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Romeu e Julieta, de John Romão: o amor à velocidade dos dias que correm

Em Romeu e Julieta, peça que estreia esta sexta-feira, dia 14, no Teatro Nacional D….

Texto de Ricardo Gonçalves

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Em Romeu e Julieta, peça que estreia esta sexta-feira, dia 14, no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, o encenador John Romão apresenta um dispositivo cénico, no qual o texto, seminal na obra de Shakespeare, ganha dimensões contemporâneas: afinal, o amor no século XXI é, em parte definido pelas relações à distância, pelo individualismo, onde nem sempre “o outro” marca uma presença real.

É a partir destas premissas, que o encenador se propõe a trabalhar dois conceitos essenciais que explicam esta versão reimaginada de Romeu e Julieta: “a velocidade e o questionamento do lugar do corpo na contemporaneidade”, sustenta.“Trabalhar Shakespeare de uma forma muito generalista é quase impossível”, realçou à imprensa, no final de um ensaio, justificando a cenografia da peça, que é já a segunda de 2020 na sua conta pessoal, depois de Virgens Suicidas, apresentada em janeiro na Culturgest (Lisboa) e no Teatro Municipal Campo Alegre (Porto).

Em palco, o espetador é confrontado com cinco personagens - Romeu, Julieta, Benvólio, Mercúcio e Teobaldo -  suspensas, cada uma assente numa plataforma, em que juntas formam um círculo que vai girando. Falam para “o ar”, num estado que, de acordo com John Romão está “entre o céu e a terra, a vida e a morte”.

Desta forma, trabalha-se aquilo que está entre a “verticalidade e a horizontalidade, um não lugar para os corpos” que parecem “estar presentes, mas também ausentes no tempo”, completa. Face a esta construção, John Romão acrescenta ainda que o cenário põe em evidência a “presença-ausência do corpo mediada pelos meios de tecnologia e pelos meios de comunicação, numa relação com a virtualidade”, que pauta o tempo atual em que vivemos.

Definida por temas como o individualismo, o egocentrismo e a solidão, não existe, ao longo da ação toque entre as personagens, nem mesmo o beijo, essencial para o epíteto da tragédia. A peça termina por isso com a morte, desfecho conhecido de Romeu e Julieta, com as personagens no mesmo sítio em que se encontravam no início.

Por outro lado, é de destacar também a utilização de laser, como forma de trabalhar o cenário noturno que caracteriza esta tragédia, sendo que este detalhe mais técnico nos remete, uma vez mais, para um aspecto contemporâneo, que no fundo continua a ser incógnito para o espetador localizar.

Romeu e Julieta tem dramaturgia de John Romão e Marta Bernardes. O elenco é composto por João Arrais, João Cachola, João Jesus, Mariana Monteiro, Mariana Tengner Barros, Matamba Joaquim, Rodrigo Tomás, Rui Paixão, com participação de Gonçalo Menino, Salvador Graça e Vasco Venâncio. O desenho de luz é de Rui Monteiro, o de som, de Daniel Romero e, os figurinos, de Carolina Queirós Machado.

A peça, uma produção do Coletivo 84, estará em cena no D. Maria II até 1 de março, com sessões às quartas-feiras e sábados, pelas 19h00, às quintas e sextas-feiras, pelas 21h00, e, aos domingos, pelas 16h00. No dia 23 há sessão em língua gestual portuguesa e uma conversa com artistas no final do espetáculo. A sessão de 1 de março tem áudiodescrição.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografias de Filipe Ferreira

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