Hoje em dia, pensar é uma liberdade que pode acontecer para além do nosso íntimo, que pode ser expressada e existir. Mas nem sempre foi assim. Miguel Peres Santos, gestor cultural e historiador, visita connosco um Portugal cultural em tempos de censura, para nos lembrar que a história é feita de várias cores.

Miguel Peres Santos é gestor cultural e um historiador que mergulhou a fundo nas políticas culturais do Estado Novo. Licenciado em Património Cultural e mestre em Gestão Cultural pela Universidade do Algarve, apresentou a sua dissertação sobre a Atividade Cultural em Tavira Durante o “Estado Novo”: Política do Espírito”, “Programa Museológico e Associativismo”. Tem colaborado com vários meios de comunicação regionais, para os quais escreveu vários artigos de opinião e em que abordou a temática das políticas culturais dedicadas à história política social do século XX, sobretudo estudos relacionados com o “Estado Novo”, o “25 de Abril” e o “Processo Revolucionário em Curso”.

Em entrevista ao Gerador, Miguel viajou connosco desde o início dos anos 30, quando a Constituição de 1933 limitou a liberdade de criação, censurando, previamente, qualquer trabalho ou peça artística. Lembrou ainda a figura de António Ferro e o seu papel nas políticas culturais de um país que dormia sob a trilogia de “Deus, Pátria e Família”. Falou ainda de um país que se dividia em dois, existia orgulhosamente só e colou na sombra, artistas que tiveram de se exilar para poderem ter uma voz dentro da cultura.

Gerador (G.) – Na famosa trilogia, “Deus, Pátria e Família”, onde cabia a cultura?

Miguel Peres Santos (M.P.S.) – Essa trilogia é completamente cultural. Deus era a base do próprio regime, num país de brandos costumes, que não questionava, nem Deus, nem a Pátria, nem os valores da Família. A trilogia mostra um estado assente na doutrina liberal cristã, no catolicismo social, correntes seguidas no início do século XIX e depois pelos regimes totalitários no início do século XX. Se olharmos para o programa cultural, que é a Política do Espírito, que vai ser ensaiada nos anos 30 pelo regime, a base do projeto cultural assenta exatamente nesses três valores. Qualquer coisa que atentasse contra a religião era censurada, e aquilo que chamavam libertinagem não tinha espaço na arte. Um exemplo claro é a Ilha dos Amores, dos Lusíadas, uma obra fundamental para o Estado Novo. No entanto, a Ilha dos Amores era cortada porque ia contra os valores da Igreja e da Pátria. Se os Lusíadas no geral, para Portugal, serviram para mostrar a fé cristã, a Ilha dos Amores era completamente perversa.

G. – Começando pelos anos 30, quais eram os ideais do regime, a nível cultural, e como foi a sua evolução até aos anos 50?

M.P.S. – O regime tinha uma política oficial, a chamada “Política do Espírito”, iniciada por António Ferro. Essa política baseava-se no ruralismo e no nacionalismo imperial, que se fazia sentir através de uma imagem de identidade nacional que queria fazer desaparecer a desordem instituída pelo caos da Primeira República, e crise que o país passava. Queria fazer da identidade nacional uma identidade aglutinadora, para que fôssemos um só. Daí criar uma política nacional que unificasse o país e transmitisse os valores morais do regime.

G. – Em que se traduzia a “Política do Espírito”?

M.P.S. – A “Política do Espírito” trouxe o Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), um aparelho de propaganda muito complexo, que ia desde a Federação Nacional da alegria no trabalho – uma entidade que promovia desde a atividade física à atividade cultural –, o aparelho de educação nacional estava também inserido, a Legião Portuguesa, a Mocidade Portuguesa e ainda, uma organização feminina que mostrava o papel da mulher no Estado Novo, a Obra das Mães pela Educação Nacional. Programou ainda diversas iniciativas para espalhar os valores do regime pelo país, sobretudo nas áreas do interior, como o Programa de Cinema Ambulante, o Teatro do Povo e a Aldeia mais Portuguesa de Portugal.

G. – O que apresentavam nessas iniciativas?

M.P.S. – Levava às aldeias do interior uma programação de vários filmes, todos eles uma apologia ao regime e aos seus valores. Por exemplo, o Salazar e Carmona, hoje em dia considerado um filme de campanha eleitoral, porque mostravam que eles eram os salvadores da pátria. Levavam a Torre de Belém e o Mosteiro dos Jerónimos onde mostravam um Portugal imperial que espalhou a fé pelo mundo, aquele Portugal que se perdeu na Primeira República e que queria voltar a ser grande, filmes sobre barragens, obras públicas ou a Revolução do 28 de Maio. Todos de apologia ao regime.

G. – António Ferro começou por ser uma luz ao fundo do túnel que se foi apagando. Podes explicar-nos melhor o papel deste homem na cultura?

M.P.S. – António Ferro foi jornalista e escritor, muito próximo de Salazar que, inclusive, o entrevistou antes de ser presidente do concelho e liderar o país. Foi ele que o convenceu a adotar a “Política do Espírito”. Mas António Ferro merecia ser muito mais aprofundado, é uma figura muito enigmática porque, por um lado, era um modernista e muito próximo dos artistas da revista Orpheu, mas, por outro, entrevistou Hitler, Mussolini e lançou o livro, A viagem à volta das Ditaduras, escrito no final dos anos 20 e início dos anos 30, que o projetou. Nessas entrevistas a Salazar, ele convence-o de que era preciso uma política destas. Numa publicação do Diário de Notícias, ele escreve que a “Política do Espírito”é muito necessária porque, para ele, um povo que não lê, não ouve, não vibra, e que não saiba a sua vida matinal de dever e haver, torna-se um povo inútil e mal-humorado. Sempre foi alguém muito ligado aos intelectuais da altura, acabando por convidá-lo para alguns projetos do regime. No entanto, era uma figura dúbia. Tanto modernista quanto conservador. Podemos chamá-lo errático. Algumas figuras modernistas afastaram-se dele ao longo dos anos, como o caso do Almada Negreiros.

G. – A cultura internacional tinha lugar na casa dos portugueses?

M.P.S. – Não, era completamente excluída, sobretudo nos anos 30 e 40, depois começou a entrar devagarinho. Muita da cultura internacional ia contra os valores do regime, era libertinagem a mais para o pensamento. Não tínhamos acesso à cultura internacional, mas António Ferro fez questão de que a cultura portuguesa fosse além-fronteiras, com as exposições em São Francisco, Nova Iorque e Paris. É ele que lança a Amália Rodrigues.

G. – A Exposição do Mundo Português, em 1940, foi um marco no panorama cultura da altura, mas mostra que estávamos completamente à parte do mundo…

M.P.S. – A Exposição do Mundo Português realiza-se em plena Segunda Guerra Mundial e apresenta Portugal como um país imperial, longe da guerra, orgulhosamente só e por isso foi um apogeu da política cultura do regime. Era uma espécie de exposição internacional, aliás, António Ferro convidou arquitetos e artistas plásticos da altura, como o arquiteto e cineasta José Ângelo Cottinelli Telmo, Leopoldo de Almeida. Criou o Museu de Arte Popular, a Praça do Império e dos Brasões, mas era também uma exposição colonial. Na altura foi o apogeu cultural, os artistas queriam todos participar. Mais uma vez, levantou-se a ligação à história saudosista e que nos elevava, estando inserida nas comemorações do centenário da independência de Portugal, no aniversário da Restauração da Independência e no aniversário do regime. A juntar a isso, nesse mesmo ano, existiram muitas iniciativas no país ligadas aos momentos históricos do país e reconstruíram património histórico.

G. – Os artistas sentiam-se atraídos pelas iniciativas do SPN?

M.P.S. – Sim, porque o António Ferro era muito próximo dos artistas, conseguia atrair intelectuais e individualidades. Mas não todos. O Fernando Pessoa é o exemplo de alguém muito próximo dele, e que no início era a favor de algo que regenerasse o país, mas depois ficou completamente desiludido com aquilo que veio a acontecer e afastou-se de António Ferro.

G. – Com o fim da Segunda Guerra, e a saída de António Ferro, o que acontece a nível cultural em Portugal? O país vira-se mais para fora ou continua orgulhosamente só?

M.P.S. – A partir de 1950, existe uma reestruturação e o SPN passa a ser o Secretariado Nacional de Informação, dotado de um orçamento superior a 1 %, o que é maior do que o orçamento que a cultura tem atualmente. A partir dos anos 50, quando António Ferro sai, Portugal passa a investir na limpeza da imagem de Portugal lá fora. Em dez anos, foram investidos, o equivalente a 4 milhões de euros. Isto para divulgar Portugal no estrangeiro, as suas tradições e continuarmos a ser o país dos brandos costumes. Existem artigos, no New York Times, por exemplo, em que mostram um Portugal tradicional, mas exótico, a imagem cultural é a das touradas, a arquitetura popular. Publicam-se livros sobre a lenda das amendoeiras nos Estados Unidos e as publicações nos jornais são sobre as festas portugueses, a pesca das baleias, os trajes da Nazaré, a tradição de comer sardinhas, e os Santos Populares, uma criação do Estado Novo.

G. – Depois veio a Guerra Colonial e a cantiga tornou-se uma arma…

M.P.S. – Nos anos 60, o regime começa a entrar em decadência e começa a surgir muita música de intervenção, no entanto, tudo fora de Portugal. Se bem que, se formos analisar os censores da época, podemos reparar que eram uns militares, muitos deles pouco inteligentes, e algumas coisas conseguiam passar. Nessa altura, surge o Ary dos Santos, Sérgio Godinho, José Mário Branco, José Afonso, mas que têm de estar exilados e por isso acabam por gravar discos fora de Portugal. Não conseguiam vender em Portugal, mas escreviam sobre este Portugal sem liberdade. A cantiga passou a ser uma arma envolvida na clandestinidade, nas rádios pirata que, através de onda média, transmitiam mensagens políticas de oposição ao regime. Não esqueçamos Júlio Pomares, cuja sua arte era considerada um atentado ao pudor, o José Cardoso Pires e o Miguel Torga. São tudo figuras que nunca foram seduzidas pelo regime.

G. – A cultura não era acessível a todos e existia uma clara diferença entre Lisboa e o resto do país. O que acontecia nestes dois polos?

M.P.S. – Lisboa, como era um grande centro urbano, tinha a maioria dos intelectuais da época, e isso faz uma diferença gigante, também no nível de iliteracia. Lisboa sempre teve muitos cinemas e teatros, o Parque Mayer, talvez o maior espaço de liberdade da altura. O resto do país vivia com as suas bibliotecas com publicações ligadas ao regime. Fora de Lisboa desenvolviam-se os museus rurais, os ranchos folclóricos, o teatro amador, a música era ensinada pelas bandas filarmónicas. Não havia apetência para as artes, apenas tínhamos os museus nacionalistas e as bibliotecas publicas eram escassas. O objetivo era unificar o país em torno de uma cultura só.

G. – Que rompimento cultural trouxe o 25 de Abril?

M.P.S. – A abolição da censura foi a grande marca. O MFA tinha como base os três D, democratizar, descolonizar e desenvolver. Numa primeira fase, a cultura estava ligada à educação, e depois dividiu-se em cinco áreas, a literatura, música, teatro, cinema e artes plásticas. A comunicação social também tem uma importância cultural muito grande, com a difusão da língua portuguesa pelo mundo. Não esquecer que o 25 de Abril traz o Processo Revolucionário em Curso (PREC), talvez dos períodos mais conturbados, mas também bonitos da história portuguesa, porque todos queriam dar o seu contributo. Existia um romantismo revolucionário. No interior do país, criaram as campanhas de dinamização cultural, mas não foram muito bem aceites porque não estavam adaptadas, Por exemplo, levavam às aldeias do interior, uma peça de Brecht, claro que ninguém compreendeu, as pessoas estavam habituadas àquele folclore. Há ainda um momento cultural neste processo revolucionário muito interessante, nas zonas urbanas, com a explosão das artes públicas, onde coletivos de artistas fazem murais políticos.

G. – Como defines a cultura em tempo de censura?

M.P.S. – É uma cultura a preto e branco. A censura levou a que muitos artistas não desenvolvessem o seu trabalho, de forma publica, com devido reconhecimento e estancou a cultura. O trabalho existe, é conhecido, mas ficou na sombra durante o regime.

Texto de Patrícia Nogueira
Fotografia de João Ribeiro

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25 de abril