As línguas são, muito provavelmente, os esplendores de qualquer cultura. Nada captura a diversidade de uma cultura, de forma tão estruturada e complexa, como uma língua, construída e desenvolvida ao longo de anos, absorvendo todos os traços de personalidade de uma comunidade.

Existem mais de 7.100 línguas no mundo, sendo que cerca de 40% delas é falada por menos 1.000 pessoas cada. No ocidente tem existido um esforço crescente de proteção das línguas, mas com muito mais atenção à preservação antropológica e museográfica, do que efetivamente educacional. Essa perspectiva está a empobrecer.

Desde há milhares de anos atrás, quando os vários povos começaram a prosperar no comércio, que existe, constantemente, uma aspiração de usar uma língua franca. Uma língua privilegiada, que facilite o entendimento e proporcione a capacidade de fazer trocas. O português foi, aliás, a principal língua franca na Ásia e África dos séculos XV e XVI.  

Nenhuma língua conseguiu, no entanto, chegar ao patamar do inglês. Mesmo o esperanto, criado de raiz para ser a segunda língua de todos os povos, e que ainda teve algum sucesso durante o século XX, surge envergonhado e vergado ao lado da língua anglo-saxónica.

Apesar de ter nascido de uma necessidade mercantilista, hoje o inglês contagia todas as restantes dimensões da sociedade. Não falamos apenas de negócios, mas sim da ciência, do desporto, da educação, da informação, do conhecimento e, claro, da cultura.

Como um eucalipto, a língua inglesa dissemina-se por todos os territórios e vai secando expressões linguísticas tradicionais e evitando a criação de novas abordagens. O que tem um impacto devastador nas culturas autóctones. A cultura da língua inglesa, norte americana e do Reino Unido, principalmente, serve de guia para a grande maioria das culturas, pelo menos as ocidentais.

A promoção da língua inglesa pelas sociedades modernas, desvalorizando as suas próprias línguas, é uma forma de uniformização contrária à ideia de diversidade que tanto desejamos.

Óbvio que não pretendo menosprezar a importância do ensino de línguas como processo critico, como forma de estimular a criatividade, a inovação, a abertura. Mas talvez línguas muito distantes da nossa, como as cirílicas, asiáticas ou africanas, pudessem ser mais acertadas para este propósito.

A contínua valorização do inglês, a ideia de ser essencial e inquestionável, está a contribuir para uma das maiores forças de desigualdade do mundo moderno. A desigualdade, cada vez mais acentuada, entre quem tem acesso à educação e ao conhecimento e quem não tem.

A grande maioria das pessoas não entende inglês. Mesmo em Portugal, esta é a verdade. No entanto, quem define tendências, quem ocupa o espaço mediático, criativo e científico, desliga-se desta realidade. É natural que o façam. Quem os rodeia também fala inglês e os circuitos relacionados com negócios, entretenimento e educação onde estão envolvidos exigem esta língua.

Esta normalização do inglês na franja mais educada da comunidade é muito perigosa. Cria um enorme fosso, embora aparentemente invisível, para a maior parte das pessoas, afastando-as da sociedade. Quantos são os termos, as palavras, as indicações que são feitas em inglês? Mais ainda neste mundo que teve de se tornar urgentemente mais digital?

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Dir-me-ão que as vantagens da existência desta língua por todos falada são evidentes. Permitem que o mundo ande mais depressa, que o conhecimento se transmita mais rapidamente, que a vacina contra a Covid 19 seja desenvolvida em pouquíssimo tempo.

Será mesmo assim? Não. Hoje há um fator de desenvolvimento que ultrapassou a língua: a tecnologia. É graças a ela que tudo é mais célere. E o mais curioso é que a tecnologia ajuda-nos a dispensar uma língua franca. Actualmente existem muitas soluções tecnológicas que permitem valorizar, novamente, a diversidade das línguas.

Proliferam as aplicações com traduções orais imediatas, entidades como Google, Apple ou a Amazon já dispõem de serviços de tradução na hora e até existem produtos com tradução simultânea em muitas línguas, semelhantes a uma chamada telefónica feita numa língua e ouvida noutra.

Uma sociedade moderna deveria investir muito mais na educação tecnológica para assegurar a diversidade linguística do que no mandato preguiçoso de ensinar apenas uma que todas engole.

Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Tiago Sigorelho-

Tiago Sigorelho é um inventor de ideias. Formado em comunicação empresarial, esteve muito ligado à gestão de marcas, tanto na Vodafone, onde começou a trabalhar aos 22 anos, como na PT, onde chegou a Diretor de Estratégia de Marca, com responsabilidades nas marcas nacionais e internacionais e nos estudos de mercado do grupo. Despediu-se em 2013 com vontade de fazer cultura para todos.

É fundador do Gerador e presidente da direção desde a sua criação. Nos últimos anos tem dedicado uma parte importante do seu tempo ao estreitamento das ligações entre cultura e educação, bem como ao desenvolvimento de sistemas de recolha de informação sistemática sobre cultura que permitam apoiar os artistas, agentes culturais e decisores políticos e empresariais.

Fotografia de David Cachopo