Relações. Hoje venho falar-vos de relações, o drama de muitos. Coisa essa que tanto stress cria nas pessoas, que tanta felicidade dá e que é vivida de forma diferente de pessoa para pessoa.

Os tempos são outros e quanto maior for o gap entre gerações, maiores são as diferenças na forma como as pessoas se relacionam.

O tempo que as relações demoram, a forma como elas começam, é tudo diferente agora. Usei o ano 2001 porque fiz uma viagem na altura em que ainda era solteiro, e tentei recordar como, no meu caso, começava uma relação e como ela ia evoluindo, apesar de mesmo nessa altura já ser muito diferente de relações que começaram nos anos 60, 70 ou 80.

Vamos lá até 2001. A nível de internet era bem, mas bem diferente. Tínhamos o famoso mIRC, hum famoso para qualquer quarentão ou trintão. Arrisco-me a dizer que se formos a uma escola secundária oferecer 500€ a quem conseguisse responder o que era o Mirc, ninguém saberia responder.

Era um mundo de salas diferentes. Aliás, se analisarmos bem, o mIRC era um género de Clubhouse mas apenas com texto e partilha de ficheiros (interessante… será que o Clubhouse é baseado no mIRC?), várias conversas interessantes mas também muitas pessoas no engate.

Ali nasceram algumas relações, mas também muitas pessoas foram enganadas. Deveria haver um episódio do Catfish apenas dedicado ao mIRC. Foram milhares as pessoas que durante meses falaram e se apaixonaram por pessoas que afinal não existiam. Hoje em dia, primeiro vemos a pessoa e, se houver pontos de interesse, passamos à conversa. Lembro-me que no mIRC ou mesmo no MSN Messenger, só depois de se ganhar alguma confiança se pensava ou se tinha a liberdade para solicitar uma foto. Era neste momento que muitos eram enganados, pois a foto que vinha não correspondia à pessoa que estava do outro lado. Muitas vezes a foto era de uma Vanessa e quem estava do outro lado era um Manuel ou Ricardo, às vezes até eram amigos da vítima a pregar uma partida.

Não é que hoje seja diferente, mas sempre existem as video-chamadas para tirar as dúvidas e digamos que é muito mais fácil identificar um perfil falso. A abordagem pessoalmente, não sei como é hoje em dia, mas no meu tempo começava com um wack e feio “Posso conhecer-te?”. Isto é tão ridículo, mas quantas voltas dei pelo pelos centros comerciais de Lisboa a dizer isto… umas vezes resultava, outras não.

E a comunicação?! É uma das coisas que me dá alguma inveja destes tempos. Esta juventude não sabe o que é ter de gerir saldo para poder falar com a namorada ou amigas coloridas - gerir uma lista de vips (antigo tarifário da TMN) onde rapidamente se tirava o número de uma pessoa com quem acabávamos de ter uma discussão ou - ainda vou mais longe - ter que discutir por sms com caracteres limitados. Como os telemóveis tinham pouca memória, - de certeza que muitos vão lembrar-se - não podíamos guardar as mensagens todas e havia sempre umas mais especiais que ficavam por lá alguns meses até serem substituídas por outras.

Hoje em dia, não anda só um cupido por aí, andam vários e surgem em todo o lado. Hoje deve ser difícil fazer uma gestão entre Twitter, Instagram, Facebook, TikTok e sei lá mais o quê. É muita coisa para usar e conhecer pessoas. Falo disso no contexto de pessoa single e digamos disponível no mercado, até porque eu próprio uso as redes sociais no contexto profissional e como ligação com amigos e familiares, mas para um solteiro acredito que as setas dos cupidos surgem de vários lados.

E com toda a certeza digo isto. Hoje em dia, parece ser mais difícil manter uma só relação do que ter várias. Aplico isto a homens e mulheres e qualquer género sexual. Cada vez mais parece ser difícil ver relações duradouras e fortes - é tudo muito rápido, superficial e sem muita ligação. As pessoas têm muitos mais parceiros e relações. Nada contra até porque acho que a experiência só traz pontos positivos e nem todas as pessoas foram feitas para estar numa relação só.

Desta forma temos visto com mais frequência relações que, de forma muito transparente, são compostas por várias pessoas sem qualquer problema para os envolvidos, ou simplesmente pessoas que não tem nenhum vínculo e é sabido das diferentes partes que todos se relacionam com outras pessoas.

Sem dúvida são outros tempos e acredito que até possa ser visto como uma certa evolução. Podemos chegar ao ponto em que ninguém é de ninguém. Digo também que para estar neste estado mental é preciso muito. O sentimento de posse ainda é algo presente nas relações. Não quero com isto puxar o lado de relações possessivas e controladoras, mas apenas o clássico só duas pessoas na relação, e não vamos esquecer que os olhos da sociedade ajudam para que estes comportamentos ou escolhas ainda não sejam tão naturais.

Com o passar do tempo e de forma natural, a forma como o ser-humano se vai relacionar no futuro deixa-me muito curioso, a forma como esta juventude está a crescer e a misturar-se apesar de não demonstrar, penso que cria uma espécie de mundo misturado, onde nada nem ninguém tem propriamente compromisso com ninguém, como se de uma grande tribo se tratasse, com todos a espalhar amor.

Volto a dizer que é preciso um conhecimento muito grande de nós próprios e, de certa forma, um desapego e controlo emocional para saber gerir os sentimentos de alguém que está connosco hoje e mais tarde pode estar com outra pessoa. Para mim, nesta fase assim, não se criam relações, vai-se tendo relações, mas sou eu falando aqui com os meus 37 anos, e com 16 de uma relação.

Com muita curiosidade sobre o FUTURO.

-Sobre Nuno Varela-

Nuno Varela, 36 anos, casado, pai de 2 filhos, criou em 2006 a Hip Hop Sou Eu, que é uma das mais antigas e maiores plataformas de divulgação de Hip Hop em Portugal. Da Hip Hop Sou Eu, nasceram projetos como a Liga Knockout, uma das primeiras ligas de batalhas escritas da lusofonia, a We Deep agência de artistas e criação musical e a Associação GURU que está envolvida em vários projetos sociais no desenvolvimento de skills e competências em jovens de zonas carenciadas.Varela é um jovem empreendedor e autodidata, amante da tecnologia e sempre pronto para causas sociais. Destaca sempre 3 ou 4 projetos, mas está envolvido em mais de 10.

Texto de Nuno Varela
Fotografia de Pedro Vaccaro
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