Eu cresci nos anos 80, lá longe num outro século, onde o preconceito estava no adro. Cresci na altura em que o HIV era o vírus de que toda a gente falava. Na altura, eu, criança sem nenhuma noção do que se estava a passar, não entendia exatamente porque razão o HIV, “tinha vindo de um macaco em África e tinha chegado à América e atacava maioritariamente gays”.

Supostamente a doença transmitia-se, entre outros por via sexual, mas a comunidade mais “atacada” era a comunidade homossexual.

As revistas da moda mostravam imagens de pessoas doentes na capa, normalmente homens que assumiam ser homossexuais.

A televisão e os seus vários canais, todos os dias, faziam passar com mais afinco a ideia de que a doença era uma doença dos que só gostam de homens. E tal como eu o mundo todo cresceu com este pensamento : gays igual a sida.

Hoje, passado alguns anos e à custa de muito trabalho pessoal, muitas viagens, muitas conversas com muita gente de outras orientações sexuais, fez desaparecer o complexo que eu tinha sobre pessoas que amavam outras do mesmo sexo.

Da mesma forma, nos mesmos anos 80, crescemos todos com séries de televisão americanas que nos impingiam as suas ideologias, as que nunca colocamos em causa por ausência de entendimento.

Cresci portanto numa altura em que se consumia muita televisão, mas com dois canais apenas!

Uma das séries que acompanhei chamava-se os – 3 Duques – (The Dukes os Hazzard, no título original). Três jovens de uma pequena cidade chamada Hazzard faziam alguns disparates típicos de jovem e fugiam da polícia. Dois rapazes e uma rapariga de seu nome Daisy Duke, que usava sempre calções curtos e botas. É daí que vem o nome dos calções que hoje estão na moda e que todas as mulheres usam no verão: Daisy Dukes.

Estes jovens tinham um carro cor de laranja, que não abria portas e por vezes fazia saltos no ar incríveis quando fugiam à polícia. E o que tinha o carro de especial?, perguntam-me vocês.

O carro tinha nome. O nome era General Lee. Um carro cor de laranja com uma bandeira pintada no tejadilho (eu achava aquilo incrível!) Jovens bonitos que fugiam à polícia de forma fácil, era só uma brincadeira para eles.

Mas, durante o tempo que a série passou na televisão, eu ganhei afeto por eles e pelo carro, o General Lee. Anos depois, numa outra fase da minha vida, deparei-me novamente com os 3 Duques e fiz uma pequena investigação, quis saber como estavam actualmente.

Foi quando descobri que bandeira era aquela que o carro envergava no topo, nada mais nada menos do que a bandeira da confederação americana. A bandeira que suportou a escravatura na América. O General lee era um oficial de guerra que lutou contra os mexicanos, e deu apoio ao Andrew Jonhson no sentido da não libertação dos escravos.

Ou seja, o General Lee, o carro que eu adorei durante uma fase importante da minha vida, estava associado a esta situação tão profunda. E ninguém ponderou retirar do ar algo que não devia estar a ser enaltecido em plena televisão pública.

Isto tudo para dizer que, quer acreditemos ou não, há uma agenda televisiva política todos os dias com o objetivo de nos manter formatados e com preconceitos profundos sobre temas fracturantes.

Eu tenho a certeza que a maior parte das pessoas da minha geração é complexada em relação aos gays devido ao que aconteceu nos anos 80 formatados para acreditar que a doença era a doença “deles”.

Mesmo que tivéssemos sabido de milhares de casos em que homens passaram a doença as suas esposas, a doença nunca deixou de estar associada à comunidade gay. Esta manipulação que é constante, dá-nos pouco espaço de manobra e pouco tempo para conseguirmos fazer entender aos outros que, há um outro lado das coisas onde eles não estão, mas que seria bom que entendessem.

Do mesmo modo, ainda na minha década preferida, os anos 80, um pouco antes, a série “Roots” ensinou-me pela primeira vez de forma visual o que era a escravatura americana. A série era basicamente o mesmo que o filme “12 anos de Escravos” ou outro qualquer filme que perpetua a ideia de escravatura e que obviamente tenta manipular o meu pensamento.

E por vezes eu fico sem saber o que pensar, se por um lado acho que a arte deve denunciar algumas atrocidades do passado, por outro lado, também tenho que ter noção que nem todos têm a capacidade para aprender com o cinema.

E como tal, a ideia do Morgan Freeman de não se falar sobre um assunto que assim ele passa, é correta por um lado, mas por outro o assunto fica sempre por abordar.

Muitas vezes penso: “mas, faz sentido hoje em dia actores negros terem que fazer filmes sobre a escravatura, sempre na perspectiva de realizadores brancos? Sempre com chicote, com atrocidades que sabemos de facto que aconteceram? Isso não perpetua a ideia de que uns são melhores que outros? Ou donos de outros?”

Porque então, pensemos juntos, hoje em dia se as televisões mantivessem a ideia de que o sida é uma doença dos gays, como fizeram no meu tempo, com certeza ainda não estávamos onde estamos hoje em relação à forma como cada um deve viver a sua vida, neste caso os gays.

Da mesma forma que se perpetua a imagem de Jesus Cristo de cabelos longos e olhos azuis. Do mesmo modo que durante anos perpetuou-se a ideia das mulheres na cozinha colocando-as nos anúncios de utensílios domésticos. O quanto é que isso priva a luta da mulher pela sua independência? Enormemente!

Mas para que isso seja conversado é necessário que todos tenhamos como certeza ou noção de que a televisão manipula, e hoje em dia não é só a televisão, os media no geral com maior incidência nas redes sociais.

A liberdade de cada um contar a história que quer contar. Manter a cabeça isenta o mais possível é uma luta hercúlea, Eu tenho visto pessoas que considero próximas a partilharem imagens e vídeos de Hitler nas suas páginas como se isso fosse normal. Oiço e leio posições políticas radicais sobre temas que deveríamos já ter ultrapassado mas parece que continuamos no mesmo lugar.

Obviamente que parece até que estamos as voltas com os mesmos assuntos vezes sem conta. Mas, assumi que, ao contrário do Morgan Freeman, eu tenho em mãos uma plataforma que me possibilita ter um lugar para falar que eu não tinha antes. Não vou desperdiçar este momento nem esta plataforma.

Acho que é de facto necessário falar e discutir os assuntos. Abrir mão do nosso umbigo e ouvir mais umbigos até que ninguém tenha umbigos. Mas, enquanto uns acharem que o seu cordão umbilical for melhor do que o de outro, precisamos corrigir esse pensamento ou pelo menos explicar a nossa posição. Não de forma violenta porque eu não acredito em violência para mudar o mundo. Ao contrário do que nos fizeram crer ao longo de séculos.

-Sobre NBC-

NBC é um dos grandes nomes da música actual portuguesa,  e um dos fundadores do movimento hip-hop em Portugal, apreciado pelas suas peculiares performances ao vivo com crossover entre o soulrnbdrum and bassrock e eletrónica e ainda com versatilidade para transformar e criar versões acústicas. O seu último disco, TODA A GENTE PODE SER TUDO, foi editado em finais de 2016. Nascido em 1974 em São Tomé e Princípe, com a influência das suas raízes africanas, Timóteo Tiny é uma das vozes soul mais acarinhadas de Portugal e autor de temas como «Segunda Pele», «NBCioso», «Homem», «Neve», «DOIS» ou «Espelho».  Com a sua discografia já pintou diversas bandas sonoras de filmes e de telenovelas portuguesas, e já pisou muitos palcos em festivais como  NOS Alive, Super Bock Super Rock, Meo Sudoeste, Festival F ou também salas icónicas como Coliseu de Lisboa, Casa da Musica ou Hard Club. Pelo caminho, conta com a edição de um EP, EPidemia (2013) e mais outros dois discos Afrodisiaco (2003) e Maturidade (2008). Já fez digressão com a banda GNR e, em 2015 e 2018, viajou até ao Brasil para uma digressão de cerca 40 dias em estados diferentes estados, tendo passado por lugares como Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis ou Belo Horizonte. Em 2019, participou no Festival da Canção, com a canção “Igual a Ti”, tendo conquistado o segundo lugar do concurso. E assim se escreve mais de 25 anos de carreira.

Texto de NBC
Fotografia de Teresa Lopes da Silva
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