“Precisávamos de uma pandemia para percebermos o que realmente importa”. — citado do discurso de uma pessoa com privilégios económicos e sociais, com emprego seguro e casa espaçosa, que não teve familiares em risco de vida ou falecidos.

1. Pandemia boa, o caraças!

O ano recentemente passado trouxe ao de cima muitas das fragilidades sociais do mundo. 

Famílias com três gerações a fazerem confinamento em espaços demasiado pequenos para o seu conforto.

Empregos de serviço ao público impossíveis de realizar remotamente, o que acabou em muito desemprego.

O problema do racismo a ser relembrado em grande escala.

O crescimento dos casos de violência doméstica, e dificuldade em proteger pessoas em risco.

Muitas mortes de pessoas devido à Covid-19.

Crise no sector da cultura, especialmente para os técnicos ligados ao mundo do espetáculo.

Grávidas a terem condições desumanas no parto.

Positivismo tóxico de privilégio sócio-económico.

Vamos pegar neste último tópico e relacioná-lo com os anteriores.

Há um pensamento por aí a pairar de que esta pandemia foi positiva para o mundo.

Certo, então valeu a pena que a avó da Cláudia morresse de Covid, presa a um ventilador sem poder ter visitas, para que tu agora possas valorizar as pequenas coisas?

Não tem mal que tenha havido mulheres a parirem sozinhas, sem poderem tocar no bebé pós-parto, porque graças ao confinamento conseguiste criar uma rotina de exercício em casa?

O facto de a D. Lúcia ter falecido às mãos do marido, com o confinamento a fazer com que tivesse de passar mais tempo em casa, compensa tu agora saberes fazer pão?

E nem tem muita importância haver famílias de três gerações a viver num T2 em confinamento, já que tu agora percebes como era bom sair com os teus amigos?

Aprendamos com a pandemia, sim, mas não confundamos as coisas: a pandemia foi e é má. Teve consequências muito negativas e algumas positivas, verdade, mas tal não faz da pandemia algo bom na sua essência. Não podemos olhar só para o nosso umbigo de privilégio, temos de ter noção das pessoas à nossa volta. Chama-se empatia.

2. Body Positivity? 

Para além disso, a pandemia reforçou o body shaming, ou a chamada gordofobia: memes por todo lado de quilos a mais por se estar em casa, comentários de familiares e pessoas amigas quando se voltam a ver. Já não bastava o desgaste emocional de se estar presa, ainda se tem de levar com piadinhas? Não, obrigada. Ser-se magra não é sinónimo de saúde. Ser-se gorda não é sinónimo de não se ter saúde. Há muita gente que se esquece que um corpo são não é só físico, é também mental. Ainda, é bem mais saudável fazer uma dieta equilibrada, do que entrar em loucas restrições alimentares com pós, detox líquidos, e outros produtos artificiais. Temos, também, a possibilidade de haver outros problemas associados, como problemas na tiróide, distúrbios alimentares, etc. Não sabes o contexto da pessoa, não te cabe a ti adivinhar nem decidir o que é o peso saudável de alguém. E, caramba, se comer uma fatia de bolo para mim é sinónimo de felicidade a dado momento, podes ter a certeza de que vou comer a fatia de bolo. (Ai, livrai-nos do açúcar adicionado 🙄. Poupai-me, cada pessoa deve ter uma dieta adequada à sua situação, e não padronizada).

Destas situações nasceu o movimento “Body Positivity”. Com o passar do tempo, rapidamente nos apercebemos de que não será a noção mais correta, pois, pelo menos numa primeira fase, dizeres que amas aspectos do teu corpo de que realmente não gostas é hipócrita. Assim, procuremos antes a “Body Acceptance”. O teu corpo existe para ti, e é o único que terás até ao fim da tua vida. Que tal aceitares o que tens, relembrando-te da sua importância? Claro que, sendo o teu corpo teu, estás no direito de o modificar, conforme os teus gostos e possibilidades, com responsabilidade e consciência.

Convido-te, agora, a um exercício:

Imagina que arranjavas tudo no teu corpo de que gostas menos: o que queres maior, ficaria maior; o que queres mais pequeno, assim ficaria; as texturas que não gostas, tornar-se-iam maravilhosas; o cabelo sempre impecável; o teu nariz teria o ângulo perfeito… enfim, tudo como idealizas. O que sobraria depois para te ocupar a mente?

Há muitas obsessões estéticas que são apenas projecções de problemas emocionais pré-existentes. Por isso, procura tratar deles primeiro. A única forma de resolver problemas é identificá-los e percebê-los, para depois conseguires lidar e eventualmente resolver e/ou aceitar.  Se houver necessidade de procurares uma pessoa profissional de psicologia ou psicoterapia, procura. (Esperemos que, no futuro, cuidar da saúde mental não seja um privilégio económico).

3. Não guardes os problemas numa caixinha, dá asneira.

Identificar e perceber os problemas que temos exige muito trabalho emocional, o que é uma chatice. A curto prazo, é muito mais fácil guardar os problemas, obsessões, etc., numa caixinha bem no fundo da nossa mente. No entanto, quando só tentamos esquecer os problemas sem os resolver, a caixinha acaba por abrir outra vez, com o mais pequeno abanão. A única forma de resolver problemas a longo prazo é lidar com eles, em vez de os pôr à força dentro da caixinha.

Dentro da questão emocional, temos ainda o costume das resoluções de ano novo, que tendem a causar mais frustração do que realização. Quê, achavas que irias acordar, no dia 1, uma pessoa totalmente renovada? Com licença: lol. As pessoas são feitas de hábitos. Desconstruí-los demora o seu tempo. Acho super positivo que haja coisas que queiras mudar em ti, ou na tua vida, e que trabalhes para o fazer, mas tentando evitar a frustração. Procura expectativas reais. Organiza os teus objectivos por etapas. Dá-te tempo. 

2021 é o teu. Usa-o para o teu bem e o das pessoas à tua volta, com amor-próprio e empatia.

4. Nota Final

É com esta referida empatia que teremos de votar nas presidenciais. Quando escolhes uma pessoa líder do país, não escolhes só para ti, escolhes para o país todo. Por isso, por favor, vota numa pessoa que cuide das pessoas todas, das chamadas minorias — que todas juntas são a enorme maioria — e não numa pessoa que só cuida de quem lhe convém. O teu voto é teu, mas as consequências são para toda a gente. Não te esqueças das mulheres, da comunidade negra, da comunidade LGBTQI+, das pessoas migrantes, das que têm menos possibilidades económicas, da importância da educação para a igualdade e liberdade de opção, do ambiente. Por uma sociedade libertadora e não limitadora.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Clara Não-

Clara Não é ilustradora e vive no Porto. Licenciada em Design de Comunicação, pela Faculdade de Belas Artes do Porto, e fez Erasmus na Willem de Kooning Academie, em Roterdão, onde focou os seus estudos em Ilustração e Escrita Criativa. Mais tarde, tornou-se mestre em Desenho e Técnicas de Impressão, onde estudou a relação fabular entre Desenho e Escrita. Destaca-se pela irreverência e ironia nas ilustrações, onde reivindica a igualdade, trata tabus da sociedade e explora experiências pessoais.  Em 2019, lançou o seu primeiro livro, editado pela Ideias de Ler, intitulado Miga, esquece lá isso! — Como transformar problemas em risadas de amor-próprio.  Nas horas vagas, canta Britney.

Texto de Clara Não
Fotografia de Another Angelo
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