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Opinião de Inês Tomaz | Youth Cluster

Descolonizemos o voluntariado

“Inês, quero fazer voluntariado!”. Fazer voluntariado está na moda. Mas fazer voluntariado não pode ser…

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“Inês, quero fazer voluntariado!”. Fazer voluntariado está na moda. Mas fazer voluntariado não pode ser visto como apenas uma experiência a ter, algo a adicionar no currículo para o enriquecer e podermos dizer que tivemos um impacto positivo no mundo. Não funciona assim, não é assim tão simples. O voluntariado hoje em dia pode ter uma componente negativa, em parte por adotar dinâmicas neocolonialistas.

O voluntariado pode, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, ter um impacto negativo. Pessoalmente acredito que a maioria dessas experiências tenha esse impacto. Por várias razões. Digo isto por ter estado no terreno várias vezes e ter assistido à forma como estas “experiências” podem, na verdade, afetar mais as pessoas negativamente do que positivamente. Quando comecei a fazer voluntariado, não tinha noção de nada do que aqui partilho e foi precisamente aos poucos que ganhei consciência e que fui percebendo que há muito mais além daquilo que nos é exposto diretamente, e do que é transmitido nas redes sociais, especialmente nas fotografias.

Fotografias. Parece-me um bom ponto para começar. Que tipo de fotografias vemos de pessoas que fazem voluntariado? Quantas vezes vemos uma fotografia de uma pessoa branca abraçada a uma criança negra? Pensemos. Qual é o objetivo dessa fotografia e o que está por detrás, nomeadamente as reais intenções dessa pessoa? Muitas vezes, com isso pretende mostrar que é uma boa pessoa, porque esteve num país pobre, “subdesenvolvido” a ajudar (ou mesmo, a “salvar”!) crianças que nada tinham antes e que, com um abraço ou um chocolate, a vida delas melhora. Ironia. Como disse, é importante perguntarmo-nos o que está por trás dessas fotografias. O que é que essa pessoa fez efetivamente para melhorar a vida daquela criança? Ajudou a formar professores que lhe poderão dar uma melhor educação ou ajudou a sensibilizar as comunidades onde essa criança está inserida sobre temas como a saúde, a higiene, o ambiente, a educação sexual, entre outros? Não sabemos e não controlamos isso. Mas podemos controlar o que nós fazemos e transmitimos. Se vamos fazer voluntariado devemos pensar naquilo que realmente vamos fazer, em como isso será efetivamente ou não um contributo positivo para o empowerment dessas comunidades e não um alimento à dependência que muitas vezes advém da prática do voluntariado rotativo. Irmos sem pensar no que isso significa a todos os níveis faz de nós pessoas brancas com privilégios e preconceitos a ir para países, muitas vezes ex-colónias portuguesas, ajudar pessoas negras. Pensemos nas dinâmicas subjacentes a isso.

Se não desconstruirmos os nossos preconceitos, as nossas crenças, os nossos comportamentos, arriscamo-nos a alimentar aquilo a que chamamos o white savior complex, ou complexo do salvador branco. Deixemos de lado a nossa fragilidade branca e abracemos a desconstrução das nossas pessoas. Se não conseguimos fazer este exercício de base então, na minha opinião, não merecemos ter a oportunidade de ir fazer voluntariado. O complexo do salvador branco centra-se na representação da pessoa branca que vai fazer voluntariado para um país africano com a ideia de que vai salvar alguém. De que só ela, por ser branca, pode ajudar aquele povo. Porque ser branco é ser superior aos outros a todos os níveis, seja socialmente, economicamente, culturalmente e historicamente. Aqui se faz o paralelismo entre colonialismo e neocolonialismo. 

Apesar da era colonial ter terminado nos anos 70 do século XX, as dinâmicas que aí existiam continuam a reproduzir-se hoje, porque todo o sistema está historicamente apoiado nesses alicerces. O racismo nasceu na escravatura, foi criado para justificar atos bárbaros (ver conceito de racismo biológico) e serviu também de justificação ao colonialismo, sempre acompanhado da ideia de que os portugueses eram colonos simpáticos e brandos (ver conceito de luso-tropicalismo). Mas os portugueses - e os europeus no geral - nunca se preocuparam realmente com os africanos e o seu bem-estar e muito menos com o seu desenvolvimento. Apenas se interessaram com os seus próprios interesses e com aquilo que poderiam ganhar explorando as populações locais e os seus recursos. Hoje em dia, esta exploração continua a existir e aplica-se a um nível mais micro ao voluntariado, onde a exploração se aplica a um nível psicológico e emocional, passando maioritariamente pela ostentação. Quantas pessoas conheço que fizeram voluntariado para valorizarem o currículo, para poderem ter fotografias apelativas que lhes dão mais likes no Instagram ou para se “encontrarem”. Por isso as motivações de quem quer fazer voluntariado devem ser igualmente desconstruídas, de maneira saudável.

O voluntariado não pode ser algo fácil de fazer, deve envolver muita reflexão, muita preparação e muita formação. Não podemos deixar-nos aliciar com o que muitas organizações ou associações que promovem experiências de voluntariado vendem. Cuidado com o voluntourism ou turismo-voluntariado e com os programas que vendem uma experiência de voluntariado que é, na verdade, turismo disfarçado e que pode ser prejudicial para as comunidades. Estas organizações são movidas pelo lucro e constituem uma indústria de milhões de Euros anuais. Será que faz sentido associar voluntariado com indústria e negócio? Não será isso desumano? Leiam mais sobre estes temas, informem-se.

Promovamos cada vez mais a formação de voluntários que vão para ex-colónias em África. Formação em termos de cultura e de expectativas pessoais não são suficientes. Comecemos a formar os voluntários sobre o colonialismo, o neocolonialismo, o racismo, as dinâmicas que podem (mas que não devem) ser reproduzidas nestas experiências, o respeito pelos outros, a empatia, a igualdade, etc. Sensibilizemos também os voluntários a fazerem um minucioso trabalho de pesquisa sobre o que realmente vão fazer no terreno e como é que isso poderá ter um impacto positivo nas comunidades e nas pessoas, e não ser algo que apenas criará mais dependência. Dependência essa que foi ironicamente criada pelos europeus quando chegaram ao continente africano, mantendo-se até hoje e alimentando assim o ciclo de subdesenvolvimento. 

Um voluntariado positivo e consciente é aquele que procura desenvolvimento e não o contrário. Quebremos o ciclo ao sermos mais preocupados, mais conscientes e mais empáticos. Repensemos e descolonizemos o voluntariado.

-Sobre Inês Tomaz-

Licenciada em Gestão, descobriu em 2017 a sua vocação através de uma experiência de voluntariado em Moçambique, e rapidamente percebeu que não seria na área empresarial que a sua carreira profissional faria sentido. Em 2019, lançou-se num gap year e foi para a Beira onde trabalhou voluntariamente na coordenação de um projeto num orfanato local. Em 2020, começou o mestrado em Estudos de Desenvolvimento no ISCTE, onde sentiu que tudo fazia mais sentido, do currículo aos colegas. Com 23 anos teve a ideia de criar um projeto de educação não-formal e de empowerment de mulheres adultas, que está a ser desenhado ao longo da sua tese de mestrado e que será implementado na Beira. Através dos projetos solidários do Corpo Europeu de Solidariedade está a implementar o projeto de formação a voluntários internacionais, “Descolonizar o Voluntariado”, em conjunto com mais quatro amigos do Mestrado.
Os seus hobbies são a leitura, as séries, os encontros com amigos, e estar com crianças e bebés.

Fotografia da cortesia de Inês Tomaz
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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