ia tirar diretamente do pipo.

Para o Domingo de Páscoa começavam as preparações logo no Sábado: Agriões, alfaces e tomates foram muito bem lavados para as diversas saladas (de agrião com cebola, de tomate com cebola e de alface também com cebola). O pastor que andava nesse ano a pastar as suas ovelhas no prado da quinta, em frente à casa, oferecia um borrego “mamão” - um pouco grande para os hábitos das nossas cidades, onde o tamanho é indicador de carne mais tenra -  mas aqui na origem  esta ainda era a carne mais saborosa.

Fazia parte da “renda” que o pastor pagava, para além dos borregos, uma certa quantidade de Queijo da Serra feito pela sua mulher. Logo no mesmo Sábado à noite, enquanto esperávamos para jantar, lá chegava uma canastra com os queijos. Um deles era logo “apartado” para o almoço do dia seguinte.

No dia seguinte o forno ligava-se às 8.00h da manhã e começava a assar. Descascavam-se as batatas para fritar (não cabiam no forno por causa do tamanho do borrego) e fazia-se Leite Creme e Arroz Doce enquanto se esperava.

Nesses dias especiais ia à adega retirar uma garrafa magnum da minha reserva particular. Normalmente um Dão engarrafado pelo Dr. Rodrigo Santos Lima na sua Quinta da Passarela (em Silgueiros).

O borrego assado dava o melhor de si próprio, como seria de esperar quase depois de três horas  e meia de forno lento, e só a prova do queijo de entorna nos levava (por excesso) a  ir buscar um Porto Vintage Fonseca Guimaraens de 1967.

Tanto o “Santos Lima” como este Porto ainda foram comprados ao saudoso amigo Dr. Chambel, do Fórum Prior do Crato.

São as saudades da família e dos amigos ausentes que fizeram este texto de hoje.  

Páscoa de há vinte anos. Que boa era…

-Sobre Manuel Luar-

Manuel Luar é o pseudónimo de alguém que nasceu em Lisboa, a 31 de agosto de 1955, tendo concluído a Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, em 1976. Foi Professor Auxiliar Convidado do ISCTE em Métodos Quantitativos de Gestão, entre 1977 e 2006. Colaborou em Mestrados, Pós-Graduações e Programas de Doutoramento no ISCTE e no IST. É diretor de Edições (livros) e de Emissões (selos) dos CTT, desde 1991, administrador executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações em representação do Instituidor CTT e foi Chairman da Associação Mundial para o Desenvolvimento da Filatelia (ONU) desde 2006 e até 2012. A gastronomia e cozinha tradicional portuguesa são um dos seus interesses.  Editou centenas de selos postais sobre a Gastronomia de Portugal e ainda 11 livros bilingues escritos pelos maiores especialistas nesses assuntos. São mais de 2000 páginas e de 57 000 volumes vendidos, onde se divulgou por todo o mundo a arte da Gastronomia Portuguesa. Publica crónicas de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de André Carrilho 

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

24 Dezembro 2025

Medo de assentar

10 Dezembro 2025

Dia 18 de janeiro não votamos no Presidente da República

3 Dezembro 2025

Estado daquilo que é violento

26 Novembro 2025

Uma filha aos 56: carta ao futuro

19 Novembro 2025

Desconversar sobre racismo é privilégio branco

5 Novembro 2025

Por trás da Burqa: o Feminacionalismo em ascensão

29 Outubro 2025

Catarina e a beleza de criar desconforto

22 Outubro 2025

O que tem a imigração de tão extraordinário?

15 Outubro 2025

Proximidade e política

7 Outubro 2025

Fronteira

Academia: Programa de pensamento crítico do Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Autor Leitor: um livro escrito com quem lê 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

17 novembro 2025

A profissão com nome de liberdade

Durante o século XX, as linhas de água de Portugal contavam com o zelo próximo e permanente dos guarda-rios: figuras de autoridade que percorriam diariamente as margens, mediavam conflitos e garantiam a preservação daquele bem comum. A profissão foi extinta em 1995. Nos últimos anos, na tentativa de fazer face aos desafios cada vez mais urgentes pela preservação dos recursos hídricos, têm ressurgido pelo país novos guarda-rios.

27 outubro 2025

Inseminação caseira: engravidar fora do sistema

Perante as falhas do serviço público e os preços altos do privado, procuram-se alternativas. Com kits comprados pela Internet, a inseminação caseira é feita de forma improvisada e longe de qualquer vigilância médica. Redes sociais facilitam o encontro de dadores e tentantes, gerando um ambiente complexo, onde o risco convive com a boa vontade. Entidades de saúde alertam para o perigo de transmissão de doenças, lesões e até problemas legais de uma prática sem regulação.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0