O que é exactamente?

Concertos de orquestra? De que forma se relaciona a geração smartphone com esta arte?

Um dos locais mais conhecidos, em Portugal, por receber concertos de orquestra é a Orquestra Metropolitana de Lisboa. Ao confrontar a ideia de foco com a de distracção, o aprender a tocar um instrumento musical e aquilo que nos afasta da realidade, a Escola de Música e os Social Media, o que significa para estes jovens, que vivem açambarcados, consumidos, distantes, alienados, interconectados, fazerem parte de um colectivo, como uma orquestra? Tratar-se-á de gosto? De incentivo familiar?

Primeiro, o que é a Orquestra Metropolitana de Lisboa? Foi a questão que iniciou a conversa com Miguel Manta e Ana Bravo, coordenador e adjunta de Relações Públicas, que, para além de ajudarem a traçar um perfil deste grande núcleo, fizeram questão de se adentrar num mundo que não é o conhecido de muitos de nós. A aventura começou pela ida a um concerto dos alunos da Orquestra Académica Metropolitana, dirigida por Jean Marc Buffin, no passado dia 9 de Novembro, com lugar no auditório da reitoria da Universidade NOVA de Lisboa, no campus de Campolide.

O espaço assemelhava-se a um auditório grego, com o palco raso, sem plataforma a meio da sala, onde se abriu apenas metade da plateia de lugares sentados, para dar entrada ao público. Entre uma pequena volta aos bastidores, afinações, ensaios de última hora e a troca de roupa para vestes completamente regadas a preto, o bilhete indicava um lugar na 2.ª fila. Pouco tempo depois, o grande público começou a chegar, entre casacos de Inverno, guarda-chuvas, sacos e folhas de sala. A família e amigos dos protagonistas do concerto sentaram-se, as luzes continuaram amareladas e, após uma salva de palmas e a entrada do maestro, o concerto de Orquestra começou.

Jovens, serenos, focados, sérios, atentos, de expressão leve nos rostos iniciaram o que viria a ser uma hora e meia de espectáculo. O rol de instrumentos era avassalador, desde violinos a violoncelos, clarinetes a trompetes e trombones, instrumentos de percussão a tubas, passando pela harpa, fagotes, contrabaixos, oboés, trompas, tímpanos, flautas e violas.

Foi a apresentação da peça – “Beethoven e a Apoteose da Dança” – com obras de Emmanuel Chabrier (1841-1894), Béla Bartok (1881-1945) e Ludwig van Beethoven (1770-1827).A primeira parte de vinte e dois minutos, “Suite Pastoral” de 1888, é resultado da orquestração de quatro peças da autoria de Chabrier. Posicionado na mesma esfera temporal de pintores impressionistas, os quais “rompiam convenções em exposições particulares, a sua música distinguia-se da maior parte daquela que se praticava na capital francesa, dominada pelas canções e peças para piano que se ouviram em requintados salões, para lá da incontornável ópera cómica”, conforme se lê na folha de sala.

Alunos do curso de Direcção de Orquestra da ANSO

Logo depois, assistiu-se a quinze minutos de “Imagens Húngaras”, resultantes do Verão, em 1931, de Béla Bartok, passado numa localidade austríaca. “Imerso na tranquilidade daquelas paisagens, dedicou as horas vagas à orquestração de várias peças suas para piano, que coincidiam na apropriação de ritmos e melodias da música tradicional do seu país”, onde se assiste a um misto de emoções desde a nostalgia à imprevisibilidade, culminando no som etéreo da harpa.

Direcção Musical de Jean-Marc Buffin

Na parte final, o concerto dedicou trinta e cinco minutos à apresentação da “Sétima Sinfonia” de Beethoven, que teve a sua estreia em 1813, no dia 8 de Dezembro na Universidade de Viena. “A Sétima Sinfonia de Beethoven foi estreada num concerto de beneficência em favor dos militares austríacos que defrontaram as tropas de Napoleão Bonaparte na Batalha de Hanau”, segundo se pode ler na folha de sala que acompanha o concerto. No seu âmago, revela-se “uma obra cheia de energia em que alternam as mais reconhecíveis tipologias das danças populares com arquétipos militares evidentes”, segundo Rui Campos Leitão, autor dos textos que preenchiam a folha de sala.

 Porque é que decidiram falar sobre este tema?

A Orquestra Metropolitana de Lisboa é um agregador de orquestra, academia, ensino profissional, o qual promove a formação e o gosto pela música clássica. Para além do seu ofício, destaca-se a importância de aprender a tocar um instrumento musical no processo de crescimento de uma criança. Importância que se revela tanto a nível do desenvolvimento cognitivo e estímulo da sensibilidade, como também como motor que explora as nossas emoções.

Existente há 26 anos, a caminhar para os 27, partiu de um projecto idealizado pelo maestro Miguel Graça Moura, e logo “adquiriu uma componente que é rara, única na Europa, que é juntar o ensino artístico, o ensino musical à formação de um músico para integrar uma orquestra como instrumentista”, diz-nos Miguel.

A Metropolitana é composta, para além da Orquestra Profissional que gere, por três escolas de música – o Conservatório de Música da Metropolitana, a Escola Profissional Metropolitana e a Academia Nacional Superior de Orquestra, sendo que cada uma destas está orientada para o ensino de diversos escalões etários.

“O Conservatório começa com crianças desde os 5 até aos 14 anos, a Escola Profissional equivale ao secundário, 7.º ao 12.º anos, e depois a Academia é o equivalente ao grau de licenciatura, seja em Instrumentista de Orquestra ou Direcção de Orquestra, por exemplo”. Em poucas palavras, a Metropolitana é a entidade que gere uma orquestra profissional e três escolas de música, tudo no mesmo edifício.

A simbiose que parece existir entre a orquestra profissional e a possibilidade que é dada aos alunos, que se estão a formar na Metropolitana, “terem essa mesma formação em contexto de trabalho”, e a oportunidade que é dada de “tocarem constantemente ao lado dos professores”, são características que contribuem para que a Metropolitana seja, segundo Miguel, “um projecto vencedor.” Quando falamos de números, nota-se que, segundo uma perspectiva histórica, “quando a Metropolitana foi criada há quase 27 anos, o número de músicos portugueses era muito reduzido, mas a tendência reverteu-se, pois, hoje em dia, metade dos músicos de orquestra profissionais são portugueses e um terço deles é formado na Metropolitana.” As estatísticas não nos deixaram de surpreender, e Miguel continua: “a taxa de colocação da Academia Nacional Superior de Orquestra é de 98 %. Ou seja, 98 % destes alunos estão a tocar nas melhores orquestras da Europa e estão a fazer aquilo para o qual se formaram”. Um investimento no futuro destes jovens, que ronda já os 300 a 400 alunos, no seu todo.

Violino ao som de obras de Chabrier, Bartók e Beethoven

E quando se fala em público-alvo deste tipo de abordagem artística? Segundo Ana Bravo, “a Metropolitana é transversal, sendo que a programação se divide em três temporadas – uma temporada sinfónica (CCB – Centro Cultural de Belém), temporada barroca (MNAA – Museu Nacional de Arte Antiga), temporada clássica (Teatro Thalia, Lisboa). Temos notado que, nas três salas, não temos só um tipo de público mais velho, como já começamos a perceber que há alunos das escolas de música que querem frequentar os nossos concertos e que querem ver como é que se apresenta uma grande orquestra ao público.” Com uma faixa etária de público que aponta para jovens na casa dos 30 e um público mais maduro, na casa dos 60, a ideia de transversalidade que Ana pretende sublinhar é reforçada.

A oferta estende-se a “todas as idades, para todas as carteiras e para todos os gostos”, existindo também a possibilidade para os adultos de ingressar em cursos livres. “A ideia de que nunca é tarde para aprender, aqui faz todo o sentido. Em vez de estar nas redes sociais, porque não aprender a tocar um instrumento musical? Se sempre quis aprender saxofone, aqui é o sítio certo, aqui é possível”, diz-nos Ana.

Com uma temporada que aponta para sessenta a setenta concertos da Orquestra Metropolitana de Lisboa, espalhados por salas como a Culturgest, CCB, Teatro Thalia, Tivoli, MEO Arena, enfim, na Área Metropolitana de Lisboa, isto não impede este órgão difusor de música clássica de se espalhar pelo país inteiro.

Desde uma parceria com o Coliseu do Porto a entidades como os seus promotores (Câmara Municipal de Setúbal, entre outras) até ao Algarve, onde se conta com um projecto – Música e Ciência – que leva a Metropolitana aos institutos politécnicos e às universidades, passando também por território alentejano em Beja, Portalegre, com datas futuras em Tomar e Guimarães.

“Tem de haver a certeza de um caminho, para seguir esta área”, realça Ana Bravo.

É nesse espírito de colaboração que se organizam, que se promovem e que se vivem estes concertos de música clássica em salas dispersas por Lisboa, e um pouco pelo país, mas, ao mesmo tempo, parece que algo está em falta. “Pontualmente, nós não temos um auditório. Existe esse projecto há muitos anos de criar um auditório próprio. O facto de ainda não se ter concretizado obriga-nos a tocar por toda a cidade de Lisboa, arredores, e hoje em dia por todo o país”, confirma Ana.

Com isso em mente e mais umas metas a cumprir no futuro, Miguel aponta para “o aumento do número de promotores, o chegar a cada vez mais pontos de Portugal, a aposta na internacionalização da Orquestra”, contando já com uma parceria com o canal de televisão e rádio espanhola, RTVE.

Entre músicos portugueses associados, destacam-se nomes como os pianistas Mário Laginha e António Rosado e o compositor António Pinto Vargas, entre outros. “Mas também aqui somos transversais, temos um projecto – Atelier de Ópera – que dá voz a jovens cantores em início de carreira, dando a oportunidade a estas pessoas de ensaiar com a Orquestra.”

Há sempre uma história lateral que merece ser contada. Qual é essa história?

Nesta realidade musical (e profissional) conta-se com uma série de jovens adolescentes que acompanharam o florescer das novas tecnologias de comunicação e informação. O que sentem em relação ao que é exigido nestes concertos de música clássica? Porque é que fazem parte dos mesmos? Onde reside o gosto? Não é uma sensação comum, o facto de sentirmos, por vezes, que o mundo nos consome a ponto de perdermos o foco?

“O tablet é também um instrumento de trabalho onde, com autorização do professor, é possível aceder às partituras musicais, para além das aplicações (apps) que existem para afinar os instrumentos”. Estas são ferramentas que, embora sejam fruto dessa tecnologia, funcionam como uma bengala, um suporte, um facilitador no ensino.

Entre folhas de sala e smartphones

“Na minha geração, a tecnologia foi sendo introduzida. Tivemos de aprender a lidar com isso. Quando nasceram, a tecnologia já existia, eles são fruto dessa tecnologia, não sabem viver sem ela. O importante é fazer com que a tecnologia os sirva, não só os distraia. Aqui na Metropolitana, o que nós temos visto dos nossos alunos é que, enquanto instrumento de trabalho, estes fazem uso dos gadgets, se o professor assim o deixar. Nas salas de convívio, estão muito agarrados ao telefone (como qualquer millennial).

Já nas salas de concerto enquanto público, não notamos que tenha havido um decréscimo de público pelo facto de as pessoas estarem tão centradas nas suas redes sociais, estas não deixam de fazer coisas por causa do Facebook. Saem da bolha”, diz-nos Ana.

Numa esfera aceleradamente digitalizada, onde nos distraímos com grande facilidade, torna-se difícil ver o horizonte, e tanto a formação em música clássica como o consumo deste tipo de concertos contribuem e ajudam estas crianças e jovens alunos da Metropolitana a serem objectivos nas vidas que levam, pelo rigor e método exigidos. No dia-a-dia, actua como um estímulo face à criatividade e componente cognitiva do cérebro. Estas melhorias estendem-se ao campo da memória (a curto e longo prazo), e à própria qualidade de vida das pessoas que têm como prática a aprendizagem de um instrumento musical, em qualquer faixa etária. “Há sempre a ideia de que aprender um instrumento musical é terapêutico, exercita uma série de factores físicos, mentais, de concentração ao desempenhar uma tarefa”.

Partituras musicais

Falámos com alguns destes alunos para tentar perceber um pouco mais acerca desta dinâmica do millenial, que vive imerso nas redes sociais, mas que ao mesmo tempo parece investir tempo e dedicação à música.

Mariana Santos, de 19 anos, começou a estudar Música na escola secundária, onde havia um projecto de música para além das aulas normais, do qual a Mariana sempre gostou de fazer parte. “Depois, no 10.º ano, fui para a Metropolitana, para a Escola Profissional e depois decidi seguir a licenciatura em Música de Orquestra na Metropolitana.” Escolheu o violino como instrumento e realça que “a orquestra é um espaço em que não somos só nós que contamos, é um colectivo, é um grupo”, acrescentado, “a sensação de tocar com outras pessoas que sintam a mesma paixão é algo muito bom.” É de conhecimento geral que a prática da música é algo benéfico na vida quotidiana, a qual “exige muita concentração”, diz-nos. E em termos de público? O interesse em assistir a concertos de orquestra reside apenas em pessoas como a Mariana, ou alastra-se a outras camadas de público? “A maioria ou são nossos amigos, ou estudam música. Acho que é um meio muito pequenino, fechado. Fazemos alguns concertos para escolas, e nota-se mesmo que, no geral, não há grande interesse”, conclui Mariana.

Concerto no auditório da reitoria da Universidade NOVA de Lisboa

Já com o André Castro, 24 anos, o interesse em música clássica surgiu de outra forma: “O meu primeiro contacto com a música foi através do meu pai, pois ele é músico militar da banda da GNR. Ingressei no Conservatório, fiz lá o meu curso até ao 8.º grau e depois ingressei na Academia para dar continuidade aos meus estudos. Sempre gostei mais de tocar e de assistir a concertos de orquestra, mais do que outras vertentes como música contemporânea e jazz. Comecei a assistir a concertos de orquestra aos 16 anos.” Escolheu a percussão como instrumento, e, tal como Mariana, concorda que “o grau de exigência é muito elevado, ou seja, é preciso estar-se muito concentrado, é um trabalho que exige muito estudo, muito foco, muita concentração”. Um trabalho que parece mais uma vez alastrar-se para a vida pessoal destes alunos, “e não só na música, como na minha vida pessoal sinto isso também, que tenho de ser alguém responsável”, diz-nos.

Mais uma vez a ideia de colectivo parece reaparecer, realçando que “a orquestra faz-nos ter de lidar uns com os outros, obriga-nos a juntar. No fundo, a orquestra une-nos através da música.”

 André, assim como Mariana, diz-nos também que, fora do seu mundo, pensa não haver grande interesse na sua geração em vir assistir a concertos de orquestra. “Os meus amigos, isto é, as pessoas que eu conheço fora deste circuito fechado, acho que não têm qualquer interesse em vir assistir, mas nós, estudantes de música, quer dos conservatórios, quer das escolas superiores, da minha idade, mais novos e até mais velhos, entre os 15 e 30, vejo que quando vão assistir à Orquestra Gulbenkian, o local está cheio de malta jovem. Mas diria que 90 % da malta são tudo estudantes de música. São muito poucos os que são externos, vejo alguns, mas muito poucos, uma minoria. Malta que gosta, ou que tem algum amigo a estudar música, por curiosidade vai também assistir”, acrescenta. Já no que toca a gostos musicais na sua rotina, o André aponta para direcções completamente divergentes, “ouço muito hip-hop e rap, por exemplo”, diz-nos.

Conversa com o aluno, André Castro

À medida que falamos com alguns destes alunos, apercebemo-nos de que há um consenso cada vez mais nítido de que não há grande adesão desta “geração smartphone” em consumir e assistir a concertos de orquestra.

Matilde Pinho, 19 anos, que está também a frequentar o curso de licenciatura em Música de Orquestra na Metropolitana, escolheu o violino como instrumento privilegiado, e diz-nos que, “sem serem colegas meus de música, é muito pouco provável alguém comprar um bilhete de música clássica para ir ver um concerto, acho que não há muita adesão.”

Na sua rotina diária, a Matilde “ouve coisas comerciais que passam na rádio”, como o registo pop.

A Matilde estava acompanhada da família, pelo que tivemos também oportunidade de falar com o seu avô, Américo Santos, 77 anos, reformado, e que veio assistir ao concerto de orquestra por duas razões segundo o próprio nos diz: “Primeiro, porque tenho uma neta cá a tocar violino, e segundo, porque fui músico. Sinto-me bem no meio da música, é o que me dá prazer.”, sublinha. Segundo o avô, “a Matilde começou a tocar com 4 anos”, e, apesar de ser a favor da ideia de que esta nova geração parece viver constantemente com o telemóvel na mão, diz-nos que, “com a minha neta isso não acontece, pois ela dedica-se inteiramente à música. Também vai à Internet, também usa o telemóvel, mas ao mesmo tempo não troca a música por nada.”

De uma geração diferente, quando os avanços da tecnologia ainda eram uma realidade distante, e ao mesmo tempo a par e par com a actualidade do investimento na cultura, e o facto de este sector fazer parte da própria cultura, o Sr. Américo realça que “é necessário haver um maior esforço por parte do Governo para que estes façam orquestras, de maneira a empregar estes alunos”, continuando, “esta juventude está a trabalhar e parece não haver oportunidades cá dentro. Para que é que se abrem escolas?”

Dirigido aos indecisos em serem músicos profissionais ou não, ou a quem esteja puramente à procura de uma actividade extra relacionada com música, sejam jovens ou adultos, este pode ser o princípio para se perceber do que se trata, o que se faz, como se organiza. Apesar de a tecnologia ter tomado conta de uma parte substancial do nosso tempo e das nossas vidas, isso não significa que tenhamos sido absolutamente engolidos pelas redes sociais. Em poucas palavras, num registo mais intimista, e trabalhando com a geração smartphone como pano de fundo, que vive numa vigília constante ao social media, tentar mudar o shift, incentivando os mais novos, os curiosos, os entusiastas da música, a vir experimentar o seu primeiro contacto com um instrumento de música clássica.

Violoncelos

Num esforço de combater a ideia de elitismo que parece andar de mãos dadas com este tema, fala-se também de valores. “A nível de preços, no caso da Metropolitana, consideramos que é bastante acessível. É possível assistir a concertos da Metropolitana com uma grande gama de preços, desde os 0 € (inseridos na temporada da Música de Câmara) que às vezes há de quinta-feira a domingo, em que há 10 concertos pela cidade de Lisboa, todos de entrada livre. Depois temos bilhetes a começarem em 8 €, e o bilhete mais caro para um concerto da Metropolitana será de 30 €, e este é para ver um concerto sinfónico, com cerca de 100 músicos ou mais em cima do palco, obras de grandes compositores, com coro, solistas. O facto de os bilhetes serem baratos não significa que o produto tem menos qualidade.” Preços estes que se equiparam a outro tipo de concertos de música e, comparativamente ao contexto europeu, não são valores insustentáveis quando falamos em ir assistir a um concerto de música clássica.

Trazendo para a mesa a questão do elitismo, Ana Bravo faz questão de desmistificar esse conceito. “O nosso trabalho é também desconstruir essa ideia que ainda existe, a ideia de que é pouco acessível monetariamente, que de facto não é, pois até temos música de entrada livre. A música clássica ou a música antiga não é só para determinadas pessoas. É para todos. Temos essa missão de criar novos públicos, tornar a música acessível, educar para a cidadania, porque a música não devia ser uma coisa que vemos ao longe. É importante como todas as artes.”

Um gosto adquirido que nasce com o tempo, que se vai construindo à medida que se começa a consumir cada vez mais esta arte, como de qualquer outra. Um estranhar que vira entranhar. Como o teatro, como ir a exposições de arte contemporânea, como a dança. Ou um gosto que se ganha por impulso, convivência familiar? “Acho que há um equilíbrio. Por um lado, há miúdos que desde tenra idade têm uma apetência pela música, sendo eles próprios que pedem aos pais para experimentar. Muitos deles vêm de um contexto musical da família, já têm esse contacto facilitado com a música, e querem também seguir esse caminho. Outros não, vêm experimentar, gostam e continuam”, diz-nos Ana. Miguel Manta completa o raciocínio ao dizer que “a Metropolitana não tem falta de alunos nas suas escolas, tem é falta de espaço. No fundo, fazemos muito com pouco.”

O que é que vale mesmo a pena?

Primeiro, ter a noção de que, tal como as outras artes, expressões artísticas (pintura, escultura, fotografia, cinema, performance, teatro), a demonstração da música clássica também tem direito ao seu lugar, no sentido de conservação e preservação, assim como uma obra de arte salvaguardada num museu, numa instituição. Aqui essa salvaguarda da memória de partituras de ilustres músicos faz-se revivendo outros tempos, pela via da música. O que mantém as obras vivas num museu é a sua constante revisitação, o facto de se comprar um bilhete para ir ver arte. No caso da música clássica, mantém-se as obras vivas pelo acto da reprodução. Para ser lembrada e celebrada, precisa de ser tocada.

Depois, a ideia de colectivo, que parece ser algo imperativo quando se fala em fazer parte de uma orquestra. Para que tudo funcione no decorrer do concerto, todos têm de estar em sintonia, de olhos postos no maestro.

Se uma falha pode perturbar toda a dinâmica de grupo, o resultado pode não ser tão majestoso. A ideia de músicos, a ideia de banda enquanto colectivo é uma noção algo generalizada, quando falamos em estilos mais modernos e contemporâneos como o rock, por exemplo. Neste contexto particular, parece ser ainda mais urgente todos trabalharem em uníssono.

Terceiro, ler a música clássica como uma realidade não distante, até porque esta já foi igualmente trazida para a cultura pop. Mais especificamente no cinema, em filmes de culto como o “Laranja Mecânica” de Stanley Kubrick e outros títulos do mesmo realizador; “Fantasia” de uma produção Walt Disney; “Amadeus” de Milos Forman; “O Pianista” de Roman Polanski e em “Black Swan” de Daren Aronofsky, entre outros tantos exemplos.

Assim como ao assistir a um concerto de cariz clássico, em que sentimos o dito clímax do momento, também essa sensação é transportada para momentos-chave de produções cinematográficas.

Aqui nota-se essa proximidade, esse aliar de mundos diferentes, essa apropriação de uma arte por outra arte, uma fusão que resulta em algo fluído. Áreas distintas, mas tão próximas.

Nesse esforço de não se revelar tão distante da comunidade, e partindo de acções de sensibilização em escolas, a Metropolitana realça o factor da inclusão social, “inclusão, ponto. Somos uma instituição bastante inclusiva. Aceitamos pessoas de todos os estatutos sociais, de todos os credos, de todo o mundo, de todas as religiões, temos cada vez mais paridade dentro das nossas escolas e dentro da nossa orquestra”, diz-nos Ana Bravo.

Por último, há que atentar na própria curadoria dos vários concertos aquando da elaboração de uma programação em papel para a temporada, com uma ligação estreita às artes plásticas, nomeadamente, pintura, em que vemos trabalhos do artista Pedro Proença a acompanhar as páginas da agenda. “Esta direcção, desde que entrou, fê-lo com o pensamento de que as artes estão todas associadas. Nesse sentido, decidiu que para todas as temporadas deveríamos ter artistas associados, também ao nível da imagem.

Nesta temporada, temos o Pedro Proença, artista plástico. Já tivemos o Vhils, o Pedro Calapez, o André Carrilho, o Joel Santos, e isso dá-nos mais uma vez essa transversalidade, permitindo-nos ir viajando.”

Ilustração de Pedro Proença

Criar empregabilidade, ser transversal, desmistificar conceitos como o elitismo, aliar as diferentes artes, apostar numa formação de qualidade em música clássica, e atingir novos patamares, aproximar-se de outros públicos numa tentativa de inclusão social, desenham-se como alguns dos traços que mais se destacam deste grande órgão que é a Orquestra Metropolitana de Lisboa, que conta com um número substantivo destes jovens da geração smartphone. Após a conversa com alguns destes estudantes, é possível perceber que, embora a dita pressão social seja uma realidade, no sentido em que temos a tendência de estar numa vigília constante às redes sociais, isso não é impedimento para a aprendizagem, neste caso, de um instrumento de música clássica. Fazer parte de uma orquestra de música clássica é algo paralelo, mesmo que sejamos distraídos pela velocidade do mundo, pelos memes, pelos vídeos virais, pelas aparentes vidas perfeitas e momentos kodak no Instagram. Isso não significa que não haja uma prática diária de algo que exige e requer a nossa atenção. Não é um mundo cada vez mais imerso na tecnologia que vai afastar estes aprendizes, estes jovens adultos, estes entusiastas da música de concretizar os seus objectivos profissionais.

Entre trompa, clarinete e fagote

Mais bolsas de estudo e mais esforço para a introdução destas aprendizagens em actividades extracurriculares pelas escolas públicas de norte a sul do país, com incidência no interior, surgem como uma das preocupações a apontar. Este tipo de ensino não tem que ser algo privilegiado, mas ser acessível a todos, como a Metropolitana defende que é.

A Metropolitana é financiada principalmente pela Câmara Municipal de Lisboa juntamente com outros ministérios, como o da Educação, do Trabalho e da Solidariedade Social. Depois, há a figura dos promotores, que são as câmaras municipais, que já chegaram a ser cerca de 18, entre elas as das Caldas da Rainha, Lourinhã, Montijo, Setúbal, número que foi reduzindo e que leva a Metropolitana a apostar nesse trabalho de recuperar esta figura do promotor.

A Metropolitana oferece uma programação que abrange todos estes sítios e leva as orquestras a tocar nestes municípios.

No que toca à adesão por parte destas diferentes comunidades, a Ana e o Miguel afirmam que “têm tido sucesso, na medida em que cada vez mais parece haver um interesse em impulsionar a cultura, a música. Fazemos actividades, também em escolas, sensibilizamos alunos a virem aprender.”

Se eu quiser saber mais sobre este tema onde posso ir?

Podes aceder a esta área de contactos e deixar a tua mensagem, aqui: Orquestra Metropolitana Lisboa, ou, podes optar por enviar um e-mail para: metropolitana@metropolitana.pt. Em alternativa, tens sempre o contacto telefónico (+351) 213 617 320, onde podes esclarecer as tuas dúvidas, ou dirige-te em pessoa à Metropolitana, ficando a descobrir o seu mundo!

Texto de Joana Sequeira
Fotografias de Rui Oliveira
O Gerador é parceiro da Orquestra Metropolitana de Lisboa

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