Nas últimas semanas, Israel atacou repetidamente a Faixa de Gaza, levando à morte de cerca de cinquenta pessoas, incluindo dezassete crianças. Esta história não é nova, tal como não é a indiferença com que os meios de comunicação social ocidentais noticiaram estas agressões. Edward Said, figura incontronável dos estudos pós-coloniais, considerava que a vitória do projeto sionista se prendia também com o triunfo da falácia das narrativas israelitas - de um Estado moderno e ocidental contra o obscurantismo árabe - na opinião pública, amplificada por governos, televisões e jornais.
Olhemos brevemente para esta longa história de ocupação e despossessão. Ainda em 1917, no contexto da Declaração Balfour, na qual o Ministro dos Negócios Estrangeiros britânico concretiza a intenção de criar na Palestina um Estado judaico, o mesmo afirma inequivocamente que não importaria consultar a população palestiniana sobre o assunto. A sua vontade era irrelevante. Mais de cem anos volvidos - passando pela criação do Estado de Israel e por diversas guerras, conflitos e pelo desenrolar de uma ocupação colonial violenta - a sua vontade continua a não ter qualquer importância para os governantes ocidentais. Diversas organizações internacionais e organizações não governamentais têm apontado o dedo aos crimes de guerra e contra a humanidade do exército israelita. A Humans Rights Watch, a Amnistia Internacional, a ONU e até a UE têm exposto a política criminosa de colonatos e aos recorrentes assassinatos e atropelos judiciais. A violência das IDF (Israel Defense Forces) não olha a idades: nos últimos anos têm sido numerosos os casos de imprisionamento de crianças - reiteradamente criticados pela UNICEF, que os descreveu como prática generalizada - e até de assassinato. Em março deste ano, Ahmad Massad, jovem palestiniano de apenas 20 anos foi morto pelas forças israelitas com um tiro na cabeça durante uma incursão na Cisjordânia. Este ano, assistimos ainda ao brutal homicídio da jornalista palestiniana Shireen Abu Akleh pelas forças israelitas - que o tentaram negar, apesar das provas esmagadoras - e ao ataque à Mesquita de al-Aqsa, em Jerusalém, onde foram violentados crentes e jornalistas - cerca de 158 pessoas ficaram feridas - tendo ainda sido destruído património cultural palestiniano.
Não, não era uma “terra sem povo para um povo sem terra”. Antes da constituição do Estado de Israel e da expulsão dos palestinianos das suas casas, floresciam um país e um povo. A “justificação” bíblica de uma pertença ancestral do povo judeu àquele território ignora milhares de anos de história, assentando na suposição discriminatória que esteve na base da fundação de diversos estados europeus de que uma nação só tem um povo: solo e sangue. Um Estado judeu, no qual as pessoas provenientes de outras etnias não são cidadãos de pleno direito. Aliás, note-se que, grande parte dos israelitas vieram da Europa ou de outros pontos do Médio Oriente, não sendo originários daquela zona. Por outro lado, as famílias palestinianas deslocadas tinham longas raízes nesses territórios.
O projeto israelita, apoiado pelos EUA e seus aliados, para a Palestina é, desde o seu início, intrinsecamente colonial, tendo como objetivo último, à semelhança do que aconteceu no fim do século XIX em territórios do continente africano e americano, a substituição da população nativa pela colonizadora, mediante a aniquilação da primeira. Todos os ingredientes de uma situação colonial se verificam: a limpeza étnica, a deslocação forçada da população e a sua substituição pelos colonizadores, a desigualdade avassaladora de força entre colonizador e colonizado e o racismo violento. Tony Judt e Rashid Khalidi explicaram que este colonialismo sionista mimetiza métodos de ocupação com mais de século e meio e que o seu fim poderá ser apenas um de três: o extermínio absoluto do povo colonizado, a expulsão do colonizador ou um movimento de reconciliação entre os dois povos.
A memória do Holocausto e da violência desencadeada pelo fascismo contra dezenas de milhões de pessoas, particularmente judeus, não pode servir como retórica justificativa de uma ocupação colonial e de um projeto de limpeza étnica. Que a filosofia do “Never Again” se aplique a todos os povos do mundo, independentemente da sua pertença étnico-racial, credo ou geografia.
-Sobre Leonor Rosas-
Estudou Ciência Política e Relações Internacionais na NOVA-FCSH. Está a fazer um mestrado em Antropologia sobre colonialismo, memória e espaço público na FCSH. É deputada na AM de Lisboa pelo Bloco de Esquerda. Ativista estudantil e feminista.