Ritual social do calendário gregoriano, vira a meia noite, algumes dão saltinhos, outres fazem tximtxim, pedem-se uns quantos desejos com a boca cheia de passas e desenha-se uma lista bem elaborada de quem queremos ser no ano vindouro. Como se a mudança de um dia proporcionasse um tão necessário reset e tudo coubesse a uma reprogramação que só está nas nossas mãos, máquinas eficientes que somos.

Ginásio, já é banal, para quem pode e pode mostrar que pode, um PT, novo marcador de classe, junto com a terapia, que de bem essencial e universal ainda pouco tem e só poucos têm ainda acesso.

E aqui tudo treme, falha o cuidado estrutural, e sobre nós individualmente cai o peso de habitação digna que agora já não afeta só as mesmas minorias e, em tempo de gentrificação, também afeta uma classe média de forma generalizada, de saúde universal e gratuita num tempo de sobrecarga, e uma educação que se quer libertária, crítica e que faça de nós seres pensantes, com direito a rescrever a história com a voz de todes e fora de uma perspectiva datada. Foram estes alguns dos vossos desejos?

Prometer mais auto-cuidado torna-se uma tarefa titânica e assustadora. Ou talvez não se o fizermos de um local de consciência social e consciencialização política.

Coral Herrera Gomes em “El amor romantico desde el Queer” relembra-nos que “Assumir que o pessoal é político é reinvidicar a experimentação com os nossos corpos e identidades, dar primazia ao poder do desejo, da imaginação e do jogo, necessários para conseguir uma sociedade mais justa, livre e igualitária.”

Num mundo em desigualdade e onde se cruzam diversas camadas de perda de privilégio, entre raça, classe, género e orientação, a experiência de consciencialização é dolorosa, abre portas a raiva, revolta (que nos podem servir como motor de mudança e que podemos abraçar como emoções tão válidas quanto as outras).

Bell Hooks dizia-nos que o processo de politização envolve dor, cria tensões nas relações mais íntimas com parceires, amigues e família. E quem não sabe isto, nem o sentiu depois das festas de família, é também privilegiado nos seus afetos e lugares. O que também abre é portas de uma maravilhosa e avassaladora torrente de amor, ternura e alegria, uma alegria que nos permite construir tantas outras pontes e possibilidades, as tais cheias de poder de desejo que Coral nos fala. É a partir destas pontes que muitas vezes construímos formas e estares que nos permitem ser e viver, em forma de cuidado comunitário. Em forma de redes de afeto, colectivos ou associações, grupos de auto-ajuda e cooperação mútua, relações íntimas fora das normas tradicionais do casal romântico e cooperativas, são bases que nos permitem, a partir do lugar que asseguram, começar a pensar o auto-cuidado.

Este cuidado comunitário é, muitas vezes, invisível e não nomeado e o exercício de o reconhecer permite-nos ativar estratégias de emergência, reconhecer e nomear afetos e dar-lhes um lugar mais presente na nossa vida e ativar as redes de ajuda mútua que já estão lá.

E é dentro destas comunidades que se possibilita o auto-cuidado, em forma de aceitação e amor por um corpo que habitamos, de reclamar de uma identidade que tem estado limitada a uns quantos espaços, e de lembrar que auto-cuidado é também aprender a pedir ajuda. Às vezes até para aprender a respirar, outras vezes para fundos de maneio para realizarmos o que nos parece impossível.

Desenhar e mapear redes em tempos de isolamento é um cuidado necessário, que dispensa gastos em planeadores, spas ou manicures, mas das quais tudo isso pode ser parte e mais alcançável com a colaboração de outres. É também preparar para um futuro sempre incerto relembrando que podemos construir e lutar por outro mundo e agir neste que temos para garantir um pouco mais a todos.

E se fazemos promessas vãs que sejam do reino das impossibilidades e do sonho e menos de um lugar de que exige condições materiais ou formais para o amor e a ternura.

Para 2022, quero relembrar as minhas redes. Relembrar aceitação. E continuar a luta por um mundo onde participação e cidadania sejam feitos com amor, radical e político.

-Sobre Carmo G. Pereira-

Carmo Gê Pereira é/tem um projeto português ligado à sexualidade com workshops, formações e tertúlias, sessões de cinema, ciclos de eventos e aconselhamento sexual. Atua de forma ativista paralelamente. Assumidamente LGBTQIA+, sex-positive de forma crítica tem-se destacado como: formadora de educação não formal, educadora sexual para adultos, na área do aconselhamento sexual não patologizante, expert em segurança, recomendação e utilização de tecnologias para a sexualidade. Formada em sexologia e doutoranda do Programa Doutoral de Sexualidade Humana da FCEUP, FMUP e ICBAS. Mais informação em www.carmogepereira.pt

Texto de Carmo G. Pereira
Fotografia de Ricardo Faria
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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