Em 1817, após o Congresso de Viena, decretou-se a restituição de Olivenza (em português “Olivença”), ocupada por Espanha em 1801, a Portugal. Essa obrigação, ignorada por “nuestros hermanos”, tornou-se num diferendo entre os dois países, sendo que até hoje Portugal não reconhece a soberania espanhola daquele território.

Ao pegar nesta velha questão portuguesa, o encenador e dramaturgo Ricardo Neves-Neves traz para o palco a peça A Reconquista de Olivenza, um retrato trágico-cómico da história do país pontuado por referências ao universo da animação e dos videojogos, que estreia no próximo dia 6 de fevereiro, no Teatro São Luiz, em Lisboa.

Mais do que uma qualquer tentativa de recriação histórica ou de reflexão sobre as relações de poder entre os dois países, A Reconquista de Olivenza apela ao universo onírico, um tanto ou quanto satírico, que coloca Portugal numa possível monarquia, onde não faltam elementos polémicos sobre a história política, económica e social do país.

Para o exercício de escrita da peça, Ricardo Neves-Neves conta que pensou num jovem estudante, que em véspera de um exame de História, acaba por misturar num sonho as diversas referências factuais com as suas referências de videojogos e de animação. “Gostava que o espetador visse a peça como se estivesse a olhar para o sonho deste jovem”, explicou o encenador após um ensaio de imprensa, sublinhando que neste âmbito Olivenza acaba por servir apenas como um “pretexto” ficcional.

A partir destes elementos, a nova peça, que conta com a participação do pianista e compositor Filipe Raposo, na orquestração, materializa um exercício essencialmente fantasioso, onde a dialéctica entre certos conceitos primordiais aos jogos de poder não faltam. Pela voz da corte portuguesa, representada pela Rainha-Mãe, inspirada em D. Maria II, e pelos seus filhos, os infantes D. Beatriz e D. Sebastião, fala-se de política, guerra, soberania e revolução, numa peça que deambula entre um franzido passado monárquico do país, e um tempo atual impactado por temas como a sexualidade ou a religião.

A peça de Ricardo Neves-Neves conta com um elenco de 22 atores © Estelle Valente

“Olivenza acabou por ser um género de coincidência muito prática. É um exercício de sobreposição de como é que seria se Portugal ainda vivesse numa monarquia mas com tudo aquilo que vemos nos jornais de escândalos sobre o Estado e a vida portuguesa”, salienta.

A peça, ambientada por música de inspiração barroca, de corte, mas também do universo cinematográfico, é feita segundo um modelo de arqueologia. Ao encenador não interessou evidenciar apenas factos conhecidos da história de Portugal, à qual está inerente a narrativa mítica do Quinto Império – crença messiânica-milenarista reformada pelo padre António Vieira -, mas também um vasto universo de referências, que vão do cinema aos videojogos, estabelecendo dessa forma um profundo diálogo entre um passado que é estudado no sistema de ensino e um presente/futuro, que diz respeito à nossa experiência contemporânea.

Assim, em A Reconquista de Olivenza somos levados numa viagem – que vai de Lisboa a Olivenza, passando por outros lugares, como Ceuta ou a Palestina –, na qual a corte portuguesa, se propõem finalmente a reconquistar esse malogrado território que impede o país de poder, finalmente, concretizar o desejo mítico de “cumprir Portugal”. Mais do que essa reconquista é preciso que lá consigam recuperar a última bola de cristal, necessário para a concretização desse objetivo.

Sim, leram bem. Toda a peça é marcada por um profundo cruzamento entre a história de Portugal com o universo de Dragon Ball e de outros, nomeadamente do universo cinematográfico, com referências a Mary Poppins ou à saga de Guerra das Estrelas. Nesta odisseia, simultaneamente reflexiva e crítica da história do país, a corte portuguesa espera com isso virar a página de um país e de um povo em busca de si próprio.

A Reconquista de Olivenza conta com interpretação de Ana Valentim, Bruno Huca, David Mesquita, David Pereira Bastos, Diana Vaz, Joana Campelo, Márcia Cardoso, Rafael Gomes, Rita Cruz, Ruben Madureira, Sandra Faleiro, Samuel Alves, Sílvia Figueiredo, Sílvia Filipe, Sissi Martins, Susana Madeira, Tadeu Faustino, Tânia Alves, Teresa Coutinho, Teresa Faria, Tiago da Cruz e Vítor Oliveira.

Depois do Teatro São Luiz, onde se mantém até dia 16, a peça, que será acompanhada por uma orquestra dirigida pelo maestro Cesário Costa, segue para Loulé, ficando em cena no Cineteatro Louletano, nos dias 21 e 22 de fevereiro.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de Filipe Ferreira

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