Há uns dias descobri por acaso José Agustín Goytisolo (1928-1999), um poeta que nos desperta a cada verso com a força do seu amor pela liberdade. Os poemas provocam quem os lê, chamam, exortam o leitor e celebram violentamente a consciência de ser livre, a comoção de se sentir em liberdade, na intimidade ou em coletivo.

Goytisolo foi o poeta catalão que escreveu:

“Tu destino está en los demás
tu futuro es tu propia vida
tu dignidad es la de todos”

E deixou entre muitos pensamentos humanistas um poema-reflexão, em tom de aviso, sobre a escola do seu tempo, e que é ainda a escola do meu tempo: a vida no seu feroz esplendor!

Propõe-nos o poeta o espaço publico como escola de vida, onde se aprende a ser livre, a pensar de forma livre, como os artistas e como todos os que desejam alcançar o que está além do visível, digamos, a utopia. 

Nos poemas, como na vida, Goytisolo pede que desconfiemos daqueles que “ensinam listas de nomes, fórmulas e datas e que repetem sempre modelos de cultura”. Ele acreditou que a melhor escola ensina a pensar nas coisas e a criar sem os limites e os constrangimentos da realidade. 

Vejam como nos interpela com a sua voz solta e clara: 

LA MEJOR ESCUELA[1]

Desconfía de aquellos que te enseñan
listas de nombres, fórmulas y fechas
y que siempre repiten modelos de cultura
que son la triste herencia que aborreces.

No aprendas sólo cosas, piensa en ellas
y construye a tu antojo situaciones e imágenes
que rompan la barrera que aseguran existe
entre la realidad y la utopía.

Vive en un mundo cóncavo y vacío;
juzga como sería una selva quemada;
detén el oleaje en las rompientes;
tiñe de rojo el mar;
sigue a unas paralelas hasta que te devuelvan al punto de partida;
coloca al horizonte en vertical;
haz aullar a un desierto;
familiarízate con la locura…

Después sal a la calle y observa:
es la mejor escuela de tu vida.

Sobre a minha mesa de trabalho uma outra autora espanhola pede atenção, Maria Acaso, a eminente pedagoga ativista repete a ideia de José Goytisolo, referindo que a vida não está dividida em disciplinas escolares, comparadas “a cadáveres da cultura enciclopédica” numa herança exumada sem qualquer utilidade. Acaso afirma que “os contextos educativos devem procurar a verdadeira significação dos saberes, em vez de procurar um simulacro vazio que aspira apenas a certificação”. No seu livro “Art Thinking - como el arte puder transformar la educación” cita outro autor, Francisco Mora, que defendeu uma ideia simples, mas que afinal é demasiado complexa para colocar em prática: 

“só se aprende o que se ama”, Mora disse-o demostrando que para acender o desejo de pensar é necessário despertar uma emoção, uma vontade, porque tal como no amor, também o pensamento se corresponde com a afinidade, o entusiasmo e o prazer. 

Pergunto-vos: onde ficou esse prazer por aprender? Nos pátios da escola? Nos trabalhos de grupo? Nas visitas de estudo? Nas aulas práticas?

Em que lugar da escola se vive hoje esse entusiasmo pela descoberta?

Maria Acaso ensaia uma resposta a esta questão quando propõe as artes como áreas transversais da aprendizagem com prazer e liberdade, aludindo às artes como corpos do conhecimento que habitam as margens, porque se situam justamente nas fronteiras do pensamento e não admitem certezas validadas por “certo” ou “errado”, pelo contrário, confluem com a subjetividade da vida, com a emoção, a sensibilidade, a experiência física, a narrativa, a reflexão critica, a estranheza, o desafio. 

Também creio que artes habitam nas margens das disciplinas, onde existe espaço para o erro e a experimentação. Nelas a Lei não domina, são linguagens, modos e conteúdos que nos permitem imaginar paradoxos sem julgamento.

O poeta lembra que a melhor escola é a rua. A pedagoga alerta que na escola onde falta desejo não se aprende. 

Eu, escolho sempre a Liberdade!


[1] A MELHOR ESCOLA

Desconfia daqueles que te ensinam
listas de nomes, fórmulas e datas
e que repetem sempre modelos de cultura
que são a triste herança que abominas.

Não te limites a aprender coisas, pensa nelas
e constrói à tua maneira situações e imagens
que quebrem a barreira que asseguram existir
entre a realidade e a utopia.

Vive num mundo côncavo e vazio;
considera como seria uma selva queimada;
pára as ondas nos arrecifes;
tinge o mar de vermelho;
segue os paralelos até que te devolvam ao ponto de partida;
Coloca o horizonte na vertical;
faz uivar o deserto;
familiariza-te com a loucura...

Depois sai à rua e observa:
é a melhor escola da tua vida.

– Sobre Sara Barriga Brighenti –

Museóloga, formadora e programadora nas áreas da educação e mediação cultural. É subcomissária do Plano Nacional das Artes, uma iniciativa conjunta do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação. Coordenou o Museu do Dinheiro do Banco de Portugal e geriu o programa de instalação deste museu. Colaborou na elaboração de planos de ação educativa para instituições culturais. É autora de publicações nas áreas da educação e mediação cultural.

Texto de Sara Barriga Brighenti
Fotografia de Ana Carvalho
gerador-gargantas-soltas-sara-barriga-brighenti