O 21 Volts - Encontro Internacional de Artes, promovido pela CRL- Central Elétrica, regressa para uma segunda edição, na cidade do Porto. De 2 a 5 de Setembro, o público poderá assistir gratuitamente a aberturas de processos, performances e concertos de artistas de quatro países, nas instalações da antiga Central Eléctrica do Freixo. Todo o programa requer reserva antecipada de bilhetes no website do evento.

Este ano, as obras que compõem a programação procuram refletir sobre a noção de corpo-narrativo, "uma possibilidade de pensar sobre o lugar da imaterialidade e do tensionamento entre a manutenção e o desaparecimento daquilo que chamamos, ainda, narrativa", lê-se no comunicado enviado às redações.

O primeiro dia do 21 Volts será dedicado à abertura de processos de dois artistas ibero-americanos que estiveram em residência artística na CRL – Central Elétrica durante o mês de agosto, através do Programa Iberescena. Em "Yo Salvo La Muerte", o chileno Nicolás Lange desenvolve uma elegia a Jaime Lorca, ativista chileno na luta contra a SIDA, falecido em 2021. "Yo Salvo La Muerte" é um projeto híbrido entre arte visual-poesia e dança contemporânea que abrange depoimentos de homossexuais chilenos que vivenciaram a chegada do HIV-Sida ao país nos anos 90", avança a organização. "A reconstrução de uma amizade é, ao mesmo tempo, uma reconstrução da história do Chile na ditadura."

"Yo Salvo La Muerte", de Nicolás Lange

Posteriormente, a brasileira Carolina Bianchi apresenta "Cadela Força", uma performance que tem como ponto de partida a confabulação sobre alguns casos de feminicídio que aconteceram em diferentes partes do mundo nas últimas décadas. Deste projeto de pesquisa, que está a desenvolver no âmbito do mestrado de teatro em Amsterdão, serão compartilhados dois capítulos.

O dia 2 de setembro termina com conversas entre artistas e público, moderadas pela dramaturga Raquel S. a partir dos trabalhos apresentados.

A abertura do segundo dia fica a cargo do Teatro Inominável, coletivo referencial na nova cena brasileira. O Narrador, solo escrito e protagonizado por Diogo Liberano, propõe um encontro entre performer e público ouvinte, entrelaçados pelo gesto de contar histórias. "Como pano de fundo está o ensaio escrito por Walter Benjamin, que apresenta um olhar sobre o empobrecimento do gesto de contar histórias e, com isso, um empobrecimento da noção de experiência." Partindo desse ensaio, Liberano escreve uma dramaturgia original, cruzando-a com vivências próprias relacionadas com a morte de parentes e amigos.

A programação continua, no dia 3, com Outrar, projeto que nasce do diálogo remoto entre a coreógrafa Lia Rodrigues e intérpretes convidados. "Outrar significa tornar-se o outro, ser contaminado pelo outro, numa prática de troca contínua", é dito. Depois do sucesso da sua obra coreográfica Fúria, Lia Rodrigues volta a mostrar uma obra construída coletivamente, concebida durante os últimos meses da crise sanitária da Covid-19 e pensada para o Kunstenfestivaldesarts (Bélgica). No 21 Volts, será possível assistir a duas das três performances criadas: a de Calixto Neto e a da dupla Luyd Carvalho e Marllon Araújo. "Outrar é uma série de entradas coreográficas e uma carta sonora enviada do Brasil para brasileiros que estão hoje radicados na Europa: uma viagem poderosa no limiar entre a distância e a proximidade."

A fechar o dia, A Mamanus traz um duo composto por Fabi aka Dj CLYTA e Pati aka Dj Patisol. Neste projeto, as artistas vêem na "discotecagem" uma forma de expressar todo o amor que têm pela cultura afrobrasileira ancestral e contemporânea, com misturas entre o eletrónico e o orgânico. 

O terceiro dia do 21 Volts, 4 de setembro, marca o regresso do colectivo mexicano Lagartijas Tiradas al Sol, desta vez com a conferência performativa "Disputar La Realidad (Ficciones radicales en los linderos del campo de lo artístico)", onde se questionam os critérios a partir dos quais atribuímos o caráter fictício ou real a algo. 

Seguidamente, apresenta-se o recém-estreado espetáculo Outro Lado é um dia, de Carolina Campos e Márcia Lança, projeto iniciado em janeiro de 2020, a partir da frase "Temos um passado enorme pela frente" e que resultou num conjunto de ficções vistas como território de trabalho para a performance.

Outro Lado, de Carolina Campos e Márcia Lança. Fotografia de Susana Paiva

Encerrando a noite, o Fado Bicha, projeto protagonizado por Lila Fadista, na voz, e João Caçador, na guitarra elétrica e outros instrumentos, promete lotar a Central Elétrica.

No dia 5 de setembro, domingo, serão ainda dados os primeiros passos do Projeto Erre, programa desenvolvido no âmbito do Garantir Cultura. Este projecto dirige-se a todos os públicos e procura estreitar os laços com as comunidades vizinhas à Central. Esta primeira ação, integrada no 21 Volts, conta com a apresentação do espetáculo para público familiar A Nova Bailarina, de Aldara Bizarro, seguido do concerto Archivo Pittoresco, de Lula Pena.

A celebrar 10 anos de existência, A Nova Bailarina é um espetáculo sobre a democracia, abordando, através da dança, de uma forma não-convencional, e com muito humor, questões éticas e de valores base de construção pessoal e social. Já Lula Pena é cada vez mais um tesouro partilhado de todos os lusófonos de coração, fruto da sua fascinante abordagem à canção popular global, radicada numa expressão artística singular que entretece tantas tradições de música, som e poesia.

Texto por Flávia Brito
Fotografia de Werner Strouven (Outrar, de Lia Rodrigues)

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