Há cerca de quarenta anos atrás, nos inícios dos anos 80, chegaram ao poder duas pessoas que mudariam o mundo de uma forma inexorável. Margaret Thatcher foi eleita primeira-ministra inglesa em 1979 e Ronald Reagan foi eleito presidente norte-americano em 1981.

Reagan e Thatcher puseram a economia no centro da vida e elegeram a competição como a característica humana mais relevante. Implementaram a ideia de que a melhor forma de uma pessoa se expressar na sociedade é através do consumo. E, acima de tudo, deram o pódio aos valores monetários.

No final da década dos seus governos (Reagan manteve-se no poder até 1989 e Thatcher até 1990), o ocidente fez uma mudança brutal, apesar de lenta. Os jargões económicos passaram a ocupar as principais páginas dos jornais e invadir as conversas de cafés dos comuns mortais.

Até essa altura, poucas seriam as pessoas que sabiam o que era o PIB, o défice, a desvalorização, as taxas de juro, o poder de compra. O que era mau, pode argumentar-se, o desconhecimento nunca é algo que devamos orgulhar-nos. Mas a razão fundamental para essa ausência de conhecimento era nobre: estávamos mais preocupados com os valores morais.

O estado social tinha sido o grande triunfador político anterior. A saúde tendencialmente gratuita, a educação garantida a todos, a maior proteção no trabalho, o feminismo, a luta contra as discriminações raciais, a liberdade sexual eram os temas que ocupavam os títulos dos noticiários televisivos. Mas desde a última década do século XX que não há assunto mais famoso que o orçamento.

Hoje estamos presos a esta narrativa económica como sendo a história mais importante das nossas vidas. Mesmo uma pandemia que atinge por igual todo o planeta está cada vez mais dependente das decisões económicas e financeiras e menos orientada para salvar pessoas

Mas não devemos ligar à economia? Não devemos ter cuidado com o dinheiro que gastamos? Com o que pedimos emprestado? Com as receitas e os custos? Claro que sim. Mas a economia deve estar ao serviço da sociedade e não o contrário. A gestão económica é um meio para chegarmos ao que pretendemos como cidadãos e não um fim em si mesmo.

Um bom exemplo para materializar estes meus lamentos é a habitação. Apesar de estar na nossa constituição que a habitação é algo a que todos temos direito, na verdade essa definição não passa de uma utopia na actualidade. A classe média, para não falar da classe baixa, e principalmente os jovens, têm um acesso muito dificultado a habitação decente e central.

Na minha esparta opinião, a razão essencial para a habitação ser este problema é o foco nos valores monetários e não nos valores morais. Todos aceitamos a ideia de que estamos sujeitos aos ditames do mercado para comprarmos ou alugarmos casa e não nos questionamos se tem mesmo de ser assim.

Se foi possível ter serviços de saúde acessíveis, se foi possível ter acesso à educação tendencialmente gratuita, por que não será possível fazermos o mesmo esforço para a habitação? Dar habitação condigna a todos deve ser o nosso objectivo e a economia tem de estar ao serviço desse propósito.

Foram precisos apenas 40 anos para se fazer uma transformação que está a travar o desenvolvimento e a luta contra a desigualdade. Mas tenho a esperança que estas novas gerações, mais conscientes, necessitem de muito menos para dar a volta.

Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Tiago Sigorelho-

Tiago Sigorelho é um inventor de ideias. Formado em comunicação empresarial, esteve muito ligado à gestão de marcas, tanto na Vodafone, onde começou a trabalhar aos 22 anos, como na PT, onde chegou a Diretor de Estratégia de Marca, com responsabilidades nas marcas nacionais e internacionais e nos estudos de mercado do grupo. Despediu-se em 2013 para criar o Gerador.

É fundador do Gerador e presidente da direção desde a sua criação. Nos últimos anos tem dedicado uma parte importante do seu tempo ao estreitamento das ligações entre cultura e educação, bem como ao desenvolvimento de sistemas de recolha de informação sistemática sobre cultura que permitam apoiar os artistas, agentes culturais e decisores políticos e empresariais.

Fotografia de David Cachopo