“Tu tem mas é cuidado” é a frase que mais frequentemente oiço por parte de amigos e família, de cada vez que tenho um concerto, desde que começou a “Era da Pandemia”. Preocupação? Sim! Excesso de zelo? Algum, creio que sim. Amor e alguma ignorância? Certamente que sim.

Acabaram-se as carrinhas cheias, acabou-se o catering partilhado no backstage (a menos que esteja hermeticamente isolado) e sempre que possível os camarins são separados, acabou-se a proximidade com o público, os abraços e toque na minha habitual invasão da plateia, chegaram as distâncias entre músicos no próprio palco, chegaram os circuitos de circulação obrigatórios, a medição da temperatura corporal, o uso obrigatório de máscaras à excepção do momento de actuação, a desinfecção de todos os espaços, os pontos de higienização que parecem cogumelos, as regras de entrada e saída do público nas salas, o distanciamento entre as cadeiras até para pessoas que fazem parte do mesmo agregado familiar. Estabeleceu-se também o fim da tradicional venda de “merchandising”, os autógrafos e contacto directo com o público que passou também a ser muito menor devido à redução da lotação máxima das salas. O distanciamento social e segurança tornaram-se substantivo, predicado e adjectivo nas salas de espectáculo em nome da segurança de todos, e bem.

Muitas vezes, digo a alguns amigos que me sinto mais segura num concerto do que num supermercado, em qualquer transporte ou outros espaços públicos. Há, nas salas de espectáculos abertas, uma certa “paranóia saudável” e responsável perante a Covid-19 que nos faz sentir que a cultura é efectivamente segura e onde tudo se altera para proteger e garantir a continuidade das actividades culturais, como é o caso da música. Escrevo estas linhas, porque me parece crucial sensibilizar a opinião pública para o facto de que os agentes culturais e os seus profissionais trabalham diariamente para cumprirem escrupulosamente as regras de higiene e segurança estabelecidas pela DGS e segundo a APEFE ( Associação de Promotores de Espectáculos). Desde 1 de Junho, realizaram-se 12.000 espectáculos sem registo de procedimentos desadequados. Numa altura em que se exige resguardo e cautela, diria que nestes lugares seguros onde tudo se faz para que os riscos de contaminação sejam reduzidíssimos, as salas de espectáculo são os lugares onde experiências, emoções são vividas e continuam a alimentar a nossa alma, o nosso espírito que tanto precisa de sonhar e de ser regado com esperança que a cultura nos traz, estando juntos mesmo com regras e limitações. Confiem, a cultura é segura mas está desprotegida e não é para todos, infelizmente…

Há pouco tempo sob o lema “ Ao Vivo ou Morto” aconteceu uma acção que movimentou artistas e público pelo país que mostrava o desagrado pela falta de apoio à imensa rede de salas de espectáculo que estão encerradas desde Março, pretendendo sensibilizar para importância no tecido cultural e na indústria musical destes imensos espaços espalhados pelo país que mobilizam milhares de actuações e vários milhares de espectadores em espaços que agora não têm como funcionar devido às suas dimensões e características. Não era um manifesto para reabertura inconsciente, mas antes um manifesto por medidas de apoio para garantir a sobrevivência destas salas, estratégias públicas de protecção e valorização do sector através da criação de programas de investimento nas salas…

Se alguma coisa esta pandemia trouxe ainda mais à tona foi a fragilidade do sector cultural e é mesmo importante que nos envolvamos na preservação de um circuito ultra resiliente que já funciona com orçamentos muito limitados, que é relevante na economia e que emprega várias pessoas dentro e fora do palco.

Recebi esta semana um presente musical de uma amiga cantora, a Joana Reais Pinto, um telegrama musical em forma de videochamada através de uma plataforma que se chama “adopte um artista”. Uma forma ternurenta de lembrar a importância não só de ajudar, mas de dar e receber através da música… fiquei francamente tocada por este momento “virtual” tão intenso e tão próximo e tão evidente do quanto a música pode curar o nosso coração. Solene ou para reflectir, alegre, para festejar, para contestar, a música e a cultura levam-nos sem dúvida a ter encontros divinos, tomemos conta dela para uma cultura com futuro e um futuro com cultura.

*Texto escrito de acordo com o antigo Acordo Ortográfico 

-Sobre Selma Uamusse- 

De origem e nacionalidade moçambicana, residente em Lisboa, formada em Engenheira do Território pelo Instituto Superior Técnico, ex-aluna da escola de Jazz do Hot Club, mãe, esposa, missionária e activista social,  Selma Uamusse é cantora desde 1999. Lançou a sua carreira a solo em 2014, através da sua música transversal a vários estilos mas que bebe muito das sonoridades, poli-ritmias e polifonias do seu país natal, tendo apresentado, em 2018, o seu primeiro álbum a solo, Mati.  A carreira de Selma Uamusse ficou, nos últimos anos, marcada pelas colaborações com os mais variados músicos e artistas portugueses, nomeadamente Rodrigo Leão,  Wraygunn, Throes+The Shine, Moullinex, Medeiros/Lucas, Samuel Úria, Joana Barra Vaz,  Octa Push etc. pisando também, os palcos do teatro e cinema.

Texto de Selma Uamusse
Fotografia de Rafael Berizinski
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