Daqui a 100 anos, quando os historiadores, pessoas e inteligência artificial incluídos, procurarem concluir o que significaram os últimos 500 anos da humanidade, vão, provavelmente, notar que houve uma inflexão extraordinária, com consequências indiscutíveis, no final do século XX.
Para nós, que vivemos esse período e que ainda aqui estamos, é difícil ter noção desse impacto e de como ele pode ter sido transformador. Falta-nos a capacidade abstracta de olhar para algo em que não estamos envolvidos. Eu tenho, naturalmente, o mesmo problema, por isso, perdoem-me esta tentativa de incursão por águas emocionalmente enviesadas.
A segunda guerra mundial foi um dos momentos mais avassaladores da história dos humanos neste planeta. A sua simples possibilidade, da forma como aconteceu, justifica esse galardão. Após a guerra, com a ajuda dos desenvolvimentos tecnológicos, como o telefone, a televisão ou a mobilidade, foi ficando cada vez mais claro para o comum mortal que era necessário iniciar outra grande batalha: os direitos civis.
Naquele contexto, nos países ocidentais com democracias, tornava-se impossível a quem detinha o poder, político e económico, continuar a excluir largas fatias das populações, todas as que não fossem homens brancos heterossexuais.
A década de sessenta foi o período que oficializou essa contenda, liderada pelos Estados Unidos da América, mergulhados num caldeirão que tinha como ingredientes uma revolução cultural, sexual, de drogas, associado a uma guerra no Vietname com um peso emocional devastador.
Em apenas duas décadas, as de sessenta e setenta, os habitantes dos países ocidentais viram as suas condições melhorarem significativamente, com a constante valorização da ideia do trabalhador, com a existência de sistemas de segurança social e de saúde acessíveis, com a reforma da educação, com o início da proteção das minorias e muitos outros desenvolvimentos dirigidos à pessoa comum. Politicamente, na Europa, a década de setenta viu nascer democracias em Portugal, Espanha e Grécia.
O caminho parecia ser claro e impossível de travar: tinha chegado o momento em que todos têm de ter mais condições, não apenas os privilegiados. Mas eis que tudo mudou. No início dos anos oitenta entram em palco Thatcher e Reagan.
Quem detinha o poder, principalmente o herdado, andava aflito com estas modernidades da distribuição do poder. Era preciso encontrar uma forma de parar esta sangria e convencer as pessoas que gastar dinheiro no Estado é mau, que pagar impostos não faz sentido e que tudo depende apenas do mérito, da vontade de cada um. E conseguiram.
As duas décadas anteriores tinham visto o maior crescimento de sempre na história humana das condições, monetárias e morais, para os cidadãos. Apenas duas décadas nestes milhares de anos. Mas era demasiado arriscado para quem ainda controlava o poder. O que seria perder a capacidade de influência.
E de repente, em apenas dez anos, iniciou-se a transferência do poder. Da pessoa comum para o herdeiro abastado. De quem produz para quem especula. Do sindicato dos trabalhadores para os fundos de investimento. De quem se esforça para quem tem dinheiro. De quem não tem voz para quem se agita no twitter.
As pessoas passaram para segundo lugar nas políticas porque o dinheiro e a influência passaram a decidir tudo. A pessoa comum faz manifestações, mas não tem acesso aos meandros parlamentares. O privilegiado é recebido de braços abertos pelo poder e intervém na sua direção, até porque há um futuro depois da política.
Esta transferência de poder, e só ela, é a razão da ascendência da extrema-direita. Quando alguém é abandonado, procura novas soluções, principalmente aquelas que vão contra o sistema que os abandonou.
-Sobre Tiago Sigorelho-
Formado em comunicação empresarial, esteve ligado durante 15 anos ao setor das telecomunicações, onde chegou a Diretor de Estratégia de Marca do Grupo PT, com responsabilidades das marcas nacionais e internacionais e da investigação e estudos de mercado. Em 2014 criou o Gerador e tem sido o presidente da direção desde a sua fundação. Tem continuamente criado novas iniciativas relevantes para aproximar as pessoas à cultura, arte, jornalismo e educação, como a Revista Gerador, o Trampolim Gerador, o Barómetro da Cultura, o Festival Descobre o Teu Interior, a Ignição Gerador ou o Festival Cidades Resilientes. Nos últimos 10 anos tem sido convidado regularmente para ensinar num conjunto de escolas e universidades do país e já publicou mais de 50 textos na sua coluna quinzenal no site Gerador, abordando os principais temas relacionados com o progresso da sociedade.