A Festa do Cinema Italiano regressa para uma 12ª edição que dá destaque a Nanni Moretti e tem paragem em Lisboa, Almada, Coimbra, Porto, Setúbal, Alverca do Ribatejo, Penafiel, Moscavide, Aveiro, Viseu, Abrantes, Beja, Caldas da Rainha, Évora, Tomar, Loulé e outras cidades por anunciar. Entre os dias 5 e 14 de abril, as salas de cinema portuguesas dedicam parte da sua programação ao cinema italiano através da exibição de curtas e longas metragens, mais ou menos recentes, com temas diversificados. 

Numa programação pensada a três cabeças — Stefano Savio, Adriano Smaldone e Anette Dujisin —, as possibilidades multiplicam-se e os públicos estendem-se a diferentes gerações. O Gerador falou com Joana Linda, responsável pela direção de arte das fotografias e do spot publicitário da Festa do Cinema Italiano, e Stefano Savio, o diretor do festival. 

Nanni Moretti como ponte para o “bom cinema” e um “público amplo e heterogéneo”

A retrospetiva deste ano é feita a Nanni Moretti, o cineasta italiano de 65 anos responsável por filmes como Querido Diário (1993), O Quarto do Filho (2001), Caimão (2006) e Habemus Papam (2011). Nas palavras de Stefano, a escolha foi feita porque “Nanni Moretti desenvolveu ao longo da sua careira um trabalho tão peculiar e único que merecia uma retrospectiva o mais completa possível.” Conclui a ideia dizendo que também era um objetivo “trabalhar com um autor ainda em actividade, talvez o autor italiano mais reconhecido internacionalmente, que pudesse alcançar um público amplo e transversal.”

A equipa percebeu que resultava juntar uma retrospectiva com filmes mais antigos, com a programação do festival muito focada nas produções mais recentes. A “possibilidade de ver as suas primeira curtas-metragens e também em antestreia o seu mais recente trabalho, Santiago, Itália” justificou a escolha. 

Trailer do filme Santiago, Itália de Nanni Moretti

Stefano acredita que ter a Festa do Cinema Italiano em Portugal é importante para “mostrar bom cinema” a um “público amplo e heterogéneo” e que o público português, em específico, “é curioso e aberto as propostas culturais que chegam de fora.”

Provavelmente, o cinema italiano insere-se num espaço entre o cinema nacional e o das grandes produções americanas, uma ideia de cinema popular mas não espetacular que em Portugal pode fazer falta”, acaba por dizer o diretor. 

Além da restrospetiva, da competição e da programação que entra no que é habitual no festival, há uma sessão especial como ciclo A Grande Arte do Cinema, com filmes sobre Michelangelo, Tintoretto e Leonardo Da Vinci. 

Das telas italianas para os mupis portugueses

É possível que já tenhas visto na rua algum cartaz que te possa ter parecido familiar e que te fez criar pontes entre as memórias visuais que tens na tua cabeça. Nesta edição da Festa do Cinema Italiano, Joana Linda, a responsável pela direção de arte das fotografias e do spot publicitário, encontrou nos clássicos da pintura renascentista o ponto de partida para os cenários que foram criados para representar o festival, e que hoje estão espalhados pelo país a comunicá-lo.  Segundo Joana, a escolha das obras resulta de um casamento com os diferentes públicos da Festa do Cinema Italiano: “público da Festa do Cinema Italiano é bastante heterogéneo e, não querendo alienar ninguém e não sendo as recriações ipsis verbis,  pensei em obras mais conhecidas para que pudessem ser facilmente identificadas. Se não pela imagem em si, pelo menos pelo nome da obra”, conta. 

A colaborar com o festival há vários anos, Joana esclarece que “há sempre uma tentativa, quando se pensa na imagem do festival, de comunicar não só o cinema, mas também a cultura italiana num sentido mais abrangente.” 

Este ano, e em grande parte devido à programação, o foco são os mestres italianos da pintura renascentista cuja importância no panorama artístico e histórico, a nível mundial, é inquestionável. Noutros anos, o foco foram realizadores ou actrizes que marcaram uma época e se tornaram ícones, como Federico Fellini ou Sophia Loren, o ano passado falámos sobre a maneira particular como os italianos “falam com as mãos”, agora recuámos um pouco mais no tempo homenageando a riqueza da arte italiana que ainda hoje é uma influência para criadores de todas as áreas”, explica Joana. 

Cartazes da 12ª Festa do Cinema Italiano 

As pessoas escolhidas para integrar as personagens foram escolhidas entre conhecidos, sem que houvesse um casting formal. Joana “tinha uma ideia do que queria” e foram sendo colocados nomes em cima da mesa de pessoas que conheciam, “e que poderiam corresponder a essas características”. “Queria uma imagem baseada nos clássicos mas que usasse corpos que na época renascentista não seriam sequer considerados, por razões sociais e religiosas, para representar estas personagens bíblicas e mitológicas. Essa diversidade de corpos e fisionomias é a riqueza desta recriação e é essencialmente isso que queremos. A questão que a Ethra Kitt coloca no início da música “Little Angels”: “When I walk into a church, I only see paintings of white angels. WHY?” é a realidade que esteve por trás da escolha da nossa Monna Lisa, por exemplo”, remata. 

A Festa do Cinema Italiano é organizada pela Associação Il Sorpasso e conta com o apoio da Embaixada de Itália, do Instituto Italiano de Cultura de Lisboa, da Câmara Municipal de Lisboa e da EGEAC. Consulta a programação do festival, aqui

Texto de Carolina Franco
Still de O Quarto do Filho (2001) de Nanni Moretti

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