Estou convicto que a utilização do telefone móvel por praticamente toda a população foi a maior revolução tecnológica dos últimos séculos. Lembro-me perfeitamente, há tão pouco tempo aconteceu, de não haver telefones móveis, de necessitarmos de chegar a casa para poder ligar a alguém, de decorar números de telefone fixo, algo que hoje dispensamos.

Recordo-me ainda melhor, já que trabalhava no mundo das telecomunicações, do privilégio que era ter um telemóvel. A taxa de penetração, como então se dizia, era lenta de ano para ano, apesar de bastante mais rápida do que noutras nações europeias. Não me esqueço da importância que tinham os mapas de cobertura, com muitas zonas do país ainda sem qualquer antena no início deste século, há menos de 20 anos atrás...

Hoje todas essas memórias foram transladadas para a pedra. Fala-se da transformação que a internet trouxe para o filme das nossas vidas, mas só quando ela passou a estar disponível todos os dias, a qualquer hora, nas nossas mãos, é que assumiu um papel de protagonista. O telemóvel foi o realizador.

Não há nenhum objeto tão omnipresente nas nossas rotinas. Todos os tempos de espera de antigamente foram revertidos em tempos de utilização do telemóvel. Se uma dúvida, antes, demorava dias a ser esclarecida, hoje dura segundos.

A nossa sociedade está tão acostumada à presença constante deste objeto que se foi moldando em relação a ele. Precisamos do telefone para saber o melhor caminho, para decidirmos se levamos chapéu-de-chuva, para nos lembrarmos daquele compromisso, para recordarmos uma imagem que não desejamos esquecer e, até, para dispensar os alarmes das mesinhas de cabeceira.

No entanto, continua a haver algo que me perturba, a mim, pessoalmente: a ditadura de uma chamada de voz. Ao longo de tantos anos, mesmo contando aqueles em que havia telefone fixo, fomos consagrando a convenção de que um toque de telefone nos mandata, imediatamente, para uma resposta inegável.

O som de um telemóvel a tocar é um dos momentos mais invasivos, tensos e ansiosos dos nossos dias contemporâneos. Imediatamente a nossa atenção é capturada por esse ruído, perscrutamos todos os nossos bolsos e malas em marcha de urgência, precisamos de rapidamente nos confrontar com os números e letras que o ecrã do telefone nos concede.

Essa angústia funciona em espelho. Do outro lado, de quem liga, há um tempo de espera até ser atendido que é feito de dúvidas, porque aguardamos ações imediatas do nosso interlocutor. E se a chamada não for atendida ficamos inquietos, meio confusos sobre o que fazer a seguir.

Sempre que ouvimos o alarme de um toque telefónico temos o reflexo pavloviano de atender. Podemos estar no meio de uma conversa entre amigos, num jantar romântico, numa reunião importante de trabalho. Mas mal escutamos o tal alarme, desperta em nós uma urgência em dar prioridade a uma chamada ainda vazia de conteúdo. Pomos a nossa conversa real on hold para darmos precedência a uma conversa feita para um objeto.

Até que ponto seria interessante inverter esta regra? Assumir-se que o mais natural é responder à chamada assim que for possível ou conveniente. Cheira-me que, mais tarde ou mais cedo, as chamadas telefónicas passariam a ser apenas urgentes, já que deixariam de ser usadas na sua grande maioria em detrimento dos contactos escritos.

Não seriamos mais felizes? 😊

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Tiago Sigorelho-

Tiago Sigorelho é um inventor de ideias. Formado em comunicação empresarial, esteve muito ligado à gestão de marcas, tanto na Vodafone, onde começou a trabalhar aos 22 anos, como na PT, onde chegou a Diretor de Estratégia de Marca, com responsabilidades nas marcas nacionais e internacionais e nos estudos de mercado do grupo. Despediu-se em 2013 para criar o Gerador.
É fundador do Gerador e presidente da direção desde a sua criação. Nos últimos anos tem dedicado uma parte importante do seu tempo ao estreitamento das ligações entre cultura e educação, bem como ao desenvolvimento de sistemas de recolha de informação sistemática sobre cultura que permitam apoiar os artistas, agentes culturais e decisores políticos e empresariais.

Fotografia de David Cachopo
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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