Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Opinião de Leonor Rosas

Um século de guerra contra a Palestina

Nas Gargantas Soltas de hoje, Leonor Rosas faz-nos uma breve resenha histórica do conflito israelo-palestiniano.
“Não, não era uma “terra sem povo para um povo sem terra”. Antes da constituição do Estado de Israel e da expulsão dos palestinianos das suas casas, floresciam um país e um povo. A “justificação” bíblica de uma pertença ancestral do povo judeu àquele território ignora milhares de anos de história, assentando na suposição discriminatória que esteve na base da fundação de diversos estados europeus de que uma nação só tem um povo: solo e sangue.”

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Nas últimas semanas, Israel atacou repetidamente a Faixa de Gaza, levando à morte de cerca de cinquenta pessoas, incluindo dezassete crianças. Esta história não é nova, tal como não é a indiferença com que os meios de comunicação social ocidentais noticiaram estas agressões. Edward Said, figura incontronável dos estudos pós-coloniais, considerava que a vitória do projeto sionista se prendia também com o triunfo da falácia das narrativas israelitas - de um Estado moderno e ocidental contra o obscurantismo árabe - na opinião pública, amplificada por governos, televisões e jornais.

Olhemos brevemente para esta longa história de ocupação e despossessão. Ainda em 1917, no contexto da Declaração Balfour, na qual o Ministro dos Negócios Estrangeiros britânico concretiza a intenção de criar na Palestina um Estado judaico, o mesmo afirma inequivocamente que não importaria consultar a população palestiniana sobre o assunto. A sua vontade era irrelevante. Mais de cem anos volvidos - passando pela criação do Estado de Israel e por diversas guerras, conflitos e pelo desenrolar de uma ocupação colonial violenta - a sua vontade continua a não ter qualquer importância para os governantes ocidentais. Diversas organizações internacionais e organizações não governamentais têm apontado o dedo aos crimes de guerra e contra a humanidade do exército israelita. A Humans Rights Watch, a Amnistia Internacional, a ONU e até a UE têm exposto a política criminosa de colonatos e aos recorrentes assassinatos e atropelos judiciais. A violência das IDF (Israel Defense Forces) não olha a idades: nos últimos anos têm sido numerosos os casos de imprisionamento de crianças - reiteradamente criticados pela UNICEF, que os descreveu como prática generalizada - e até de assassinato. Em março deste ano, Ahmad Massad, jovem palestiniano de apenas 20 anos foi morto pelas forças israelitas com um tiro na cabeça durante uma incursão na Cisjordânia. Este ano, assistimos ainda ao brutal homicídio da jornalista palestiniana Shireen Abu Akleh pelas forças israelitas - que o tentaram negar, apesar das provas esmagadoras - e ao ataque à Mesquita de al-Aqsa, em Jerusalém, onde foram violentados crentes e jornalistas - cerca de 158 pessoas ficaram feridas - tendo ainda sido destruído património cultural palestiniano.

Não, não era uma “terra sem povo para um povo sem terra”. Antes da constituição do Estado de Israel e da expulsão dos palestinianos das suas casas, floresciam um país e um povo. A “justificação” bíblica de uma pertença ancestral do povo judeu àquele território ignora milhares de anos de história, assentando na suposição discriminatória que esteve na base da fundação de diversos estados europeus de que uma nação só tem um povo: solo e sangue. Um Estado judeu, no qual as pessoas provenientes de outras etnias não são cidadãos de pleno direito. Aliás, note-se que, grande parte dos israelitas vieram da Europa ou de outros pontos do Médio Oriente, não sendo originários daquela zona. Por outro lado, as famílias palestinianas deslocadas tinham longas raízes nesses territórios.

O projeto israelita, apoiado pelos EUA e seus aliados, para a Palestina é, desde o seu início, intrinsecamente colonial, tendo como objetivo último, à semelhança do que aconteceu no fim do século XIX em territórios do continente africano e americano, a substituição da população nativa pela colonizadora, mediante a aniquilação da primeira. Todos os ingredientes de uma situação colonial se verificam: a limpeza étnica, a deslocação forçada da população e a sua substituição pelos colonizadores, a desigualdade avassaladora de força entre colonizador e colonizado e o racismo violento. Tony Judt e Rashid Khalidi explicaram que este colonialismo sionista mimetiza métodos de ocupação com mais de século e meio e que o seu fim poderá ser apenas um de três: o extermínio absoluto do povo colonizado, a expulsão do colonizador ou um movimento de reconciliação entre os dois povos.

A memória do Holocausto e da violência desencadeada pelo fascismo contra dezenas de milhões de pessoas, particularmente judeus, não pode servir como retórica justificativa de uma ocupação colonial e de um projeto de limpeza étnica. Que a filosofia do “Never Again” se aplique a todos os povos do mundo, independentemente da sua pertença étnico-racial, credo ou geografia.

-Sobre Leonor Rosas-

Estudou Ciência Política e Relações Internacionais na NOVA-FCSH. Está a fazer um mestrado em Antropologia sobre colonialismo, memória e espaço público na FCSH. É deputada na AM de Lisboa pelo Bloco de Esquerda. Ativista estudantil e feminista.

Texto de Leonor Rosas
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

8 Setembro 2026

Sempre houve luta, sempre houve jasmim

18 Agosto 2026

Porque desistimos de pensar no futuro?

4 Agosto 2026

A regularização extraordinária de imigrantes em Espanha

14 Julho 2026

A insustentável leveza de um violador

30 Junho 2026

Uma mesquita digna para o Porto

16 Junho 2026

5 mil euros por mês, a trabalhar 2 dias e meio por semana? É possível

2 Junho 2026

Do livro

19 Maio 2026

O teatro palestiniano: ser ou não ser?

12 Maio 2026

A real decadência europeia

21 Abril 2026

Multilinguismo? O controlo da diversidade cultural na UE

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Gestão de livrarias independentes e produção de eventos literários [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Iniciação ao vídeo – filma, corta e edita [online]

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

20 abril 2026

Ensino superior: futuro ou espaço de incerteza?

Para muitos jovens o ensino superior continua a ser o percurso natural, quase obrigatório, para garantir um futuro melhor. Apesar disso, nem todos os que escolhem seguir este caminho encontram uma realidade correspondente às expetativas. Neste projeto, procuramos perceber, através de uma reportagem aprofundada e testemunhos em vídeo, o que está realmente a em causa no ensino superior em Portugal. O que está a afastar os jovens? O que os faz ficar ou sair? E, sobretudo, que país estamos a construir quando estudar se transforma num privilégio ou num risco.

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0