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Opinião de Paulo Pires do Vale

PNA: o primeiro ano da lenta explosão de uma semente

Árvorea explosão lentíssimade uma semente é com esta frase-poema de Bruno Munari que abre o…

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Árvore
a explosão lentíssima
de uma semente

é com esta frase-poema de Bruno Munari que abre o manifesto-estratégia do Plano Nacional das Artes, apresentado publicamente no dia 18 de Junho de 2019. Passado um ano - e que ano este! -, é importante olhar para esse processo explosivo que privilegia o crescimento sustentado e a lentidão.

1. A árvore

O Plano Nacional das Artes é uma estrutura de missão, criada pelos Ministérios da Cultura e da Educação, para um horizonte temporal de 10 anos – com o intuito de aproximar as artes, o património e a cultura dos cidadãos, em particular das crianças e dos jovens. Ou seja, para fazer cumprir a Constituição – e garantir aos cidadãos dois direitos constitucionais:

- o direito à cultura (e no texto da nossa Constituição fica explícito que temos direito à fruição e à criação cultural;

- e o direito à educação (e não haverá educação completa sem acesso ao património, às artes e à cultura, sem desenvolvimento da sensibilidade estética, sem a possibilidade de aceder às múltiplas linguagens, sem reconhecimento da diversidade cultural, sem o exercício da criatividade e da imaginação, sem a possibilidade de usar estas ferramentas para tornar a escola mais inclusiva).

Deste modo, o Plano tem como missão promover a transformação social, mobilizando o poder educativo das artes e do património na vida dos cidadãos: para todos e com cada um. Ou seja, é preciso reforçar a antiga noção de “democratização”, com uma consciência mais autêntica de “democracia cultural”, do papel ativo a desempenhar por cada um, por cada comunidade – e capacitar para que assim aconteça, responsabilizando cada um pelo horizonte cultural do seu Km2.

Esta é a árvore que esperamos: um país em que o compromisso cultural está integrado na vida das pessoas e das organizações como fator assumido do seu desenvolvimento sustentável. Uma comunidade que compreende que as artes e o património fazem parte da vida – e não são uma via paralela, só para alguns – e que reconhece que a cultura existe para transformar a existência e não para a decorar.

2. A semente

Para ver essa árvore crescer, lançámos, há um ano, um manifesto e uma estratégia que, ao longo destes 12 meses, em trabalho subterrâneo ou em manifestação iluminada, colocámos em movimento:

- promovendo condições estruturais, de política cultural e educativa, mais do que microeventos que não deixam raízes. Nesse sentido, fizemos e continuaremos a fazer propostas às tutelas e aos organismos públicos, que permitam multiplicar, e com mais impacto social, atividades artísticas e culturais em todo o território;

- fundamentando a importância das artes e do património na vida dos cidadãos, em particular nas escolas. Publicámos textos, demos entrevistas e estivemos presentes em muitas conferências, conversas e apresentações em todo o país – e, nos últimos meses, em muitos fóruns online; preparamos a publicação de três livros, em parceria com a IN-CM; lançámos os alicerces da Escola do Porto Santo, um espaço privilegiado para a reflexão e experimentação sobre a relação entre Arte e Comunidade, em parceria com o Governo Regional da Madeira, o Município do Porto Santo e a Associação Porta 33; e iniciámos colaborações com diferentes órgãos de comunicação – sempre com o intuito de aproximar as artes dos cidadãos e argumentar a necessidade dessa proximidade;

- reunindo para articular e potenciar a ação dos planos, programas e redes já existentes; e criando parcerias em todo o território com associações artísticas, municípios,  instituições culturais e de ensino, conscientes de que somos herdeiros, de que não estamos “a inventar a roda” e que é preciso apoiar o que de bom já foi e está a ser feito - e que só territorializando a semente pode crescer;

- recusando a ideia de que é preciso “levar cultura” ao país, para afirmar que a cultura já existe em todo o território, em cada lugar, e que é preciso valorizá-la – e depois disso, perceber o que aí falta e como colmatar essas falhas. Por exemplo: os Projetos Culturais de Escola, que neste primeiro ano começaram a ser desenvolvidos em 65 Agrupamentos de Escolas, de norte a sul, não têm um tema único, mas partem da especificidade local: de um problema, de um desejo, de uma manifestação cultural identificada nessa escola, e em redor desse tema começa-se a desenvolver um projeto e uma programação cultural;

- assumindo que os processos artísticos ajudarão a inovar as práticas pedagógicas: uma das medidas estratégicas do Plano é o Projeto Artista Residente, que promove a presença de um artista/associação/companhia de teatro na escola durante um período longo, de 3 meses a um ano letivo – este ano, tínhamos duas dezenas de artistas em residências, que foram interrompidas de forma abrupta pela pandemia – e que obrigou a reinventar essa presença dos artistas no formato digital. Também com o intuito de dar uma resposta urgente à situação criada pelo fecho das escolas, para apoiar os alunos, os professores e os pais, aceleramos a criação e apresentação da página de Recursos Educativos do PNA – com exemplos que recolhemos e reunimos em instituições, canais e produtores de conteúdos nacionais e internacionais. Estamos, neste momento, a encomendar e a desenvolver com artistas, mediadores, associações e instituições culturais portuguesas a criação de mais Recursos Educativos para promover a presença da cultura na escola, de modo transdisciplinar - e para apoiar o sector cultural e a relação entre as instituições e os públicos. Também com o objetivo de introduzir as artes e o património nas escolas de modo estrutural, como ferramenta de apoio aos professores de diferentes disciplinas, indisciplinando / transdisciplinando a educação, organizámos durante este ano um portfólio de Ações de Formação para Professores e Mediadores, presenciais e online, acreditadas e creditadas, que cruzam as artes e o património com diferentes disciplinas do currículo: estas Ações de formação da  Academia PNA serão, agora, propostas aos Centros de Formação de Professores.

- explicitando que é preciso toda uma aldeia para educar uma criança - e que, por isso, a escola não se pode isolar do resto da comunidade, não fechámos as nossas propostas nas escolas, mas dirigimo-nos, com medidas específicas, ao sistema social e cultural no qual a escola está inserida: autarquias, ensino superior, instituições culturais, artistas, associações, empresas... Propomos uma abordagem sistémica. Os Projetos Culturais de Escola são a manifestação disso: para além da identificação de um Coordenador em cada escola, implicam também a criação de um Conselho Consultivo de que farão parte elementos da comunidade educativa e representantes das instituições e associações culturais desse território. Valorizando esse pensamento sistémico, neste último ano iniciámos também a implementação da medida Planos Estratégicos Municipais Cultura-Educação, estabelecendo a metodologia de ação com as Direções Regionais de Cultura, o Centro de Estudos Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho e o contacto e confirmação de interesse de diversas Câmaras Municipais;

- refletindo, discutindo e preparando - em equipa - a implementação de outras medidas previstas no Plano estratégico e que serão divulgadas a seu tempo; sublinhando sempre que a forma e o conteúdo são uma unidade; procurando fazer tudo com muita exigência - e com muito prazer.

3. A explosão lentíssima

Este primeiro ano não é, como atrás explicámos, um “ano zero”. Sabemos que nos inserimos numa tarefa que não começou nem terminará connosco. É um trabalho de muitos e para muito tempo. Privilegiamos esse tempo longo, o das estruturas, das raízes, da mudança de paradigma e de mundividência.  A árvore não surge de modo instantâneo – mas escutamos já, nos rumores deste tempo estranho, os ecos de uma explosão presente e por muitos desejada. 

Para saber mais sobre o Plano Nacional das Artes, clica aqui.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Paulo Pires do Vale-

Filósofo, professor universitário, ensaísta e curador. É Comissário do Plano Nacional das Artes, uma iniciativa conjunta do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação, desde Fevereiro de 2019.

Texto de Paulo Pires do Vale
Fotografia de Tomás Cunha Ferreira

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

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