Deixar uma garganta à solta não é normalmente coisa ruim.

Sem a liberdade inerente à soltura do gasganete não se cantaria nem se tocariam os instrumentos de sopro, e todos sabemos como a música é cada vez mais necessária neste mundo doido.

A propósito deste tema, tenho uma história para contar, passada na Beira Alta, e em tempos de muitas privações.

Contavam os mais velhos uma anedota que traduzia bem a penúria daquelas épocas:

– “Um pobre devia andar sempre com duas coisas no bolso da jaqueta surrada: um copo de madeira ou de alumínio (para não partir) e …um ossito de borrego. O copo era para beber à espicha nalguma adega que ele encontrasse com a porta encostada. E o osso era para cheirar antes de beber.  Com o cheiro do osso do borrego o vinho sabia melhor”.

Um pastor de ovelhas muito conhecido na região tinha como predicado a ausência quase completa de dentes.

Numa altura em que “dentista” era uma palavra quase desconhecida dos pobres, a consequência para o nosso pastor foi a de continuar a sua vida desdentado, alimentando-se como podia, sobretudo à base de caldos engrossados com as couves, nabos e batatas, onde às vezes se desfiava um pouco de toucinho. 

Sem esquecer o subproduto do fabrico artesanal do queijo da serra, o magnífico requeijão que, sendo fresco, derretia-se na boca.

Uma verdadeira dieta Vegan “avant la lettre” (tirando o toucinho).

Este pastor, que conheci nos anos oitenta do século passado, tinha nas mãos da sua mulher e parentes próximos o quase monopólio do queijo da serra naquela área onde pastavam as suas ovelhas, pelo que era sempre convidado para as festas da povoação.

Nos casamentos ou batizados o homem em causa comia sempre as “três sopas” (como ele lhes chamava) que apareciam em qualquer destas bodas: a branca, a amarela e a verde. Traduzindo: o arroz doce (sem ovos), o leite creme, e o caldo verde.

Valha a verdade que a ausência de cremalheira frontal nunca atrapalhou o nosso herói no que dizia respeito à frequência das adegas da zona, e ao consumo dos seus conteúdos.

Sem nunca discriminar entre branco e tinto, este antirracista bebia de tudo até que o pusessem fora do estabelecimento, o que acontecia com alguma frequência.

Ora um caso se deu (que é maneira serrana de dizer “era uma vez”) em que o pastor saiu em ombros de uma partida malvada que lhe fizeram para gozarem com a sua falta de dentes.

Foi convidado para almoçar por dois “amigos” que tinham combinado entre si ser o petisco apenas constituído por febras de porco avantajadas, servidas dentro de nacos de pão de centeio do Sabugueiro, tudo bem acompanhado por um garrafão de bom vinho tinto do Dão refrescado dentro de um poço, como mandavam as regras locais.

Imaginemos o cenário: três à mesa, dois a banquetearem-se com as febras que estavam a ser assadas na hora sobre as brasas, passando-as para dentro do pão e comendo com grande satisfação. E o outro a olhar e a vingar-se no copo, que era a única coisa que lhe servia de consolo naquela cerimónia.

Para maior acinte, os dois “amigos” de vez em quando diziam-lhe em voz alta:

 – “Aqui há dentes amigo!”

Já farto da gozação, o pastor agarra numa febra já assada e sem mais delongas enfia-a pela garganta abaixo. E depois da dita ter feito o seu percurso pelo esófago e chegado ao estômago (espero eu que em condições de ser digerida), virou-se para os companheiros de mesa e ripostou:

 – “E aqui há golas senhores!”

“Gola” é ainda hoje um termo popular beirão para “goelas”.

Para começar a nova fase destas crónicas não poderíamos ter encontrado uma garganta mais solta do que esta…

-Sobre Manuel Luar-

Manuel Luar é o pseudónimo de alguém que nasceu em Lisboa, a 31 de agosto de 1955, tendo concluído a Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, em 1976. Foi Professor Auxiliar Convidado do ISCTE em Métodos Quantitativos de Gestão, entre 1977 e 2006. Colaborou em Mestrados, Pós-Graduações e Programas de Doutoramento no ISCTE e no IST. É diretor de Edições (livros) e de Emissões (selos) dos CTT, desde 1991, administrador executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações em representação do Instituidor CTT e foi Chairman da Associação Mundial para o Desenvolvimento da Filatelia (ONU) desde 2006 e até 2012. A gastronomia e cozinha tradicional portuguesa são um dos seus interesses.  Editou centenas de selos postais sobre a Gastronomia de Portugal e ainda 11 livros bilingues escritos pelos maiores especialistas nesses assuntos. São mais de 2000 páginas e de 57 000 volumes vendidos, onde se divulgou por todo o mundo a arte da Gastronomia Portuguesa. Publica crónicas de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de André Carrilho