Ao longo da História as pessoas utilizaram as artes para comunicar o seu pensamento, ideias religiosas ou políticas ou, simplesmente, para manifestarem a sua criatividade. Este é o meu ponto de partida para o texto de hoje -  comunicar faz parte intrínseca do processo de criação artística. Quem faz arte, em qualquer meio ou forma, pretende comunicar alguma coisa com alguém. Se esse objectivo não existir, parte do sentido de ser artista perde-se inevitavelmente. Nas diferentes civilizações e culturas a importância desta capacidade de comunicação foi evoluindo e diversificando-se. Há sociedades que privilegiam mais uma cultura popular, mais abrangente em termos de público, e há outras que preferem apostar em segmentos de público, audiências menores. Ambas são absolutamente necessárias e uma não deve excluir a outra. Há quem ponha em confronto, na criação artística, uma espécie de oposição entre comunicar e inovar ou surpreender. Mas, na realidade, se olharmos bem para o que aconteceu, nomeadamente no século XX, as coisas mais importantes aconteceram quando se conseguiu um equilíbrio virtuoso entre a capacidade de comunicar e o desejo de surpreender.

Por isso creio que o papel do Estado, a nível central ou local, deve ser sobretudo o de conseguir um equilíbrio entre captar públicos e dar palco à capacidade de surpreender.

As cidades, porque concentram uma grande diversidade e quantidade de pessoas, são uma parte fundamental da gestão deste equilíbrio - que em muitos casos passa pela preservação de identidades, hábitos e tradições locais.

Gosto de pensar a criação artística, a sua divulgação e consumo, como a primeira de todas as redes sociais, que evolui desde a pré-história e das pinturas rupestres, até à arte contemporânea nas suas múltiplas formas. Ao longo dos séculos as artes foram a maneira de agregar comunidades, de as unir e de lhes dar uma identidade clara. 

Peguemos o caso de uma cidade como Lisboa, para onde convergiu gente de todo o país e de muitos outros países. A diversidade de tradições, interesses e expectativas é enorme - e a capacidade de comunicar com estes públicos tão diversificados é um desafio considerável, assim como conseguir a sua participação. Mesmo dentro de uma cidade - como é o caso de Lisboa - há bairros que têm uma identidade muito própria, há colectividades que durante muito tempo foram o local possível para as pessoas descobrirem livros, música, por vezes artes plásticas, para debaterem ideias e também para se divertirem. A responsabilidade de quem gere actividades culturais numa cidade como Lisboa é criar condições para que esta diversidade exista, que as actividades se complementem sem se sobreporem. Gerir a cultura numa cidade não deve ser só gerir apoios avulsos ou manter equipamentos, tem de passar por fomentar a participação das pessoas não só como espectadores, mas também na sua participação em eixos de desenvolvimento e criatividade - aspecto fundamental para ampliar públicos.

Há coisas muito simples que são autênticos ovos de colombo: há uns anos, numa das grandes cidades holandesas, surgiu a ideia de fomentar a participação de pessoas de diversos bairros de uma forma interessante. Foi recuperado um autocarro de um só andar, removido todo o seu interior, e transformado para que fosse uma espécie de sala de exposições sobre rodas. O autocarro ía de bairro em bairro e em cada um desafiava as pessoas a trazerem coisas feitas por elas ou peças que tivessem em casa e que quisessem partilhar para outros verem. O resultado foi que pessoas que muitas vezes se cruzavam, mas não falavam umas com as outras, passaram a comunicar quotidianamente, conheceram-se melhor, descobriram interesses comuns, alguns desenvolveram até colaborações em várias áreas.

Num outro campo, há uns anos, o British Journal Of Photography teve a ideia de, aproveitando o facto de toda a gente ter uma máquina fotográfica no bolso disfarçada de telemóvel, desafiar as pessoas a fazerem retratos de outras pessoas que tivessem algum significado para elas. Nasceu assim a série “Portrait Of Britain”, que anualmente tem editado um livro e realizado uma exposição de rua, em painéis publicitários digitais, os mupis, disponibilizados por um operador do sector, e que assim levam as imagens escolhidas por todo o país, para o meio da rua. Todos os anos aumenta a participação e o interesse e os autores das fotografias são pessoas anónimas que fotografam outras pessoas anónimas e partilham publicamente o que vêem e como vêem. E assim nasce uma memória diferente de um país, mostrando a sua diversidade, num exercício de comunicação e participação. 

A vida cultural pode e deve existir para além dos concertos ao ar livre, das salas de espectáculos, dos museus e das galerias. Conseguir ganhar, a qualquer nível, a participação das pessoas é o mais interessante dos desafios. Se acham que conseguir combinar capacidade de comunicação com capacidade de surpreender é coisa rara, pensem nos filmes de Pedro Almodóvar. Ou nas canções de Sérgio Godinho. Ou no trabalho de artistas como Pedro Cabrita Reis. Ou basta ouvir o nosso Fado, ainda hoje, como surge no mais recente disco de Aldina Duarte.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Manuel Falcão-

Manuel Falcão iniciou-se no jornalismo pela fotografia e, ao longo de duas décadas, desenvolveu a sua carreira como repórter e redactor. Foi fundador do Blitz e de O Independente, trabalhou nas Agências Notícias de Portugal e Lusa, no Expresso, no Se7e e na Visão, entre outros. Realizou vários programas de rádio. Dirigiu as áreas de produção de TV e de novas edições da Valentim de Carvalho e foi diretor do canal 2 da RTP. Foi também Presidente do Instituto Português de Cinema, Diretor do Centro de Espectáculos do CCB e administrador da EGEAC. Durante 15 anos, foi Director-Geral da agência de meios Nova Expressão. Em 2013 fundou a editora Amieira Livros, dedicada à fotografia e, em 2020, criou a SF Media onde desenvolve os seus projetos pessoais.

Texto de Manuel Falcão
Fotografia de Paulo Alexandrino
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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