Com a chegada de novembro, todas as entidades e artistas que vivem da cultura são convidados a esgrimir pensamentos sobre a incógnita do ano seguinte. É aquele momento em que se desenham orçamentos, rascunham-se estratégias e fingimos que temos certezas para o futuro.

Resolvi deixar o meu humilde e, admito, um pouco desnecessário, contributo, num formato “10 cenas coiso”, para uma reflexão mais vasta do que poderão ser alguns caminhos e encruzilhadas para o ano depois do vírus.

Ter o atrevimento de ser ainda mais criativo

Não há actividade que exija mais criatividade do que a cultural. Essa é a matéria-prima dos artistas e de quem pensa cultura. Nesta fase, porém, temos de ser capazes de ir para além do habitual, de arrasar convenções. Se dependemos da criatividade, então só temos que encontrar a medida certa desta substância para darmos a volta a isto.

Apostar na dimensão digital

O online já estava a invadir as nossas vidas, naqueles tempos em que tudo era normal, de uma forma avassaladora. A pandemia acelerou, ainda mais, a presença desta dimensão, que hoje é inevitável e, sejamos francos, vantajosa em muitos aspectos. O ecossistema cultural deve olhar para este novo espaço como uma oportunidade útil e inesgotável.

Dar mais espaço à formação

Aproveitar este intervalo na vida que o vírus nos proporcionou passa, também, por valorizarmos a nossa educação e formação, quer seja convencial ou não formal. Este é um excelente período para estendermos os nossos conhecimentos a áreas que explorámos menos no passado e que nos eram aprisionadas pelo tempo disponível.

Ser um exemplo de saúde nas iniciativas culturais

Até agora, não se conhecem eventos culturais que estejam na origem de surtos epidemiológicos. A cultura tem sido um exemplo de como a aplicação do conhecimento e a responsabilização podem ser os activos mais importantes para derrotar uma pandemia. É importante continuar a ser uma referência, para nunca fazermos parte da culpa.

Experimentar outras vertentes artísticas e culturais

Momentos de paragem, por mais que sejam obrigatórios e não requisitados, são sempre uma hipótese de experimentação por outros universos. Por vezes, sem que o tenhamos planeado, poderemos encontrar noutras áreas artísticas ou no cruzamento de dimensões culturais, as respostas inovadoras que procuramos para tombar a crise. Está na hora de tirar da gaveta aquela loucura que ainda não tínhamos conseguido fazer.

Procurar parcerias e colaborações

A união traz a força que bem necessitamos neste período de fragilidade generalizada. Agora, mais do que nunca, é o momento acertado para procurarmos outros, semelhantes a nós ou radicalmente distintos. Por um lado, precisa de haver uma maior reflexão integrada dos vários sectores da cultura. E por outro, necessitamos de ser desafiados por quem pensa de forma oposta à nossa.

Lembrar a importância da cultura às entidades públicas locais

A relevância da cultura como elemento agregador de comunidades locais é indiscutível. Por isso, num momento tão significativo de disrupção da vivência em sociedade, dar força à cultura para garantir a saúde mental e social de uma população é um imperativo. Está na hora de lembrarmos as regiões, os municípios, as juntas de freguesia ou todas as outras entidades públicas de proximidade que devem apoiar a cultura.

Estar atento aos concursos europeus

Diz que vem aí um armamento significativo de dinheiros europeus que teremos, até, dificuldade em encontrar forma de o gastar. Cabe-nos, portanto, a responsabilidade de não desiludir os arquitectos de Bruxelas que, carinhosamente, desenharam este ambicioso desafio. É importante estarmos vigilantes, exigirmos plataformas para investimento na cultura e aproveitar qualquer tostão que dali sobre.

Encontrar formatos de relacionamento sólido com o público

Mesmo que as nossas actividades culturais tenham um histórico presencial que, agora, somos obrigados a repensar, poderemos, sempre, encontrar maneiras de manter a nossa ligação activa com o público. Conseguimos socorrer-nos da tal dimensão digital, partilhar newsletters ou abrir um perfil no Tik Tok; criar um cartão de fidelização ou um sistema de envio troca de postais; estimular a co-criação com o público para eventos futuros, promover crowdfunding ou a entrega de donativos.

Nunca desistir

A resiliência vai ser a palavra mais importante de 2021. Ao nível da saúde, do ambiente e, claro está, da cultura. Toda a comunidade cultural e artística vai passar por tempos exigentes, desagradáveis e infelizes. Vamos sofrer, pessoal, é certo. Mas, temos uma vantagem: a malta está habituada a isto. Na verdade, mais pandemia, menos pandemia, nunca pudemos afirmar que se avizinhavam tempos gloriosos para a cultura. E essa fraqueza, meus caros, é a nossa maior força.

Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Tiago Sigorelho-

Tiago Sigorelho é um inventor de ideias. Formado em comunicação empresarial, esteve muito ligado à dimensão de gestão de marcas, tanto na Telecel, onde começou a trabalhar aos 22 anos, mais tarde Vodafone, como na PT, onde chegou a Diretor de Estratégia de Marca, com responsabilidades nas marcas nacionais e internacionais e nos estudos de mercado do grupo. Despediu-se em 2013 com vontade de fazer cultura para todos.

É fundador do Gerador e presidente da direção desde a sua criação. Nos últimos anos tem dedicado uma parte importante do seu tempo no estreitamento das ligações entre cultura e educação, bem como no desenvolvimento de sistemas de recolha de informação sistemática sobre cultura que permitam apoiar os artistas, agentes culturais e decisores políticos e empresariais.

Fotografia de David Cachopo