Sabemos que vivemos num estado de pura alienação quando somos levados a tomar decisões a quente, contra o nosso âmago e em concordância com um grupo que “leva tudo à frente”. Já lá chego.

Conhecemos esta realidade assim que começamos a ir à escola e que nos apercebemos, mal ou bem, que há preferências, estatutos, grupos. Entendemos, com maior ou menor facilidade, que podemos até ser capazes de pertencer a um grupo ou, na pior das hipóteses, resguardarmo-nos no canto mais escondido e taparmo-nos com dossiers para passarmos despercebidos durante os próximos longos anos.

Esta cruel verdade dota-nos de certas defesas, e ainda bem, contra os ataques que iremos sofrer ao longo da vida. Muitos de nós sobrevivem ao grupo, outros com o grupo e alguns, poucos, conseguem o milagre da invisibilidade e passar por entre as gotas da chuva durante todo este processo.

Mais tarde na vida somos abordados por grupos de interesse. Os culturais, políticos e desportivos, o que está a dar ou não, mas tudo são modas, algumas menos passageiras e, na boa da verdade, ninguém gosta de passar por tudo sem ninguém ao lado para desabafar, rir e chorar.

Sim, somos famílias, andamos em grupo, e até brincamos com isso. Mesmo aquele que ficou agarrado aos dossiers pode transformar-se num líder de opinião. Geralmente são esses que chegam ao microfone. E com eles, toda uma forma de ver e sentir diferente da nossa.

É agora que começo a escrever sobre o que realmente quero: será que é por medo ou desconhecimento que abraçamos certas causas?

Se a cultura ocidental se afirma como defensora da liberdade do indivíduo e da sua expressão, como lidar com essa própria individualidade? Com a diferença? Não somos iguais mas, no entanto, e desde a mais tenra idade, temos de nos comportar como uma matilha, brincando os mesmos jogos na primária, sofrendo as primeiras humilhações durante a escola, celebrando pequenas vitórias ao longo do liceu, mas sempre a fazer parte de um conjunto de pessoas que podem ou não ser iguais a nós.

A questão do grupo é importante. É a defesa de um todo, a pertença, a confiança e a comunhão. Mas somos sempre levados a fazer cedências, a viver situações que não queremos, a ser obrigados, moralmente, a escolher caminhos que, por vezes, são opostos ao que queremos nessa precisa altura.

Mas a verdade é que… não somos iguais. Todo o nosso background nos leva a escolher determinados caminhos, opções, soluções. E, como sabemos, ao longo do percurso vamos perdendo peças, quer seja por zangas ou até por doenças, mas vamos ficando mais vulneráveis mas também mais duros, mais concretos.

Quando se é jovem, ser-se diferente leva a problemas sociais. Quando somos adultos, apenas nos podem apontar uma certa excentricidade ou, como já ouvimos por aí, um ligeiro “desvio”, seja lá o que isso pode significar.

 Contudo, quase todos continuamos aptos a trabalhar e a viver em sociedade. Apenas, e talvez, um pouco mais sozinhos.

O quanto esta diferença nos pode alterar o comportamento e a forma de viver o quotidiano, depende muito da forma como olhamos e sentimos esse mesmo dia-a-dia. Será que somos afectados por olhares e críticas ou nos apercebemos de que, afinal, há pessoas menos gentis ou menos esclarecidas que outras e que facilitam ao apontar um dedo contra algo que lhes foge à rotina, à razão?

Num momento como vivemos, os solitários talvez consigam suportar o fardo dos sucessivos confinamentos com mais realismo e à vontade enquanto que quem sempre fez parte de um grupo social alargado vê-se perante um sinal de STOP na existência até agora tão bem definida e objectiva.

E as diferenças voltam a ter importância, aquelas da infância e que nos transformaram no que somos hoje. E hoje é dia para estar mais atento a quem pode estar a sofrer com o tal “novo normal” que de normal não tem nada. Hoje é o dia em que temos de perceber que todos nós, os mais e menos solitários, os mais e menos sociais, os mais e menos alegres, os mais e menos tristes, teremos de ser capazes de nos entreajudarmos neste difícil período que nos caiu em cima como se fosse o céu do Astérix.

Seremos capazes de aprender, com este empurrão, a sermos mais solidários, enfim, e usando capitular, Humanos para entender que está na hora de dar a mão a quem precisa?

Porque, sim, esta pandemia já afecta a nossa saúde mental. Mesmo a do mais solitário, pois ao fim de um ano tudo volta à estaca zero com mais um confinamento que nos tira da vida, da rua, do ar.

Não somos tão fortes como pensamos. E quando mais depressa o entendermos, mais depressa começamos o processo de cura.

E ninguém o consegue sozinho. Nem mesmo os que se esconderam atrás dos dossiers e que passaram pelos pingos da chuva.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Ana Pinto Coelho-

É a directora e curadora do Festival Mental – Cinema, Artes e Informação, também conselheira e terapeuta em dependências químicas e comportamentais com diploma da Universidade de Oxford nessa área. Anteriormente, a sua vida foi dedicada à comunicação, assessoria de imprensa, e criação de vários projectos na área cultural e empresarial. Começou a trabalhar muito cedo enquanto estudava ao mesmo tempo, licenciou-se em Marketing e Publicidade no IADE após deixar o curso de Direito que frequentou durante dois anos. Foi autora e coordenadora de uma série infanto-juvenil para televisão. É editora de livros e pesquisadora.  Aposta em ajudar os seus pacientes e famílias num consultório em Lisboa, local a que chama Safe Place.

Texto de Ana Pinto Coelho
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