O Festival MIMO 2018, que vai decorrer entre 20 e 22 de julho, em Amarante, com entrada livre, é a oportunidade para mostrar coisas novas que fogem ao óbvio, com música, arte, cinema, poesia, workshops e programas educativos. Completando 15 anos de festival no Brasil e 3 em Portugal, o MIMO sai dos grandes centros urbanos e reza a lenda que deixa nas pessoas a sensação de que algo na cidade ficou diferente. Para percebermos melhor o que podemos esperar deste festival, o Gerador foi até Amarante, a convite do Festival MIMO, e aproveitou para falar com Lu Araújo, a diretora do festival e grande idealizadora deste projeto.


Quando o MIMO Festival nasceu em 2004, no Brasil, a Lu decidiu começar pelas cidades mais pequenas, muitas delas com uma forte presença colonial. A que se deveu essa escolha?

Na verdade, essas cidades no Brasil são as cidades que preservam bem os valores históricos do Brasil. Você sabe que o Brasil tem 500 e poucos anos, é um país muito novo. A gente, até então, não tinha essa noção de património. Você sabe que o Brasil começa a pensar em património há menos de 100 anos. Enquanto vocês já estão anos-luz na frente nisso, a gente é muito jovem. Nessas cidades houve uma opção clara do Brasil quando se pensou em património, pelo património religioso, que é um grande marco da colonização portuguesa no Brasil. Essas cidades que eu trabalho, além de serem importantes no conteúdo histórico, também são cidades importantes turisticamente, mas culturalmente elas não têm muitos espaços e equipamentos de cultura. Ai eu pensei, porque não juntar alguma coisa que a gente possa falar da história usando esses espaços como espaços alternativos para produção da cultura contemporânea? Foi dentro desse espírito que o MIMO surgiu, apesar de eu não encontrar essa arquitetura portuguesa aqui, porque vocês são muito mais antigos e a arquitetura de vocês é outra. Mas isso era o cheiro de Portugal, era o que restou de Portugal na nossa história. É parte da história do Brasil, são cidades muito frágeis e importantes. Eu resolvi usá-las como um ponto de encontro.

Foi também por isso que ao trazer o MIMO para Portugal, em 2016, escolheu Amarante?

Eu acho que escolhi Portugal em primeiro lugar. Eu achava que não podia expandir para outro lugar que não fosse Portugal. Por mais incrível que pareça tem uma sensação de familiaridade, de sentir que estou em casa aqui. E Amarante ainda tem mais esse aspeto, porque ela tem aqui uma coisa de ser acolhedora, ser pequena, ser imponente. A gente olha esse Tâmega, esse convento, a gente vê a igreja de S. Pedro, que já é de um período muito parecido ao que a gente tem no Brasil, que é o Barroco. Acho que o grande desafio do MIMO vai ser fazer um lugar que não tenha a ver com essa história. Eu até agora me sinto confortável, sabe? Eu tenho uma identidade de culturas que eu faço. As coisas não são isoladas, não é um oceano que separa a gente.

Sendo este um festival que depois de estar em Amarante navega para o Brasil, que lugar ocupa, então, a lusofonia entre estes dois países tão próximos historicamente?

A lusofonia é tudo! Tenho dois pontos de interesse. O primeiro é que o património histórico da humanidade é focado na diversidade. Eu acho que o grande património comum a todos os povos, o único ponto em comum de todos os povos, é a diversidade. Isso é o grande património que a gente pode dar a todo o mundo. Então esse é um ponto focal no MIMO. O outro ponto focal é nesse princípio de que a gente pode construir coisas se relacionando com esses países que são tão diversos, mas falam a mesma língua. Não é incrível? É incrível chegar a Moçambique e ter aquela experiência da língua, é incrível chegar a Portugal, com pequenas diferenças aqui e ali, mas poder falar o meu o meu idioma. Ai você pensa que nós somos os ETs do mundo, não é? (risos) Somos os ETs do mundo, porque todo o mundo fala o espanhol ou o inglês. Com exceção de alguns dialetos e línguas, mas talvez como o volume de países colonizados que Portugal tem, é maluquice! Vocês estão muito poderosos, conquistaram muita coisa. Sendo um país pequeno, vocês tiveram em vários lugares e se misturaram. Uma vez ouvi uma pessoa me falar e ela tinha razão! Que a questão de Portugal não é que ele só colonizou. Os ingleses colonizaram vários países na África, mas não se misturaram. Os portugueses se misturaram, então eles estão no meu sangue. Isso me interessa muito, a lusofonia, pensar projetos em comum e a oportunidade de espaço para isso. Se pudesse, hoje eu faria um projeto focado na lusofonia, mas não da forma que todo o mundo fala, sabe? Querendo resgatar uma coisa que não vai ser resgatada. Eu queria falar da lusofonia no presente, com as proximidades e com as distâncias.

Este festival também prima pela inclusão de artistas de vários pontos do mundo. Que lugar ou destaque é dado à cultura portuguesa durante estes 3 dias?

Acho que a cultura portuguesa é a base de tudo. Primeiro, estamos em Portugal. Segundo, estamos dentro do património português. Se você formalizar pelo ponto de vista de quantos artistas portugueses eu tenho, isso pode ser pequeno. Mas se você pensar, a base de tudo é a cultura portuguesa. O MIMO não é só atração artística. O MIMO é todo esse conjunto. O MIMO acontece no território português, ele conta a história desses prédios e monumentos portugueses, ele está reverenciando artistas portugueses que estão fazendo 100 anos, como Amadeo de Souza-Cardoso e ao mesmo tempo tem a produção contemporânea. Tem de ponta  na produção contemporânea de Bruno Pernadas, Marta Pereira da Costa, Dead Combo e artistas consagrados como Rui Veloso. Nunca tive a intenção de ser uma invasora. Faço um festival que o Brasil às vezes também pergunta, puxa, mas qual é o papel do Brasil nisso? Não é isso. Não importa. Não quero fazer um festival no Brasil para o Brasil, nem fazer um festival em Portugal para Portugal. Eu quero é miscigenar, eu quero é fazer. Acho que a importância do Brasil é a importância do solo e do território, mas o que vem de produção artística tem que abrir janelas, tem que ser para além disso, entendeu?

Este ano para além dos concertos, poesia, workshops e cinema decidiu que era altura de incluir a arte. Porque nesta 3ª edição do Festival MIMO em Portugal?

Eu não decidi sozinha. Fui incentivada e tenho muito orgulho nisso, porque fui incentivada por um patrocinador, sabe? Eu fico achando que realmente o MIMO me dá ganhos enormes, porque eu nunca vi isso acontecer. Eu nunca vi um patrocinador dizer para você, olha você fala de música, cinema, literatura, educação, mas não está falando de arte. E me dá uma exposição de 59 artistas, da maior importância para Portugal de ser realizada descentralizadamente, saindo do Rio de Janeiro, do Porto, de Lisboa, para fazer em Amarante. A arte é tudo. Eu vou-te dizer uma coisa que nunca disse para ninguém. Se eu não trabalhasse com música em não trabalharia com teatro, eu acho, eu não trabalharia com cinema, mas eu trabalharia com arte. Eu amo arte! Adoro pintura, arte contemporânea, a performance. Eu teria muito prazer em ser uma artista plástica. Acho que muita noção estética que eu tenho vem da fotografia. Porque eu comecei a fazer fotografia ainda muito jovem, como um projeto de ser uma atividade profissional. Acabou não sendo a minha atividade profissional, mas a fotografia me deu essa noção estética de equilíbrio. As artes, eu acho que trazem isso. Então, eu tenho muita honra de estar falando o passado, totalmente no presente. Porque Amadeo tem 100 anos, mas ele não tem mais do que 10! Se ele estivesse vivo ele seria reverenciado hoje, porque o que ele fazia era muito revolucionário. Eu tenho muita pena de pessoas que são à frente do seu tempo, sabe? Este ano tenho três exemplos disso no MIMO. Tenho Amadeo de Souza-Cardoso, Bette Davis, que é um filme que vou passar sobre a Bette, uma mulher que foi revolucionária. Segundos antes de morrer ela teria sido uma Madonna do tempo dela, mas como os Estados Unidos eram muito conservadores… Amadeo já foi um impacto para o mundo, imagina ela, uma mulher como Madonna na década de 60. Ela foi uma pessoa que acabou por não conseguir impactar uma carreira artística, porque ela foi muito moderna para o tempo dela. Tem uma outra mulher, representada também, que é a Hilda Richter, que está nas suas poesias. É uma brasileira dramaturga, uma mulher que falava de amor, de sexo, de tudo dentro de um panorama que ninguém falava. Sem ser depreciativo, sabe? Nada. Com amor! É uma mulher que morreu meio à mercê sem ser descoberta. Eu acho que o mundo está abrindo. Se a gente percebe que o mundo abre para umas coisas e fecha para outras, a vantagem é que o papel da mulher começa a ser maior. Principalmente no caso da Bette e da Hilda. E Amadeo, né? Amadeo é muito moderno, cara! Dizem que Picasso se inspirou nele! Não tenho dúvida, porque ele é exótico e era bom naquilo que fazia!

Qual é, então, a sua relação com o artista Amadeo de Souza-Cardoso e o que é que esta exposição vai trazer de novo ao festival?

Eu não conhecia Amadeo. Acho que como eu, que sou uma pessoa da cultura, das artes, viajo pelo mundo sob o ponto de vista da arte, e não conhecia Amadeo há mais pessoas assim! Tem muitas pessoas comuns que não o conhecem. O que eu espero é que elas percebam que foi aquilo, que se encantem, se emocionem. Acho que muito mais do que fazer uma exposição para iniciados, a gente está fazendo uma exposição para captar quem não conhece. A sensação que eu tenho com Amadeo é que todo o mundo conhece Amadeo, mas ninguém sabe o que ele fez.

Que momentos da programação deste ano gostaria de destacar?

Ui! Eu sou super suspeita porque faço tudo com muita intensidade, sabe? Tenho uma coisa que eu faço que não sei se é boa ou ruim, mas te posso garantir que eu faço isso. Eu faço uma programação pensando se eu ia gostar ou não. Me coloco como público. Eu ia adorar ir a um festival que tinha Marta Pereira da Costa, Matthew Whitaker, Baiana System, Shai Maestro, e muitos outros. Porque eu sou uma pessoa eclética. Eu não sei porque é que a gente tem de ter quadrado. A gente não tem de ter quadrado! A gente tem de ter janelas para olhar o mundo, mas não cercas que nos permitam olhar só para um campo. Então eu faço um festival aberto. Era isso que eu gostaria, que você como menina jovem pudesse conhecer vários sons. Porque a gente não tem limites. A gente tem muito poder de abrigar e abarcar conhecimento. Às vezes para facilitar os processos de comunicação a gente limita as coisas. Não há limites para a arte, para a história, não há limites para nada! Só o que a gente se impõe.

Qual é o momento mais fora de todo o espetáculo?

Certamente é a hora de programação artística. Não tenho medo de mais nada na vida. Depois de 15 anos a fazer um festival como este, de passar por todas as coisas, as dificuldades, de fazer um festival sem bilheteria, com equipamentos, nunca quis um festival por baixo. Acho que as pessoas não precisam de um Fusca, acho que as pessoas precisam de um Mercedes, sabe? Para já é isso, é dar o melhor que tem. Então é claro que quando eu faço isso eu me exijo ser uma profissional capaz de convencer milhões de pessoas que elas não precisam de se habilitar financeiramente disso. Então isso me dá uma certa necessidade, uma vontade de continuar. Mas eu não tenho medo de nada, agora tenho um frio na barriga quando eu vou fechar a programação artística. Porque essa sim é a receita do bolo. Quando você mistura uma coisa com outra e com outra, se der errado… E ao mesmo tempo não perder a minha identidade e não deixar de ser quem eu sou. Eu sou deste jeito meio bagunçado que mistura música Brasileira, com música da Mauritânia, com música de Portugal, com música de Moçambique. Esse é o momento que me deixa com frio na barriga e é capaz de me deixar uma noite ou duas sem dormir. Depois passa!

Para terminar, pedia-lhe que completasse a seguinte frase: A cultura em Amarante é…

Entrevista por Andreia Monteiro