Não temos de nos esforçar muito para sentirmos que há qualquer coisa de diferente no ar nestes últimos tempos. Nem toda a gente o sente da mesma maneira, muito menos tem consciência disso. Mas, de alguma forma, todos nos podemos imaginar a percorrer um longo caminho sem vermos o destino, cada vez mais nocturno, cada vez mais desconhecido, cada vez mais esmagador.
Óbvio que há um ponto de partida concreto e observável. Tudo começou com uma pandemia que parou a humanidade, algo que nunca tínhamos vivido numa era tão desenvolvida. A ela juntou-se a vitória do populismo extremista nos EUA e no Reino Unido, com o Brexit, que ainda nos custa a entender e que estendeu a mesa para o que se pode vir a cozinhar a seguir. Segue-se uma invasão de um país na Europa pelas mãos de um louco, acabando com a vida de dezenas de milhares de pessoas. E culmina com uma inflação galopante nos países ocidentais que mandou tropeçar economias e arrasar lares das populações com maiores desafios socioeconómicos.
Tudo isto aconteceu em pouco mais de 3 anos.
O curioso, no entanto, se é que esta palavra pode ser usada neste contexto, é a sensação que estamos no início de algo, e não no fim.
O caldeirão do futuro tem ingredientes em preparação que não são propriamente saborosos. A ascendência da extrema-direita nas democracias não tem fim, a disputa da liderança mundial pela China está cada vez mais consagrada, as grandes empresas continuam a concentrar-se à procura de monopólios, o combate às alterações climáticas foi abandonado e a inteligência artificial vai revolucionar a tecnologia como nunca.
Ao mesmo tempo constata-se que a grande maioria da população está indiferente aos movimentos destas placas tectónicas. Fomos habituados a pensar em assuntos menores, em tricas, em novelas, no pequeno dinheiro, na imagem. A educação não nos deu as ferramentas para reflectirmos sobre os temas essenciais do planeta.
Estruturalmente, precisamos de uma nova educação, claro. É urgente reinventar o modo como ensinamos pessoas, dando-lhes as ferramentas para serem criativas e críticas. Mas essa transformação vai durar umas dezenas de anos, talvez mais de uma geração.
Por isso, nesta fase, resta-nos tentar alertar as pessoas. Encontrar modelos informativos que enderecem as questões fundamentais, que sejam honestos e sólidos, que não queiram fugir rapidamente para o soundbyte comum.
Só que é difícil pensar em que pode liderar esta vaga de informação. Os órgãos de comunicação social detidos pelo Estado estão ocupados a demonstrar que o Estado não os controla. Os projetos de media empresariais, com muito poucas excepções, estão fixados na ideia de alcançar o poder a todo o custo, para proveito futuro dos seus detentores.
Resta-nos, apenas, uma solução, assim de repente: os projetos editoriais independentes. São entidades que não dependem de um dono (ou de um conjunto de donos escondidos atrás de empresas fachada), que estão organizadas num formato associativo, colaborativo e não colocam as audiências ou o lucro como o topo das suas prioridades. São verdadeiramente livres, interessadas em fazer um jornalismo sério e consequente, com vontade de abordar as matérias que importam.
Precisamos de descobrir fórmulas para consolidar projetos editoriais independentes, mas, acima de tudo, necessitamos de novos empreendimentos jornalísticos livres. Será através da soma de todos que será possível contribuir para despertarmos a sociedade.
-Sobre Tiago Sigorelho-
Esteve ligado durante 15 anos ao setor das telecomunicações, onde chegou a Diretor de Estratégia de Marca do Grupo PT, com responsabilidades das marcas nacionais e internacionais e da investigação e estudos de mercado. Em 2014 criou o Gerador e tem sido o presidente da direção desde a sua fundação. Tem continuamente criado novas iniciativas relevantes para aproximar as pessoas à cultura, arte, jornalismo e educação, como a Revista Gerador, o Trampolim Gerador, o Barómetro da Cultura, o Festival Descobre o Teu Interior, a Ignição Gerador ou o Festival Cidades Resilientes. Nos últimos 10 anos tem sido convidado regularmente para ensinar num conjunto de escolas e universidades do país e já publicou mais de 50 textos na sua coluna quinzenal no site Gerador, abordando os principais temas relacionados com o progresso da sociedade.