Após a publicação da minha última crónica (“A Universidade alienada") recebi várias interpelações que posso resumir em dois eixos: 1) todo o meu discurso se constrói a partir de um lugar de privilégio, uma vez que sou professor catedrático e estou no topo da “carreira” universitária”; 2) não deixei conselhos sobre como superar o sentimento de alienação. Gostaria, muito brevemente, de dialogar com ambas as inquietações.
Em relação ao primeiro ponto, apenas posso constatar a veracidade do argumento. É muito mais fácil elaborar um discurso crítico quando nada se tem a perder e quando se usufrui de um volume elevado de capital científico. Para investigadores precários ou em início de carreira, a sujeição às regras do jogo não significa necessariamente que aceitem o absurdo e a injustiça, mas tão-só que não conseguem mobilizar recursos suficientes para uma ação alternativa. Contudo, também não deixa de ser verdade que a posição que ocupo no campo não me obriga, mecanicamente, a posições conformistas ou inconformistas. Há que fazer opções, que também não são a preto e branco. Estou dentro do sistema, não entrincheirado numa guerrilha ou numa sublevação revolucionária. Sei-o bem, não vivo em esquizofrenia nem ostento garras que não uso.
Mas posso relatar – e assim dialogo com o segundo tipo de objeções – como tento trabalhar nas brechas. Não pretendo, que fique bem claro, esboçar um qualquer breviário ou manual de subversão. Detesto os intelectuais de esquerda grandiloquentes que estabelecem pormenorizados programas de ação, muitas vezes desmedidos e pretensiosos, e que mais não são do que a demonstração, dissimulada para ser mais eficaz, da sua autoridade e do seu narcisismo. Desprezo a universalização dos pontos de vista dos que se dizem relativistas!
Modestamente, tento não usar a minha posição como argumento. O poder é força, não é convencimento. Procuro não intimidar, não impor, não economizar argumentos em favor da brutalidade do arbitrário. As aulas, em particular, devem ser espaços de liberdade e de prazer, evitando a submissão à tirania do programa e da avaliação. De igual modo, não podem ser um palco onde apenas o professor brilha, inebriado da sua graça, da sua acrobacia verbal ou da sua performance comunicativa. As aulas são lugar da dialética observador/observado, em que ambos trocam posições e se transformam e são também ocasião de paciência, de escuta ativa e metódica. Reprovo muito pouco, mas sou exigente na participação. Não catalogo estudantes e desprezo as mitologias do “talento” e do “mérito”, embora procure suscitar a imaginação (nos antípodas da repetição) e a crítica bem argumentada (independentemente da direção dos argumentos). Concordo em absoluto com Bourdieu quando, num documento intitulado «Propostas para o ensino do futuro», sugeriu que não se hierarquizassem aprioristicamente as inteligências e se respeitasse “a pluralidade dos modos de vida, das sabedorias e das sensibilidades culturais”.
Dentro e fora da universidade manifesto a minha oposição ao modelo fundacional, à mercantilização do saber e à colonização pelos interesses empresariais que cada vez mais dominam conselhos gerais e elegem reitores, reduzindo a democracia a uma caricatura. Sou sindicalizado (como é possível que tantos colegas não o sejam?!) e participo ativamente nos órgãos de gestão para os quais sou eleito.
Quase nunca recuso convites para falar aqui e acolá, sem olhar ao prestígio de quem convida, muitas vezes em detrimento da minha saúde. Creio ser uma obrigação de universitário: usufruir de um salário e de uma certa flexibilidade para poder partilhar e disseminar ideias, suscitar diálogos e conflitos, abrir as grandes alamedas da imaginação comum.
O sociólogo José Madureira Pinto disse, há poucos meses, num colóquio, algo que me fez pensar. Devemos usar todos os nossos meios para redistribuir capital científico; para que outras pessoas possam formar-se, escrever, publicar, experimentar (com direito ao erro e à retificação).
Tudo isto é pouco, bem o sei, e resulta da opção (com proveito próprio) de permanecer bem posicionado na instituição e no campo para aprofundar brechas, dilatar margens de manobra e explorar interstícios produtivos. Trabalhar nas margens e sem colocar ninguém à margem, não será essa uma das possibilidades de libertação da alienação?
-Sobre João Teixeira Lopes-
Licenciado em Sociologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (1992), é Mestre em ciências sociais pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (1995) com a Dissertação Tristes Escolas – Um Estudo sobre Práticas Culturais Estudantis no Espaço Escolar Urbano (Porto, Edições Afrontamento,1997). É também doutorado em Sociologia da Cultura e da Educação (1999) com a Dissertação (A Cidade e a Cultura – Um Estudo sobre Práticas Culturais Urbanas (Porto,Edições Afrontamento, 2000). Foi programador de Porto Capital Europeia da Cultura 2001, enquanto responsável pela área do envolvimento da população e membro da equipa inicial que redigiu o projeto de candidatura apresentado ao Conselho da Europa. Tem 23 livros publicados (sozinho ou em co-autoria) nos domínios da sociologia da cultura, cidade, juventude e educação, bem como museologia e estudos territoriais. Foi distinguido, a 29 de maio de 2014, com o galardão “Chevalier des Palmes Académiques” pelo Governo francês. Coordena, desde maio de 2020, o Instituto de Sociologia da Universidade do Porto.