Sou mãe. Às vezes ainda é estranho para mim reconhecê-lo, embora se torne cada vez mais fácil.
Quando é que me tornei mãe?
Pode ter sido quando tive o teste positivo, pode ter sido quando tive a maior certeza possível da viabilidade da gravidez. Ou quando demos um nome ao nosso filho, ou apenas quando o pari. Ainda depois disso tudo, saber-me mãe era estranho.
Nos primeiros dias de vida do meu filho, o pai dele e eu largámos os nossos nomes e começámos a chamar-nos pelo nosso papel de progenitor. Sempre achei que ser mãe não deveria ameaçar a minha identidade, a minha essência. Seria a Catarina e seria também mãe, entre muitas outras coisas. Mas quando atravessei a experiência do parto e aquela vida indefesa se tornou a minha prioridade, senti que não era eu mãe, nem era aquele o meu filho.
Por isso, gostei que o meu companheiro me chamasse “mãe”. Gostei que as pessoas me chamassem “mãe” quando eu passeava com o meu bebé, mesmo que não me conhecessem. Ajudou a que a maternidade se me entranhasse.
Quando o meu filho tinha três meses fui a Lisboa, ao jantar de aniversário de um amigo, sozinha. No caminho para lá, sentia-me revigorada, independente. Precisava daquela pausa, daquele momento de recreio, de beber um copo, de ver pessoas. De deixar de ser mãe, ainda que temporariamente. Quando cheguei, custou-me que continuassem a chamar-me assim. Amigos e amigos de amigos faziam-no com doçura, mas não gostei. Naquele momento, queria sentir-me tudo menos mãe.
Passaram-se quase três meses desde então e eis que me aventurei num festival de música sem bebé. Aqui, ninguém me chama “mãe”, nem sequer o pai dele, e ninguém sabe que o sou. E, curiosamente, a libertação que esperava sentir, não a encontro. Desta vez, só penso no meu bebé. Quero dizer a toda a gente que sou mãe, que não sou só a Catarina; que sinto saudades do meu filho. Quero acordar com ele, dar-lhe beijinhos, mudar-lhe a fralda e embalá-lo. As canções que lhe canto ecoam constantemente na minha cabeça, mesmo quando estou na pista de dança. Aguardo o dia em que isso não me pese, talvez a maternidade já me seja intrínseca e talvez não seja realista querer voltar a algo que fui e que, vejo agora, não sou mais. O meu sentir de papel de mãe é mutável e não exclui outros eus. Afinal, não imagino a minha vida sem o meu filho e custa-me viver os meus dias sem o ter por perto. Ainda não sei quando serei capaz de gerir os meus eus em equilíbrio, mas estou a tentar.
Havemos de o trazer connosco, diz o meu companheiro, e digo-o eu. Mal podemos esperar.
-Sobre Catarina Maia-
Catarina Maia estudou Comunicação. Em 2017, descobriu que as dores menstruais que sempre tinha sentido se deviam a uma doença crónica chamada endometriose, que afecta 1 em cada 10 pessoas que nascem com vulva. Criou O Meu Útero e desenvolve desde então um trabalho de activismo e feminismo nas redes sociais para prestar apoio a quem, como ela, sofre de sintomas da doença. “Dores menstruais não são normais” é o seu mote e continua a consciencializar a população portuguesa para este problema de saúde pública.