Engolidos que fomos pela emergência, cercados que estamos pela espuma dos dias, vivemos, sem fim à vista, um presente estéril. É muito preocupante constatar como a nossa realidade, já de si tragicamente limitada, se tem vindo a estreitar num quotidiano sufocante e pernicioso.

Diria que os dias de chumbo, da minha infância, voltaram, aqueles que recordo, sempre, no acinzentado de um crepúsculo sem fim.

O espaço público, outrora do confronto e do debate, do argumento e da audácia, converteu-se, para inconfessável prazer de muitos, no anonimato, na despersonalização das redes sociais, ou na convulsão apocalíptica das televisões.

Vem isto a propósito da escandalosa secundarização ou mitigação de momentos fundamentais para a nossa identidade cultural, para o nosso sentir como comunidade, vem isto a propósito de inesgotáveis legados plenos de futuro, cuja capacidade salvífica nem sequer conseguimos alcançar, na opacidade da presentificação que nos cerca.

Vem isto, ainda e sempre, a propósito de Amália, do seu centenário e de uma notável e recente edição discográfica, lançada nos últimos anos pela Valentim de Carvalho, sob coordenação de Frederico Santiago.

Falo, naturalmente, de “Ensaios”, sublime prova do que é, afinal, a criação artística e a busca obsessiva pela sua transcendência.

Este não é, pois, um documento que vem provar em primeira instância aquilo que deveríamos à exaustão relembrar: a omnipresente personalidade artística de Amália e a sua sombra de eternidade; e embora isto fosse já, praticamente, a plenitude, somos, porém, transportados mais longe…

Quando escutamos “Ensaio” entendemos, aturdidos, que era esta a derradeira peça que faltava no quebra cabeças — a chave que nos desvenda o mistério de uma das mais prolíficas e assombrosas colaborações artísticas da cultura portuguesa. Somos, deste modo, investidos, como eleitos, num templo. Compreendemos finalmente a inexorabilidade deste momento único, absoluta convergência entre dois seres, duas vozes, construindo uma demiurgia única e definitiva.

Escutar “Rosa Vermelha”, Perdigão” ou “Sete Estradas”, ensaiados e reensaiados, é ficarmos reféns do poder visionário de Oulman e da inacreditável capacidade de Amália de elevar-se na escala do sublime.

Na aridez dos nossos dias, eis que surge este jorro de luz forte e inspirador. Ser mais uma vez Amália a sua fonte, não nos deve surpreender. Ela é há muito o aedo que teremos de escutar na profundidade de nós próprios se ainda quisermos, claramente, reinventar-nos, erguer futuro, recuperarmo-nos como comunidade, enfrentar o medo — abandonar esta apagada e vil tristeza em que nos comprazemos e refugiamos.

Hoje escutei e aprendi, extasiado, que a vida é um constante ensaio, uma comovente crença, uma incessante busca — porque não existimos para o esquecimento!

“habito o sol dentro de ti, descubro a terra, aprendo o mar…”

-Sobre Miguel Honrado-

Licenciado em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e pós-graduado em Curadoria e Organização de Exposições pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa/ Fundação Calouste Gulbenkian, exerce, desde 1989, a sua atividade nos domínios da produção e gestão cultural. O seu percurso profissional passou, nomeadamente, pela direção artística do Teatro Viriato (2003-2006), por ser membro do Conselho Consultivo do Programa Gulbenkian Educação para a Cultura e Ciência – Descobrir (2012), pela presidência do Conselho de Administração da EGEAC (2007-2014), ou a presidência do Conselho de Administração do Teatro Nacional D. Maria II (2014-2016). De 2016 a 2018 foi Secretário de Estado da Cultura. Posteriormente, foi nomeado vogal do Conselho de Administração do Centro Cultural de Belém. Hoje, é o diretor executivo da Associação Música, Educação e Cultura (AMEC), que tutela a Orquestra Metropolitana de Lisboa e três escolas de música.

Texto de Miguel Honrado
Fotografia de Estelle Valente
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