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Roberto Saraiva: “Os descendentes de africanos nem possuem um lugar nas estatísticas nacionais”

Uma entrevista a Roberto Saraiva, autor da obra literária “O Regresso da Pangeia”, originalmente publicada na Revista Gerador 43, que podes descobrir também em baixo.

Texto de Amina Bawa

©Rafaela Lima

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Roberto Saraiva, escritor português de ascendência angolana, encontrou na literatura um refúgio desde sua juventude. Nascido em caldas da rainha numa família dividida entre continentes, a sua identidade esteve sempre mais ligada ao espaço intelectual do que ao geográfico.

Influenciado por autores como Saramago, Pepetela e García Márquez, acredita que o lugar de um escritor é onde os leitores o encontram, não onde nasceu. Graduado em direito pela Universidade do Porto, atualmente está a fazer o mestrado em Direito Internacional Público e Europeu na Universidade de Coimbra.

Apesar da sua formação académica, a literatura continua a ser parte da sua vida, tendo publicado o romance O Casamento da Filha do Senhor Nogueira, em destaque na Mostra Nacional de Jovens Criadores e tendo vencido o primeiro prémio no Concurso de Ensaio promovido no âmbito do Congresso Internacional José Saramago – 20 anos com o Prémio Nobel, em 2018.

Conversamos com o autor da obra literária desta edição sobre as suas inspirações.

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O Regresso da Pangeia 

Prólogo

A humanidade fez da sua casa um planeta assombrado por convulsões geográficas. A crosta terrestre é altamente permeável ao fogo no seu interior, que, com a força das suas labaredas irascíveis, faz movimentar os grandes continentes como se tratassem de tesselas rochosas. Na superfície, surge um mosaico delicado construído ao longo de séculos. Durante muito tempo, o Homem, na sua ignorância, pensou que ele era o único ser capaz de fazer mover o mundo. Na realidade, os continentes sempre dispuseram de meios para fazerem as migrações que desejassem. Lentamente, a grande massa rochosa cedeu à pressão do tempo e desmembrou-se. Surgiram grandes oceanos e mares inundados de distância e saudade. No meio do globo, uma jangada de pedra flutuava sem rumo. A força que emanava do interior do solo empurrou-a contra um grande desfiladeiro, cuja silhueta se assemelhava a uma mulher estendida de perfil. O embate deu origem a aquilo que hoje chamamos Pirenéus. A sul formava-se uma entidade que, no passado, se encontrava anexada à jangada anteriormente referida, mas agora estava distante e inacessível. Separada por um mediterrâneo traiçoeiro. Assim ruiu a Pangeia. Juntou-se a Península Ibérica ao resto da Europa. Distanciou-se África do resto do mundo. E separou-se um pai do seu filho. 

«O homem que tinha à sua frente não era simplesmente velho, como começara por lhe parecer no avião, mas um jovem em início de vida, um velho doente, nascido de novo.»

Djaimilia Pereira de Almeida, in Luanda, Lisboa, Paraíso 

I – O Reencontro 

Quem és tu?

O que é que queres dizer, quem sou eu? O rosto de um filho é sempre reconhecível para um pai. O contrário também é verdade. A minha cara está desfigurada. O rosto cansado. A pele enrugada. O meu corpo é o de um ser decrépito, desgastado pelo tempo. Mas continuo o mesmo homem.

Eu sou o teu pai.

Mas tu, meu filho, não me reconheces. Recebes-me na tua casa sem qualquer sinal de afeto. Não recebo qualquer abraço. Sou um hóspede numa estalagem que me é hostil. Fazes-me perguntas banais, e eu respondo com respostas banais. O silêncio cala o que o coração sente. 

As paredes da tua casa são firmes, mas escondem uma solidão profunda. A decoração é elegante, porém, a luxuosidades dos móveis é assombrada por um vazio perturbador. Sinto-te perdido numa casa que parece simbolizar o mundo que construíste só para ti. Não há qualquer resquício de Angola no teu lar. Um antigo mapa colonial, datado da década de 60 e pertencente aos teus avós, é a única lembrança que tu tens da tua terra. O nome de algumas cidades está incorreto. Nova Lisboa, por exemplo, já não existe. Todas as paredes da tua casa estão engalanadas com obras de arte europeias contemporâneas. Ironicamente, a única peça originária da tua terra está desatualizada. Estás preso num limbo que se estende desde o Velho Continente até a tua terra natal, mas também entre o passado e o futuro. 

Agora eu também estou preso nesse limbo. Caminhei em busca de um abraço e apenas recebi a frieza dum sorriso cordial. Na austeridade do teu cumprimento, concluo que a minha viagem foi um falhanço. Ambicionei regressar a Portugal, volvidos vinte anos do final da guerra em Angola, mas o conflito continua no seio da minha família. 

O meu próprio filho não me reconhece. Perdi-o para o mundo. O pai que deixa de ser reconhecido pelo próprio filho, deixa de poder ser tratado como homem. Quando se traz um novo ser ao mundo, aumenta-se a carga da humanidade. Por isso, um pai não é só responsável perante o seu filho, mas sim o mundo inteiro. Mas os homens não são perfeitos. Por vezes não conseguem cumprir os seus deveres e falham perante os descendentes. Quando isso acontece os teus pares repudiam-te. O pai que não é amado pelo próprio filho comete um crime contra a humanidade

Mas, pergunto eu, quantos criminosos haverá neste mundo?

Perdoa o teu pai, meu filho. Perdoa-me. 

Um dia, serás tu o criminoso à espera de absolvição.

 «A utopia morreu. E hoje cheira mal, como qualquer corpo em putrefação. Dela só resta um discurso vazio.»

Pepetela, in A Geração da Utopia

II – O Caminho

A guerra, enquanto dura, cala a voz dos fracos. Quando acaba, silencia as armas dos poderosos. Diz-me, o que é que fizeste desde que a paz se instalou em Luanda? As regras do jogo inverteram-se, as armas dos militares tornaram-se inúteis. A cidade era um aterro de desgraçados fugidos do interior e políticos embebidos de uma prepotência incomensurável. Um mar de ruas caóticas, repletas de destroços de um conflito de décadas. O sonho morreu com a queda do muro de Berlim, mas tu continuaste a lutar. O vermelho do teu sangue desce sob o teu corpo como um rio que corre sem rumo. Dentro das tuas veias, o percurso fluvial sanguinário encontra-se cheio de embarcações que navegam a água sanguinária e são a materialização dos teus defeitos. A nau da arrogância viaja sem rumo. Enquanto o veleiro da prepotência está encalhado. 

Quando a guerra acabou tu, como todos os grandes guerrilheiros, perguntaste: como foi possível termos feito esta guerra? O silêncio dos fracos, os podres e desgraçados, pairou sobre o ar. Somente a voz de Kianda se fez ouvir.

Meus excelentíssimos senhores, bravos guerreiros, como é que foi possível terem feito esta guerra durante tanto tempo? Já viram quantas mães foram precisas para fazer esta guerra? Quantos ventres se tornaram incubadoras de órfãos de guerra? Desde o Huambo até Cuito Cuanavale, a ambição dos homens destruiu esta terra. 

A paz tornou-te inútil. Um objeto obsoleto. A reforma foi a tua única opção. E com ela a desolação do teu fracasso. Enquanto militar. Enquanto homem. Enquanto pai.

Voltaste para mim, mas o teu percurso não foi de um homem a atravessar um continente ao encontro de uma vitória. Mas sim o de um soldado a fugir de uma derrota. O teu caminho foi assombrado por dois continentes desencontrados, que encurralaram a tua alma num abismo existencial. Á medida que andavas em direção a norte, ias abandonado a tua casa, mas também abdicando da tua história. Tornaste-te numa relíquia. Um artefacto histórico. Um pêndulo que oscila entre a paz e a guerra. O passado e o futuro. A África e a Europa. Saíste de Luanda à procura de glória que seria reencontrar o teu filho, mas foste surpreendido por um silêncio que dilacerou o teu coração. 

Viajaste durante tanto tempo, e o meu desprezo desiludiu-te. Caminhaste durante mais de setenta dias. Percorreste estradas infindáveis e mais de setecentos quilómetros, somente para seres confrontado com o facto de a distância não ser uma realidade meramente geográfica. A distância também pode se fazer sentir na falta de um abraço ou na frieza de um sorriso. 

Pai, abandonaste Luanda e percorreste o Norte de Angola. Encontraste a impressão digital da rainha Ginga nas pedras de Pungo-Andongo. Como um pastor sem gado, perdeste-te pelas ruínas de Mbanza Kongo. Fizeste uma incursão pela floresta de Mayombe, onde grandes guerreiros lutaram e grandes livros foram escritos em sua homenagem. Passaste a fronteira e rumaste em direção ao Congo. Navegaste por entre o rio e deambulaste por entre a floresta. Encontraste uma zona rica cheia de pobres. Fizeste um pequeno desvio e passaste por Camarões. Diz-me, falas-te francês ou inglês naquela terra distante? Quando passaste pelo golfo da Nigéria, saciaste a tua sede nas fontes de água recheadas de petróleo? À medida que foste subindo, mudaste de religião, assim como a população nigeriana mudava a sua confissão religiosa? Cedeste aos encantos do norte muçulmano? Não me parece, porque enfrentaste o deserto do Saara como Santo Antão enfrentou as tentações que o Diabo lhe ofereceu, embebido de um catolicismo fervoroso. Primeiro, deambulaste por entre os monumentos históricos de Timbuktu, depois aventuraste-te por Argélia. Por fim, Marrocos. Encontraste uma confusão de ruas e casas contruídas como se castelos de areia se tratassem. Andaste mais uma centena de quilómetros e chegaste a Ceuta, onde saltaste para a água como um campeão olímpico. Alcançaste Gibraltar e terminaste a tua viagem.

E agora pergunto-te, para quê? Deixaste um menino africano numa europa distante. Ironicamente, para tentar construir uma utopia europeia em África. Mas reencontraste um homem europeu, num corpo de um menino africano. A melanina impede-me de ganhar rugas, mas cresci. Preso entre o abismo de dois continentes e duas culturas distantes. Passados tantos anos, encontro-me como um dos pobres membros do gado de Noé e espero a notícia de que haja um lugar para mim. Uma terra fértil. Um pedaço de terra onde possa ser eu. O menino africano e o homem europeu. A simbiose de dois mundos opostos. Vejo nos teus olhos que esse é o ser que procuras.

Não te espera nenhuma rejubilação ou congratulação. Apenas o silêncio do nosso reencontro, que esconde as palavras que tanto receamos. Guerra e paz. África e Europa. Angola e Portugal. Amor e saudade.

Epílogo

O homem ficou desolado com a rejeição do filho. Deitou uma lágrima e pediu a Deus que os continentes nunca se tivessem separado. Fechou os olhos e implorou pelo regresso da Pangeia. O homem queria, Deus sonhou, e a obra nasceu. A água do Mediterrâneo evaporou-se. Gibraltar uniu-se a Ceuta. África e Europa eram agora uma única entidade. Inseparáveis pela ação da geologia. A força das placas tectónicas desafiara a realidade geopolítica. Contudo, naquela sala de jantar, o filho servia ao seu pai um prato de muamba de galinha cuja guarnição, por desrespeito à tradição angolana, era um bocado de arroz branco. Ao saborear o prato, o pai sentiu a falta do funje no seu paladar. O filho demorou para terminar a refeição, o jingundo ardia dentro da garganta. E assim, sentados na mesma mesa, mesmo estando África unida à Europa, pai e filho nunca estiveram tão distantes.

Qual é o papel da literatura na sua opinião?

Aquele que o leitor quiser. Podemos tecer teorias sobre a hermenêutica como, por exemplo, o fez Umberto Eco, mas, em último caso, essa pergunta deve ser respondida pelo leitor. É ele que cria o verdadeiro significado da literatura através do uso que faz dos livros.

O texto que escreveu para a Revista Gerador exala uma dualidade entre o prólogo e o epílogo, reencontro e caminho, África e Europa. Essa poderia ser uma materialização do que tem vivido enquanto português de ascendência angolana?

Acho que essa é uma questão que devia ser respondida pela comunidade. Primeiro, porque não é uma realidade experienciada somente por mim, depois, porque, em Portugal, nota-se a ausência de um debate sério sobre as migrações e, consequentemente, as relações raciais que daí derivam. Em outros lugares, fala-se de uma categoria especial: os afro-europeus. Em Portugal, não existe essa categoria, quer seja a nível político, jurídico ou até social. Os descendentes de africanos nem possuem um lugar nas estatísticas nacionais. Mas eu acredito que, futuramente, iremos presenciar a emancipação do afro-europeu. Os livros de Djaimilia Pereira Almeida ou a obra de Grada Kilomba são um grande exemplo disso. Dito isto, não arrisco afirmar que a minha experiência seja universal, mas reconheço que, entre nós, os afro-europeus, existem várias características comuns. Desde a origem, África, passando pela ligação a Portugal, até o futuro desejado, a igualdade.

Existe um não lugar para os escritores?

Não queria romantizar o ato de escrever, mas acho que ao escritor é permitido (se não mesmo exigido) que encontre um lugar só para ele. Não um espaço de solidão e reclusão, mas sim de introspeção e liberdade. Um espaço despojado de construções como a nacionalidade ou a raça. Pode ser difícil encontrar esse não lugar porque um autor é também um cidadão e, como tal, é difícil desfazer-se da realidade onde se encontra inserido. Contudo, escrever é também viver a outra pessoa. É contar a história de outrem e conseguir sentir também o que alguém poderá ter experienciado. Para isso, é necessário abstrair-se e encontrar um não lugar. Um espaço onde as personagens possam assumir o papel de intervenientes complexos, dotados de uma humanidade que trespassa a bidimensionalidade da página; ao invés de indivíduos cuja certidão de nascimento dita o seu destino.

Como analisa a relação entre as fronteiras e as palavras?

Eu diria que ambas são instrumentos que o ser humano inventou para exprimir qualquer coisa. Um desejo ou uma vontade, quer seja de poder ou de controlo. Mas também um fator de comunicação ou ponto de contacto. O que divide também pode juntar. Isso é válido tanto para o vocabulário como para as barreiras impostas pela geopolítica.

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