As notícias são feitas de momentos e de eventos sensacionalistas: ora é covid-19, ora é guerra, ora é alguém que fez algo viral..., mas há algo que, apesar de não estar constantemente em foco, não deixa de ser evidente: as alterações climáticas. Um problema real mas que, ao mesmo tempo, parte da população parece já não sentir que seja relevante. Se for o vosso caso, não desistam já, fiquem comigo!
O clima mundial está a sofrer alterações com consequências devastantes. Sabemos que as alterações climáticas existem e que é necessário agirmos com urgência para as mitigarmos. Não é algo de hoje, foi em 1965 que cientistas norte-americanos demostraram, pela primeira vez, preocupação quanto às consequências dos gases de efeitos de estufa, e inúmeros cientistas já confirmaram que a sua principal causa somos nós, humanos e as nossas atividades, como a desflorestação e a queima de combustíveis fósseis.
Conor Seyle, psicólogo político e diretor de pesquisas da Fundação One Earth Future, afirma que a espécie humana evoluiu de forma a focar-se nas ameaças imediatas – as ameaças menos prováveis mas mais fáceis de lembrar são superestimadas (como o terrorismo) e as ameaças mais complexas e que necessitam foco a longo prazo são menosprezadas (como as alterações climáticas). Ao longo da nossa evolução, isto permitiu salvar aos nossos cérebros tempo e energia. No entanto, esta “poupança” significa que, na realidade atual, ocorrem erros ao tomar decisões racionais quanto a desafios a longo prazo - erros estes conhecidos como vieses cognitivos.
O relatório do IPCC (Intergovernamental Panel on Climate Change) das Nações Unidas - escrito por mais de 200 cientistas de 60 países, e composto por 3500 páginas com citações de cerca de 14.000 artigos científicos – confirma-nos que o aquecimento global provocado por atividades humanas é a causa de alterações climáticas com consequências que serão irreversíveis nos próximos séculos, e que é urgente agirmos já para reduzirmos o aumento das temperaturas globais. Temos toda a evidência e sabemos que as consequências não serão nada positivas, nem para o Planeta nem para quem nele vive. Ainda assim, porque é que algumas pessoas se preocupam tanto enquanto outras continuam céticas? É aqui que entram os vieses cognitivos.
O “bystander effect” ou “efeito espectador”, foi identificado por psicólogos como uma das razões pelas quais não estamos a agir com a urgência necessária na luta contra as alterações climáticas. Este efeito está relacionado com o facto de acreditarmos que outras pessoas, que não nós, são as responsáveis por lidar com a crise climática e, por isso, as nossas ações individuais não são necessárias. Uma percepção totalmente errada, pois na luta climática todas as ações contam, tanto coletivas como individuais, por pequenas que possam parecer. Aqui, a questão social é também muito importante, e é onde entra o viés de percepção: é mais fácil agirmos e mudarmos comportamentos quando aqueles que nos são mais próximos também o fazem. Se estivermos rodeados por pessoas que se preocupam e que fazem parte da luta climática, é mais provável que façamos o mesmo.
Quando se fala de luta climática, o viés de atenção tem também um papel importante – a forma como processamos informação é afetada pelas nossas crenças, objetivos e até motivações políticas. Não importa se 97% dos cientistas climáticos confirmam que as atividades humanas são a principal causa do aquecimento global. Se, interiormente, não quisermos acreditar neste facto, o viés de atenção vai fazer com que processemos a informação que vemos de forma a confirmar que os humanos não são os culpados e que não é assim tão urgente mudarmos. E vamos procurar intencionalmente informações que confirmem as nossas crenças anteriores e ignorar informações que nos contradigam (viés de confirmação). Por fim, o viés de “ação única”, que acontece quando fazemos uma única ação pela luta climática que cremos que tem muito impacto e automaticamente percecionamos o risco das alterações climáticas como sendo muito menor.
Felizmente, apesar de a nossa evolução não nos ter equipado com uma boa percepção de tendências e mudanças a longo prazo, equipou-nos com uma boa capacidade mental para recordar eventos do passado e antecipar cenários para o futuro. Assim, e liderados por um grupo de pessoas preocupadas e informadas sobre as alterações climáticas e os seus impactos, a espécie humana já começou a pôr em prática ações com o objetivo de mitigar as alterações climáticas – por exemplo, através do Acordo de Paris, um tratado internacional que reúne um conjunto de objetivos e metas que a maioria dos países do mundo se comprometem a atingir, e do plano de neutralidade de carbono da UE para 2050.
Enquanto humanos evoluímos de homens das cavernas, cujo principal foco era caçar e sobreviver a cada dia, para uma espécie evoluída e com capacidades mentais, físicas, sociais e tecnológicas para parar as mudanças climáticas causadas por nós mesmos. Para tornarmos o nosso Planeta num lugar confortável para vivermos. Para nos mantermos informados sobre o que se passa à nossa volta e sobre o que podemos fazer para ser parte da solução e não do problema. É essencial percebermos que temos de agir agora, fazermos escolhas mais conscientes, ser cidadãos participativos, focarmo-nos em informações atuais e credíveis, e não nos sentirmos sozinhos nesta luta.
Já temos a teoria do que é preciso fazer. Agora só nos falta pôr mãos à obra e agir!
-Sobre a Bárbara Marques-
Abrantina, licenciada em Turismo Internacional e Gestão de Empresas e atualmente frequenta o mestrado em Desenvolvimento Sustentável. Trabalhou nas áreas de turismo e educação. Passou um ano a viajar de bicicleta pela Europa - do Cabo da Roca ao Cabo Norte e regresso - o que lhe permitiu “abrir os olhos” para a realidade de outras culturas. Apaixonada pela natureza e praticante de desportos de aventura, tem uma grande conexão e preocupação pelo meio ambiente. Host do podcast Planeta Berde, um podcast que descomplica a sustentabilidade; parte das equipas dos projetos Reciclar não Chega e Janeiro Sustentável, que ajudam a consciencializar as pessoas sobre este tema; e da equipa Youth Cluster onde está a desenvolver atividades baseadas em educação não formal na mesma área.