Esta semana que agora desperta traz mais um confinamento geral. Esclarecidas as dúvidas sobre a sua intensidade, restar-nos-á colocar a questão: como vai a cultura sobreviver mais uma vez?

Não quero ser o mensageiro do diabo, até porque as minhas convicções religiosas estão há muito em clausura, mas desconfio que as consequências para o ecossistema cultural não vão terminar nos próximos 15 ou 30 dias.

Os mais optimistas estimam que cerca de metade da população portuguesa poderá estar vacinada até final do primeiro semestre, mas basta fazer umas contas simples para perceber que esta é mais uma utopia do que um objectivo. Até dia 8 de janeiro foram vacinadas 70.000 pessoas, o que dá uma média benéfica de cerca de 5.400 inoculações diárias desde o início, a 27 de dezembro de 2020. A este ritmo, no final de junho, ainda não teríamos atingido 1 milhão de pessoas, boa parte delas apenas com metade da vacina tomada! Mesmo considerando que esta cadência aumenta vertiginosamente, dificilmente teremos mais de 20% dos portugueses vacinados nessa data.

E quem são estes 20%? Serão maioritariamente a população idosa, residentes em lares, profissionais de saúde e de forças de segurança e pessoas com uma determinada patologia que represente um maior risco perante o vírus. A restante população, que poderia estar mais disponível para a presença em iniciativas culturais, vai continuar, em grande medida, desprotegida.

2021 não vai ser o ano, ao contrário das aspirações imaginadas nos nossos sonhos, em que retomamos, na sua integridade, a actividade presencial da cultura. Vamos continuar a ter condicionamentos de lotação, cuidados de circulação ou o uso obrigatório de máscara até ao último dia de dezembro.

Acredito, no entanto, que a partir de setembro começaremos a ter uma merecida folga, imaginando que os meses de junho a agosto serão verdadeiramente críticos para a concretização efectiva do plano de vacinação e, por isso mesmo, menos dados a festas de santos e festivais de verão. Talvez a partir desse mês faça sentido, financeiramente, que os agentes culturais voltem a apostar num calendário de eventos.

Como resistir até lá, então? Desta vez, após as aprendizagens do ano que marcará para sempre as nossas memórias, não há mais surpresas, impreparações ou mudanças de mentalidade. Não há mais desculpas. É preciso agir já ou há uma real hipótese de o edifício cultural ruir até setembro.

Há três dimensões de apoio que devem resultar em planos claros, calendarizados, com intenções bem definidas e discutidos com as associações profissionais que representam a cultura:

Profissionais da cultura

Como apoiar artistas, autores, técnicos, produtores e todos os restantes profissionais que continuarão sem conseguir concretizar o seu trabalho? Que soluções existem para os trabalhadores independentes e para evitar que profissionais contratados percam o emprego?

Espaços culturais

Como proteger os locais que vão continuar com as suas lotações remediadas? Que assistência poderá ser dada para melhoria das condições de acesso? Como aproveitar este momento para fazer uma transformação energética e ambiental dos espaços?

Outras entidades culturais

Como impulsionar que programadores, gestores culturais, dinamizadores e produtores de eventos não desistam da intenção de criar? Como estimular a transição digital para que a cultura continue a ser feita? Como reduzir o garrote dos impostos numa altura sem facturação?

Temos tempo para fazer as coisas bem. Basta querermos.

Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Tiago Sigorelho-

Tiago Sigorelho é um inventor de ideias. Formado em comunicação empresarial, esteve muito ligado à gestão de marcas, tanto na Vodafone, onde começou a trabalhar aos 22 anos, como na PT, onde chegou a Diretor de Estratégia de Marca, com responsabilidades nas marcas nacionais e internacionais e nos estudos de mercado do grupo. Despediu-se em 2013 com vontade de fazer cultura para todos.

É fundador do Gerador e presidente da direção desde a sua criação. Nos últimos anos tem dedicado uma parte importante do seu tempo ao estreitamento das ligações entre cultura e educação, bem como ao desenvolvimento de sistemas de recolha de informação sistemática sobre cultura que permitam apoiar os artistas, agentes culturais e decisores políticos e empresariais.

Fotografia de David Cachopo