Ovo, larva, crisálida, borboleta.

A ocorrência da metamorfose contrária à circunstância kafkiana: ”Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto.” 

A inquietação pode ser um paradoxo. Veja-se a vida das borboletas. O que inquieta mais? Passar de larva a borboleta ou de homem a inseto?

É difícil identificar cada uma das circunstâncias.

A transformação física encantadora ou degradante. O Belo e o Horrível.

A perceção de uma coisa e a outra são, claro, preconceitos. Nada é verdadeiramente belo ou horrível. Torna-se assim porque assim o decidimos.

Pode haver uma inspiração estética ou mesmo uma teologia que celebre o estado entomológico de Gregor Samsa. Dormir homem, de forma deprimida, e acordar, esplendorosamente, inseto. O horror pode ser esplendoroso? Há, certamente, uma estética do horror, atiçada por almas doentes da guerra e da violência. O que falo é de um esplendor do Belo, considerar o inseto em que Gregor se transformou um ser adorável.

Contrariamente, imagine-se o pânico de um entorno de borboletas, que, apesar dos seus padrões magníficos nas delicadas asas, do silêncio da sua voz, da etérea presença que quase não agita o ar, se olha como um lugar amaldiçoado. A preferência da larva, da minhoca mole e esverdeada, a celebração da insectologia rastejante face aos sopros alados.

Um enorme inseto na cama, com as suas patas e carapaça viscosa, em quantos sonhos inquietantes não se acorda transformado, quando, à volta, a cama continua a ser a cama, os lençóis os lençóis, a almofada a almofada?

Chamar quem se ama, e dizer: tornei-me num gigantesco inseto. E ser olhado com amor e ouvir: querido, que beleza!

Maldizer as borboletas e glorificar as larvas, é o que é. Afinal uma borboleta obriga ao insuportável exercício da impotência: incapaz de tamanha beleza, leveza, elegância. Alimentam-se de flores e mel! E passada uma semana, morrem, apesar de um ano de esforço, do ovo, à larva, à crisálida.

Festejo a vida longa da minhoca, pegajosa e coleante, assente em mil apêndices. Exemplo de paciência na sua lentidão, bela na sua folha alimentar. Que se lixe a borboleta!

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier
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