Para Agostinho da Silva

[Em continuação da crónica: “O silêncio não é um modo/ de repouso ou suspensão/ mas de resistência”]

“O que queres ser quando fores grande?”, atiram-nos durante a infância. Mais tarde, quando perguntam – “O que estás a estudar?” – e, se não é Medicina, Direito, Engenheira, Economia, Gestão e outros que tais, segue-se – “Então, isso serve para quê?”. Quando a formação está concluída, começam – “O que és?”, “O que fazes?” – … Todas estas perguntas esperam uma resposta no campo profissional. E, repare-se, utilizam o verbo “ser”, como se o que somos se esgotasse naquilo que temos de desempenhar para sobreviver, o que pode ser um gosto, ou mesmo uma paixão, mas não é o ser, apesar de poder ser uma manifestação de si, que, por vezes, não tem que ver com a actividade em si mesma, mas com a forma como a realizamos e a relação que com ela estabelecemos. Mas, tudo isso é precário porque existe o tempo, que é experiência, logo mudança.

O “ser” invoca-nos por inteiro, e, por isso, transcende-nos, porque nunca vamos saber o que somos. Começando pelo próprio corpo, que se mantém pela transformação, o que nos permite experimentá-lo de diversas maneiras, consoante a idade, o seu estado, as marcas que a vida lhe foi deixando e até a própria imagem… Esta última talvez seja o exemplo mais claro, que me foi dado pelo escritor Paulo José de Miranda. Se uma pessoa mais velha mostrar uma fotografia de recém-nascida a uma criança, esta última não a reconhecerá, não identificará que se trata da “mesma”. A nossa história, o que vivemos até ao presente, é mudança, porque nunca lidaremos com ela da mesma forma, isto é, a memória vai ficcionalizando.

Para além das transformações do corpo, seja pelo próprio crescimento, e da nossa forma de pensar, inseparável do estar no mundo, desencadeadas pela experiência, o facto de não termos habitado todas as nossas possibilidades de vida, o que implicaria uma omnipresença constantemente actualizada em tudo o que existe, significa que é mais o que desconhecemos do que o que conhecemos. Podemos imaginar-nos sendo pai ou mãe, mas, se nunca o formos, não sabemos o que seriamos. Se nunca tivermos num contexto de risco, não descobrimos de que forma agiríamos. Se ficássemos com uma doença que condicionasse a nossa vida, por muito mais que pensemos que temos certezas quanto à forma como a encarávamos, possivelmente, estas desfazer-se-iam. Talvez a única identidade do ser humano seja devir-se e, assim, perder-se e, por isso, procurar-se. Ser-se é transcender-se.

Então, fará sentido aplicar o verbo “ser”, que invade tudo, à profissão? Uma das manifestações desta visão, que pode ser muito discriminatória, são os títulos profissionais dispostos antes dos nomes. Outra é esperar-se que alguém despeje o currículo ao ser-lhe pedido uma bionota ou uma biografia. Ainda recorremos à expressão “ser alguém na vida”, o que significa que quem não tem uma profissão socialmente elevada não é ninguém.

Convoco Agostinho da Silva:

“Já reparou naquilo a que chamo a agonia do trabalho? Toda a nossa vida gira em função do trabalho. Quando se pergunta a alguém o que é, nunca temos a resposta: sou homem ou sou mulher. Diz-se: sou engenheiro, electricista, médico. Só se é gente em referência ao trabalho. Um desempregado sente-se um pária e, todavia, ele é gente, a coisa mais extraordinária que se pode ser. Espero que as máquinas venham restituir às pessoas, aliviando-as do trabalho, a capacidade criativa, aquilo que nelas se oculta. Mas a transição parece-me estar a ser difícil porque as pessoas demoram muito tempo a render-se ao novo. Exigem provas seguras, entram com cautela no desconhecido.”[1]

Às vezes, contacto com pessoas em final de vida e, muitas vezes, quando se apresentam começam pela profissão, e lá está: “sou x”. Depois, tomando consciência de que não a exercem há muito tempo, corrigem “fui”. Algumas ainda acrescentam: “agora, não sou nada”. Ainda há quem diga, com alguma vergonha, que não faz nada e, como não faz nada, que é um peso. O que é não fazer nada?

E, nós, o que andamos a fazer para que as pessoas digam isto, se sintam assim?

Sempre me aterrorizou o facto de não me identificar com nenhuma profissão, dos meus sonhos não caberem em nenhuma, de não ter uma missão nem uma vocação. “Ao que queres entregar a vida? Para que vives?”, pergunto-me constantemente e acho que, um dia, o meu corpo ganha a forma de uma pergunta. Como sintoma desta lógica capitalista, situava estas questões na minha actividade profissional. Contudo, há um motivo para as ver desta forma, uma vez que é como funcionários que passamos a vida toda e tudo o mais é um resto. E quem coloca limites a isso é considerado que não é dedicado, que não se esforça ou não dá o seu melhor. Apesar de não coincidir com o que se é, vive-se como se não se fosse outra coisa. Cada vez mais, as empresas apostam na isenção de horário, o que é uma perversidade sob o argumento de liberdade uma vez, que, em muitos casos, as tarefas ultrapassam as oito horas de trabalho, estabelecidas por lei, são levadas para os serões, fins-de-semana, o que protege a empresa de pagar horas extra.

Antes de trabalhar como jornalista no Gerador, desempenhava as funções de empregada de mesa e de limpeza num restaurante. Tinha tido uma bolsa num projecto na faculdade, que durou uns meses, mas, quando terminou, voltou, outra vez, a perseguição do futuro. Nesse mesmo dia, recebi uma mensagem num grupo de whatsapp, perguntando se havia alguém interessado em trabalhar num restaurante mexicano. Respondi logo que sim. Não me tinha candidatado a mais nada. Contudo, não suporto viver totalmente de apoio dos meus pais, apesar de ainda o ter, porque preciso. Mas, fiquei. Foi o meu primeiro trabalho a tempo inteiro. Já tinha trabalhado aquelas horas por dia, mas divididas por outros trabalhos. Lembro-me de ter chegado ao fim da rua do restaurante, depois de ter sido admitida e pensar que se tratava de um suicídio simbólico. Tinha desistido de procurar o que “era”. Não era um emprego de Verão, nem para pagar as propinas ou para juntar dinheiro para uma viagem. Era o meu emprego e não era tomado como temporário. Não tinha planos, não havia um “a seguir”. Os meus amigos e as minhas amigas receberam sempre os parabéns pelos seus novos empregos. Eu, não. Quando me perguntavam o que era ou o que fazia e eu respondia, comentavam, lamentando e até com uma certa pena: “pois… não encontraste mais nada…” Mas não tinha procurado e isso despistava. Comecei a aperceber-me da bolha onde vivia. A minha mãe dizia que eu não tinha necessidade disso e que não me ia aguentar nem sequer uma semana a limpar urinóis e sanitas. “O teu caminho é o doutoramento.” A minha avó, quando soube que eu tinha dito a uma amiga dela a minha profissão, interrogou-me: “Porque não disseste apenas que davas explicações?”. Na verdade, dava explicações, mas duas vezes por semana. E, uns dias mais tarde: “Porque não és como as tuas amigas, que têm bons empregos?” Mas estas abordagens também jorraram de algumas destas, de formas mais subtis. Como tinha ficado como investigadora júnior (apenas com o título), ou mesmo simplesmente por gosto, continuava, nos intervalos entre os turnos, a ir ao que podia, com algum cheiro a fritos, e colocando à pressa o blazer na casa de banho. Encontrava-me com professoras e, mais uma vez, estranhavam e diziam: “O quê? A Raquel?” Se fosse uma rapariga cabo-verdiana que vivesse num bairro social e limpasse escadas, ninguém dizia nada disto. O que sou eu a mais do que ela? Também fiquei desiludida com a própria academia. Como alguém que lê poemas, vê este movimento assim? Descobrir que os conteúdos programáticos das unidades curriculares são só autores de esquerda (e maravilhosos!), mas depois são só autores de esquerda em conteúdos programáticos.

Porém, uma professora desconhecida, ao ouvir isto, disse-me, com os olhos azuis muito abertos e num sotaque britânico: “Que maravilha! Está a descobrir o mundo, que é tão grande. Esse trabalho tem uma chave. Depois de fechar a porta, não leva nada para casa. A sua cabeça fica desocupada e, quando terminar o horário, pode fazer o que quiser.”

Continua Agostinho:

“O grande defeito dos intelectuais portugueses tem sido sempre o só lidarem com intelectuais. Vão para o povo. Vejam o povo. Vejam como ele pensa, como ele entende a vida, como ele gostaria que a vida fosse…”[2]

Quando atendia no restaurante, alguns clientes tomavam-me como “ignorante” ou eram indiferentes à minha presença. Uma vez, um homem, chamou-me com um estalar de dedos. Para além destes exemplos serem sintomas de uma hierarquia entre as profissões, reforçam a tese de que estas coincidem com o que se é, pois, se estivesse com uma bata branca num consultório, não mo fariam.

Claro que havia momentos de imensa angústia, porque, muitas vezes os outros faziam-me pensar que era infeliz, e eu acabava por fazê-lo também. Porém, o facto de não ter correspondido às expectativas, foi uma imensa libertação. De manhã, dançava com a esfregona ao som de Elis Regina e cumprimentava todos os vizinhos, que já sabiam o meu nome. Conheci a inacreditável história do Jesus, o senhor que arrumava os carros e que vinha ter comigo nas horas mais paradas, bem como do senhor Victor ou do senhor Luís, que dormiam nas escadas da Igreja Universal do Reino de Deus, na Alameda, e eram constantemente expulsos e roubados pelos seguranças desta, ficando sem mantas nem agasalhos. Trabalhei quase sempre com emigrantes do Nepal, do Bangladesh e da América Latina, o que me fez aproximar quotidianamente de outras realidades. Comecei a ter de enfrentar a autoridade, a detectar os seus meandros, a perceber que os direitos laborais não estão garantidos, a perder o medo. Atrás do balcão, desenvolvi a atenção. “Houve” um momento em que trabalhei entre as 11h00 e as 24h00, com um intervalo pelo meio de três horas, uma folga por semana, onde não dava para descansar, de todo o tempo em pé, das caixas de bebidas para carregar, da montagem e desmontagem da esplanada, com os meus 47kg. Todavia, não associemos a precariedade às profissões estigmatizadas de inferiores.

Foi o trabalho que me rasgou mais o real.

Como é que uma pessoa que trabalha mais de 9 horas diariamente (em muitos casos, no mínimo) e durante uma vida inteira, se compreende fora da lógica produtiva?

Em Maio de 2019, a Organização Mundial de Saúde “passou a incluir na lista de doenças o «burnout», estado de esgotamento físico e mental causado pelo exercício de uma atividade profissional. A entrada do «burnout» (ou stress profissional) na nova classificação internacional de doenças da OMS, que vigorará a partir de 1 de Janeiro de 2022, baseia-se nas conclusões de peritos de saúde de todo o mundo e foi adoptada pela Assembleia-Geral da OMS”, lê-se no site do Serviço Nacional de Saúde. Não encontrei dados actualizados sobre os casos de burnout, em Portugal, apenas no que diz respeito aos profissionais de saúde durante o momento da pandemia. Este facto diz-nos que adoecemos quando somos só funcionários. Diz que não é a nossa biografia.

Costumo citar poemas quando posso escrever de forma livre, mas, Agostinho, estamos tão longe de nós, “poetas à solta”.


[1] Agostinho da Silva, AGOSTINHO, ENSINE-NOS (Entrevista a Lurdes Féria), 1986, in DISPERSOS, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1988, p. 113.

[2] Agostinho da Silva citado na página de Facebook da Associação Agostinho da Silva

-Sobre Raquel Botelho Rodrigues-

Para a Raquel, a biografia não é o curriculum. A escrita da vida é algo que ainda procura ler e tem a certeza de que este “ainda” será para sempre. Por motivos de força maior, porque nos temos de estar sempre a definir, diz-nos que trabalha na equipa editorial do Gerador.

Texto de Raquel Botelho Rodrigues
Fotografia de David Cachopo
gerador-gargantas-soltas-raquel-botelho-rodrigues