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Monstra: há 19 anos a mostrar que o cinema de animação não é “uma coisa para miúdos”

Foi apresentada no dia 12 de março a competição portuguesa da Monstra 2019, na Sala…

Texto de Carolina Franco

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Foi apresentada no dia 12 de março a competição portuguesa da Monstra 2019, na Sala Luís de Pina da Cinemateca Portuguesa. Com um total de 10 curtas-metragens selecionadas para a competição SPA/Vasco Granja, a mostra está marcada para o dia 29 de março às 22h00, na Sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge. O júri é composto pelas realizadores Wendy Tilby (Canadá), Catarina Sobral (Portugal) e Olga Titova (Bielorrússia). No final da apresentação, que contou com a presença de alguns dos realizadores, o Gerador falou com Fernando Galrito, diretor artístico da Monstra, e com Francisca Coutinho, concorrente na competição de curtas portuguesas. 

Há 19 anos a mostrar que o cinema de animação não é “uma coisa para miúdos"

Fernando Galrito recordou como tudo começou em 2000, com um grupo de 5 pessoas de diferentes áreas — das artes plásticas à animação e até à antropologia. “Nós fazíamos muitos happenings em coisas ligadas à arte e um dia decidimos que queríamos fazer um festival que incluísse um pouco as artes todas. E eu disse-lhes que só havia uma arte que juntasse todas: a animação”, conta Fernando. Desde o início definiram que a Monstra assentaria em 4 pilares: a diversidade de países incluídos no festival, a transversalidade no cinema de animação, (convidar) realizadores internacionais que pudessem dar masterclasses e ensinar todos aqueles que estivessem interessados, e uma vertente dedicada às crianças e aos jovens, para que este público tivesse uma alternativa aos filmes que normalmente são apresentados nas salas de cinema mainstream ou apresentados na televisão. 

Tornar a Monstra num espaço de encontro e semear a ideia de que o cinema de animação pode ser uma ferramenta importante para ajudar a pensar é um dos objetivos da organização do festival. “Temos total consciência de que quando mais aberta for a nossa mente para a diferença, mais livres nós somos e com os braços mais abertos estaremos para receber os outros. Percebemos que esta dialética entre o que é o nosso pensamento e o que são os pensamentos e as culturas dos outros é fundamental para crescermos todos”, afirma o diretor do festival. 

Todos os anos convidam um país para prestar homenagem e dedicar uma retrospetiva durante o festival. Este ano o Canadá foi o escolhido para a preparação de um mergulho na sua cinematografia, nas suas técnicas e formas de fazer. Fernando relembra comentários positivos que já lhe chegaram relativamente a esta retrospetiva: “No caso da Holanda e da antiga Checo-Eslováquia houve pessoas que nos vieram dizer que nem no país delas tinha havido uma retrospetiva tão grande como aquela que tínhamos conseguido fazer.” Além da retrospetiva a Monstra organiza workshops, masterclasses e talks dadas por realizadores do país convidado. 

Esse mergulho na cinematografia de um país acaba por criar uma ponte com um dos grandes objetivos da Monstra, segundo Fernando Galrito — “Queremos que as pessoas que vierem às nossas sessões fiquem com uma perspetiva geral e aprofundada do que é o cinema de animação e do que se está a fazer.” Para o diretor, o ponto de situação do cinema de animação em Portugal neste momento é positivo e não só a adesão é mais forte do que noutros tempos como também há um maior entendimento do que é, afinal, este género. Destaca o Cinanima, em Espinho, no papel que teve para “desconstruir a ideia de que o cinema de animação é para miúdos”.

“Precisamos sempre de dizer às pessoas para virem, porque cada vez mais ficam em casa agarradas ao pequeno ecrã. Mas o que esta experiência tem de diferente é olharmos os objetos artísticos sob outra perspetiva e na sua verdadeira dimensão. Não temos nada contra o pequeno ecrã, mas a verdade é que o cinema na sua plenitude se atinge com o grande ecrã”, afirma. 

10 curtas escolhidas por um grupo “com um pensamento muito próximo"

Sobre a competição, explica ao Gerador os critérios de seleção: “Um dos critérios tem a ver, naturalmente, com a qualidade em 4 grandes aspetos do filme — as qualidades artísticas, dramatúrgicas (e nem sempre é preciso contar uma história, nós procuramos filmes que provoquem emoções), a diversidade em termos técnicos e a origem de cada filme.” O júri de seleção é composto por si, por Miguel Pires de Matos e Francisco Lança, um grupo que, segundo Fernando, tem um “pensamento muito próximo”. 

Francisca Coutinho é autora do filme À Flor da Pele, que fez a propósito de um projeto de faculdade, enquanto estudava na Lusófona. "O meu percurso académico foi sempre em ciências e estive um ano no Técnico, em Enganharia e acabei por decidir que não era a isso que quero dedicar o meu tempo. Não porque não me interessava, mas porque me queria dedicar ao cinema e quase por acaso encontrei o curso de cinema de animação.”, explica Francisca, que no início encarou o curso “apenas como uma experiência que logo via no que ia dar ao fim de um ano”. 

Still de À Flor da Pele, de Francisca Coutinho 

Conta ao Gerador que muitos dos seus filmes de referência foram vistos na Monstra, onde ia em visita de estudo com a faculdade ao longo de três anos— “Durante a semana do festival as aulas paravam para irmos ver filmes e agora no primeiro ano em que não estou na faculdade, estou a trazer este filme a concurso”, conta. A proposta inicial dos professores para o projeto de onde saiu À Flor da Pele inicialmente assustou Inês: o tema era “o desporto" e não sabia ao certo o que podia fazer e de que forma podia explorá-lo conceptualmente. Encontrou no ballet “uma ponte entre o desporto” e algo que lhe é muito próximo, o momento de criação. 

A Francisca tem 22 anos e nunca fez ballet, mas a partir da narrativa que construí conseguiu criar um trabalho que “acabou por ser muito pessoal” e do qual se orgulha. Estar na Monstra 2019 é importante para si na medida em que recebe uma valorização exterior dada ao seu filme e ganha motivação para continuar a arriscar, como fez com À Flor da Pele.   

Além de À Flor da Pele, de Francisca Coutinho, estão a concurso as seguintes curtas-metragens: 

  • Moulla, de Rui Cardoso;
  • Não Alimentem Estes Animais, de Guilherme Afonso e Miguel Madail de Freitas;
  • Sentir-me, de Débora Rodrigues, Joana Flauzino e Vanessa Santos;
  • Agouro, de Vasco Sá e David Doutel;
  • Entre Sombras, de Mónica Santos e Alice Guimarães;
  • Ensaio sobre a Morte, de Margarida Madeira;
  • Outubro 28, de Tiago Albuquerque;
  • Porque é este o meu Ofício, de Paulo Monteiro;
  • À Tona, de Filipe Abranches.  

A Monstra 2019 começa vai decorrer entre os dias 20 e 30 de março no Cinema São Jorge, no Cinemacity Alvalade e no Cinema Ideal. Sabe mais sobre a programação aqui, e consulta os preços dos bilhetes aqui.

Texto de Carolina Franco
Still de Não Alimentem Estes Animais, de Guilherme Afonso e Miguel Madail de Freitas

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