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A era da coabitação forçada

Nas Gargantas Soltas de hoje, o Tiago Sigorelho fala-nos sobre uma característica da era em que vivemos: “A coabitação forçada é a convivência não desejada de pessoas debaixo do mesmo tecto.”

Opinião de Tiago Sigorelho

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Cada período na história vai sendo nomeado de acordo com as características mais salientes desse tempo. Sabemos da era do gelo, lemos sobre a era do renascimento ouvimos falar da era do ouro ou ficámos receosos com a mais recente era nuclear.

Há medida que o mundo vai evoluindo, apesar dos seus altos e baixos, torna-se cada vez mais complicado ser sintético na designação de cada período histórico. Na era actual, por exemplo, existem demasiadas dimensões disruptivas e por si só merecedoras de um processo de marca. Estamos na era da internet, na era da inteligência artificial, na era da sustentabilidade, na era da educação disseminada, na era das democracias. Não faltariam eras para citar.

As eras de agora não se deixam ser uninominais, querem-se múltiplas, capazes de destacar honestamente a realidade aos olhos de quem pensa a história. No meio dessa diversidade de hipóteses, surge um tema que ainda não foi suficientemente elaborado, na minha modesta opinião: a coabitação forçada.

A coabitação forçada é a convivência não desejada de pessoas debaixo do mesmo tecto. É partilhar a casa onde se vive com alguém apenas pelas vantagens materiais, essencialmente financeiras, e não pela vontade de o fazer.

É simples pensarmos, logo em primeiro lugar, na quantidade de pessoas que conhecemos que partilham casa com outras para poderem viver em cidades como Lisboa e Porto, mas nesta definição cabem, também, as insustentáveis situações dos imigrantes ou, simplesmente, casais que se desejam separar e não o conseguem ou filhos que querem sair de casa e não têm como. Todos são forçados a, pelo menos, pernoitarem de forma compulsiva.

Este tipo de coabitação sempre existiu no passado, naturalmente, mas numa sociedade contemporânea democrática, que se preocupa com os direitos e o bem-estar da sua população, torna-se ainda mais relevante pela aparente indiferença sobre a sua existência, as suas causas e as suas consequências. Parece que todos nós, desde o poder político, passando pelo mundo empresarial, até à pessoa comum, estamos conformados com este modo de vida e assumimos a naturalidade da sua prevalência.

Obviamente, a primeira grande razão para a possibilidade da coabitação forçada é a insuficiência de condições económicas para ter uma casa de forma independente. Se não existe dinheiro para um futuro diferente, fica-se agarrado a um passado idêntico. E isso acontece, de uma forma flagrante, nos milhares de imigrantes que são sujeitos a dormirem acotovelados, mas, também, num jovem incompreendido pelos seus pais ou numa pessoa violentada pelo companheiro.

A outra razão é a falta de soluções na habitação. Sem uma verdadeira vontade de tornar a habitação num direito para todos, como constitucionalmente seria necessário, nunca iremos encontrar novas respostas para este velho problema.

As implicações da manutenção de um sistema que permita, passivamente, a coabitação forçada são imensas, mas gostava de sublinhar, essencialmente, as consequências mentais. Como conseguiremos construir uma sociedade mais respeitadora, mais justa e consciente dos problemas que deveremos enfrentar, se deixamos que as pessoas sejam sujeitas a desafios emocionais com efeitos que perdurarão para gerações seguintes?

-Sobre Tiago Sigorelho-

Esteve ligado durante 15 anos ao setor das telecomunicações, onde chegou a Diretor de Estratégia de Marca do Grupo PT, com responsabilidades das marcas nacionais e internacionais e da investigação e estudos de mercado. Em 2014 criou o Gerador e tem sido o presidente da direção desde a sua fundação. Tem continuamente criado novas iniciativas relevantes para aproximar as pessoas à cultura, arte, jornalismo e educação, como a Revista Gerador, o Trampolim Gerador, o Barómetro da Cultura, o Festival Descobre o Teu Interior, a Ignição Gerador ou o Festival Cidades Resilientes. Nos últimos 10 anos tem sido convidado regularmente para ensinar num conjunto de escolas e universidades do país e já publicou mais de 50 textos na sua coluna quinzenal no site Gerador, abordando os principais temas relacionados com o progresso da sociedade.

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