A oitava edição do Festival “Que Jazz É Este” decorre este ano ao longo de cinco dias não consecutivos. Nas quartas-feiras de 22 de julho, 12 e 26 de agosto, e 9 e 30 de setembro a essência do festival mantém-se com concertos de palco, formação musical profissional e ainda o regresso da iniciativa “Jazz ao domicílio”, garantindo espetáculos musicais “não só às pessoas que não podem vir aos concertos, mas também àquelas que por iniciativa própria não procuram”.

O cenário pandémico nacional, vivido ao longo dos últimos meses, pôs em risco a realização do Festival, que descobriu agora uma nova forma. O primeiro dia de espetáculos, 22 de julho, não poderia ter corrido melhor: os “concertos esgotaram e as restantes atividades tiveram uma dinâmica saudável”, conta Ana Bento, do Coletivo Gira Sol Azul, e responsável pela organização do evento.

Em conversa com o Gerador, Ana Bento recorda o período em que tiveram de redesenhar toda a estrutura e programação, à luz das novas regras de distanciamento social, e fala sobre os desafios de estender cinco dias de festival ao longo de três meses. Considera que a “principal dificuldade é mesmo o orçamento limitado para a dimensão que o festival já tem”, sendo que “o festival só é possível graças a vários parceiros que contribuem na sua maioria com apoios em espécie, como alojamentos, refeições e outras logísticas”. Num ano em que muitos festivais foram cancelados e outros tantos viram a sua programação adiada para o próximo ano, Ana Bento considera que “tudo o que se consiga fazer acontecer, mesmo que numa escala mais pequena ou em dinâmicas menos intensas, é importantíssimo e sabe a água no deserto: mesmo quando pouca, é vital”.

Gerador (G.) – Quando é que a Gira Sol Azul percebeu que tinha de começar a readaptar a oitava edição do Festival “Que Jazz é Este?” e redesenhar a programação? E como é que foi feita a gestão junto dos artistas e equipas técnicas?

Ana Bento (A.B.) – Mal se declarou o estado de emergência em Portugal percebemos que a 8ª edição do festival estava em risco de poder não se realizar, mas pensamos que devíamos até ao limite possível (cerca de dois meses antes da data prevista) redesenhar o formato e tentarmos fazer acontecer uma versão adaptada e possível à luz das normas e recomendações da DGS que a cada momento estavam e estão a ser atualizadas. A primeira reação foi contactarmos os artistas e equipas técnicas, expor-lhes a nossa intenção, mas também comunicar-lhes que no âmbito do programa de apoio Viseu Cultura, principal financiador do Festival, e através do qual tivemos este ano apoio bianual, podíamos gerir a programação de forma a poder acontecer nas datas previstas ou ser reagendada ainda este ano ou para o próximo. Outras das grandes preocupações que tivemos foi não deixar cair as propostas de formação que na realidade foram o ponto de partida do que o festival é hoje. Nesse sentido criamos as condições necessárias para a realização da oficina de dixie com jovens músicos e estudantes de música da região e esperamos tudo estar alinhado para em setembro realizarmos a 12ª Edição do Workshop de Jazz de Viseu, este ano especialmente dirigido de forma exclusiva a músicos profissionais da região de Viseu.

G. – Os habituais cinco dias de Festival, na edição deste ano estendem-se ao longo de três meses. Esta dinâmica facilita ou dificulta a organização de um festival? Sentem que pode criar uma quebra no ritmo dos espetáculos?

A.B. – Sinto que neste momento tudo o que se decida fazer, por mais consciência, reflexão, experiência que tenhamos é uma incógnita. Incógnita no sentido de que nunca nos vimos num contexto como o de agora e nesse sentido estamos a pensar e descobrir formas de fazer acontecer. Este esquema dos cinco dias estendidos ao longo de três meses foi um dos exercícios que fizemos para fazer acontecer o festival e o que nos pareceu mais seguro do ponto de vista da organização e do acolhimento dos vários públicos. A dificuldade em termos de organização tem a ver com essa reflexão e descoberta, com o equilíbrio entre as possibilidades que incluam as condições de segurança e o manter as pessoas ligadas numa dinâmica que faça sentido. Eu penso que a quebra já aconteceu, foi a paragem total. Neste momento tudo o que se consiga fazer acontecer, mesmo que numa escala mais pequena ou em dinâmicas menos intensas, é importantíssimo e sabe a água no deserto: mesmo quando pouca, é vital.

G. – Além das limitações financeiras – referiram já em edições anteriores que o orçamento é limitado – quais são as principais dificuldades encontradas na organização de um evento desta dimensão numa cidade como Viseu, tão local?

A.B. – Sinceramente a nossa principal dificuldade é mesmo o orçamento limitado para a dimensão que o festival já tem. O facto de acontecer numa cidade mais pequena e ainda com uma identidade tão própria como Viseu é uma vantagem a vários níveis. Por um lado é muito fácil para nós chegarmos às pessoas locais, sentimos que há já uma relação de tanta confiança que independentemente das propostas que façamos, as pessoas são convocadas e vêm ao nosso encontro. Por outro lado, o carácter local de uma cidade com muita história, com locais incríveis para desfrutar, com excelente gastronomia e que já várias vezes foi eleita como ‘melhor cidade para viver’ também acaba por ser um atrativo extra às propostas de programação. Nos últimos anos temos percebido, e este ano, com a escala mais pequena em termos de plateias e acolhimento de público, e neste primeiro dia rapidamente percebemos também, que várias pessoas vieram de outros pontos do país para ver um ou mais dos concertos que tivemos e aproveitaram para visitar a cidade.

G. – Este ano surgiram naturalmente novas dificuldades? Como trabalhou a Gira Sol Azul, juntamente com todos os parceiros, para contornar as limitações impostas pelo cenário pandémico?

A.B. – Os parceiros foram incríveis, outra das vantagens que temos ao estarmos inseridos num meio mais familiar. Com as limitações de orçamento que temos, o festival só é possível graças a vários parceiros que contribuem na sua maioria com apoios em espécie, como alojamentos, refeições e outras logísticas. Os parceiros estiveram sempre do nosso lado com confiança no sentido de se manterem disponíveis caso conseguíssemos pôr esta edição de pé agora, ou reagendada mais para o fim do ano ou apenas a acontecer no próximo ano.

G. – O “Jazz ao Domicilio” é uma iniciativa que vem já de edições anteriores – levando concertos a lares, hospitais, instituições. Sentem que este ano esta iniciativa faz ainda mais sentido? Como foi pensar estes concertos com todas as restrições associadas, mas ao mesmo tempo considerar que este é um alento para tantas pessoas que têm estado ainda mais isoladas nestes últimos meses?

A.B. – Sem dúvida! Há muito que temos entranhado no nosso espírito de ação incluir esta possibilidade de levar os concertos às pessoas – não só às pessoas que não podem vir aos concertos mas também àquelas que por iniciativa própria não procuram os concertos – este ano, mais do que nunca isto faz ainda mais sentido. Considerando todas as restrições associadas, mas também com um conhecimento muito pessoal destas comunidades com as quais ao longo do ano também vamos trabalhando em diversos projetos, planeamos a realização destes concertos exclusivamente em espaços de ar livre das instituições e ainda assim, mesmo quando não é possível algumas pessoas estarem numa plateia com o devido distanciamento, podem pelo menos assistir das janelas e varandas dos edifícios onde se encontram. E não temos dúvida de que um pequeno momento como este que partilhamos com estas pessoas tem um impacto positivo, de conforto, de alento, sim, para enfrentarem estes dias tão estranhos.

G. – A programação arrancou no dia 22 de julho. Como correu o primeiro dia do Festival e qual se prevê que seja a reação e receção do público nesta edição?

A.B. – Depois deste primeiro dia ficamos muito felizes com o risco que tomamos ao decidirmos redesenhar um formato especial do festival. Foi um esforço e empenho que vimos valer a pena. Sentimos confiança e responsabilidade do público. Os concertos esgotaram e as restantes atividades tiveram uma dinâmica saudável que sentimos terem cumprido o seu propósito de levar felicidade aos vários públicos. Os artistas estavam todos muito emocionados, para alguns foi o primeiro concerto depois deste contexto pandémico em que nos encontramos. Foi muito bonito. Sabemos no entanto que não podemos relaxar, temos que continuar empenhados em fazer as coisas acontecerem de forma segura e organizada e esperamos que o público continue a confiar em nós e vir ao nosso encontro.

G. – Que Jazz é Este num ano tão atípico? O que podem os espectadores esperar nos próximos dias de Festival?

A.B. – É um jazz que tem um sabor muito especial, sabe a vida. Esperamos que o cenário geral melhore ou pelo menos que se mantenha. Se o cenário piorar, cá estaremos prontos para novas reflexões e decisões que tenham que ser tomadas, novas dinâmicas que tenham que ser descobertas para continuarmos a alimentar as nossas vidas. Por agora, os espectadores podem esperar mais quatro dias de uma programação muito diversificada que faz jus ao nome do festival ‘Que Jazz É Este?’: uma programação de excelência com um equilíbrio entre os nomes incontornáveis de músicos portugueses que se destacam no panorama musical não só português, mas também internacional e os incríveis músicos da nova geração, sem deixar de fora projetos que se situam nos limites máximos do que possa ser ‘jazz’: Mário Laginha, João Guimarães Grupo, Colectivo Gira Sol Azul com Pedro Abrunhosa como convidado especial, Krake, Troll’sToy, Uhai e Whosputo são os projetos que podem ainda ver depois deste primeiro dia com Bica/Santos/Mortágua e Miguel Rodrigues. Os espectadores podem ainda esperar serem surpreendidos com um programa de rádio ao vivo a emitir de uma caravana sob a sombra das tílias do Rossio de Viseu ou uma banda dixie que passa na rua, entre outras propostas, todas bem explicadas no site oficial quejazzeeste.com e no qual devem efetuar as suas reservas.

Entrevista Bárbara Dixe Ramos
Imagem Festival Que Jazz É Este?