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A faneca cor-de-rosa

Ilustração de André Carrilho

O Dia Nacional da cor-de-rosa é comemorado em 23 de junho de cada ano nos EUA. Como se pode imaginar, é um dia para celebrar o significado, a história e a beleza do “vermelho-pálido”.  

Não é preciso ser bruxo para descobrir que – nos dias de hoje - o rosa é mais comumente associado à feminilidade e à sensibilidade. De igual forma o rosa tornou-se um assunto da cultura pop mais ou menos recente.  São exemplos do respetivo uso e abuso, cada um a seu modo, Marylin Monroe, Audrey Hepburn, Andy Warhol e Jackie Kennedy.

Para já não falar do simbolismo da Fundação “Think Pink” na sua luta a favor da saúde das mulheres em todo o mundo.

Enredado nestes pensamentos coloridos quero partilhar que estou a escrever um conto ao qual chamei “A faneca cor-de-rosa”.

É um daqueles projetos como o “Átomo”, o livro do João da Ega de que só se conhece o primeiro capítulo dedicado à sua musa do momento, Raquel Cohen. O resto está ainda para ser escrito…

Em traços largos, uma “faneca” é um pequeno peixe da família dos gadídeos (onde impera el-rei bacalhau). Popular que baste, em Portugal e na costa da Galicia era sobretudo utilizada em fritadas da gente do mar.

Outros significados da palavra mais vernáculos são “mulher interessante e apetitosa”; “amante”; “homem seco (?) e magro”.

Não consta que as fanecas sejam cor-de-rosa. Existem – isso sim – os senhores linguados mariscados com as barrigas dessa cor. Mas as fanecas são normalmente beijes ou acastanhadas, de um tom pálido, e têm um traço, uma linha, ao longo do corpo.

Tenho de dizer que é um peixe pouco atraente, e pouco dado a grandes gastronomias, com a citada exceção de poder ser frita em refeição proletária. Mesmo assim os belos carapaus “dão-lhe 10 a zero”, utilizando linguagem futebolística.

Desta forma a “faneca” da minha história terá fatalmente a ver com o outro significado mais castiço.

É um conto a saber a mar e a cheirar a maresia, onde o narrador se encontra naquela fase da vida citada pelo amigo Dante quando inicia a grande Obra:

“Nel mezzo del cammin di nostra vita; mi ritrovai per una selva oscura; ché la diritta via era smarrita.”

A crise masculina da meia-idade com vista para o mar. Porventura sentado numa esplanada à mesa, a comer percebes e a beber Palácio da Brejoeira.

Irritado com a vida que ainda não lhe permite comprar o Porsche, embora lhe forneça maravedis para ir gastando em quartos de hotel ao pé da praia (época baixa) e percebes…uma seca de meios tons que não são carne nem peixe, antes bacalhau.

Entra a “faneca” naquela depressão toda, muito solta e “dans le vent”, de chinela (de designer) no pé e ar namoradeiro. Pena ser casada…

Está armado o ato que, das duas uma, ou retira o protagonista da depressão e lhe dá pretexto para gastar tudo o que tem (e o que não tem) a alimentar a grande paixão dos seus anos cinquenta; ou vai vê-lo a penar por um amor impossível, amor de inverno insatisfeito que acabará inevitavelmente por uma ainda maior dedicação aos livros, ou ao “streaming” da Netflix, já que não estamos na Verona do mito, onde tudo acabava mal e à chapada.

Ainda não escolhi qual enredo seguirei. Até poderia construir uma narrativa dupla a partir de um certo momento, à moda do excelente filme “Sliding doors”.

Num dos cantos da história estará à espera do protagonista David Mourão-Ferreira e o seu “Um amor feliz”; no outro canto encontra-se o grande Camilo na cadeia da Relação do Porto, onde Simão Botelho foi criado para se perder no amor.

Porquê cor-de-rosa? A faneca, entenda-se.

Provavelmente porque foi essa a cor que mais impressionou o homem dos percebes (ainda não o batizei) quando viu a aparição que lhe entrou pela esplanada dentro.

Seria um modelo “à la” Marylin no clássico “Gentlemen Prefer Blondes” de 1953?

Provavelmente não. Mas ficam com uma ideia do borrão que se lhe meteu pelos neurónios dentro.

Eu escrevi neurónios.

-Sobre Manuel Luar-

Manuel Luar é o pseudónimo de alguém que nasceu em Lisboa, a 31 de agosto de 1955, tendo concluído a Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, em 1976. Foi Professor Auxiliar Convidado do ISCTE em Métodos Quantitativos de Gestão, entre 1977 e 2006. Colaborou em Mestrados, Pós-Graduações e Programas de Doutoramento no ISCTE e no IST. É diretor de Edições (livros) e de Emissões (selos) dos CTT, desde 1991, administrador executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações em representação do Instituidor CTT e foi Chairman da Associação Mundial para o Desenvolvimento da Filatelia (ONU) desde 2006 e até 2012. A gastronomia e cozinha tradicional portuguesa são um dos seus interesses. Editou centenas de selos postais sobre a Gastronomia de Portugal e ainda 11 livros bilingues escritos pelos maiores especialistas nesses assuntos. São mais de 2000 páginas e de 57 000 volumes vendidos, onde se divulgou por todo o mundo a arte da Gastronomia Portuguesa. Publica crónicas de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de André Carrilho
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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