Poderia ser, mas não foi inspirado pelos tempos provocados pela pandemia. A obra de Catarina Romano, desenvolvida noutros tempos, há três anos, e porque animação é algo que demora a ser desenvolvida, poderá ser mais um exemplo de que a intemporalidade da arte também se observa no acompanhamento dos tempos. Mas, no fundo, entre o “grande pânico quando estávamos a entrar em quarentena e, de repente, tentar perceber o que o filme está a dizer agora”, acaba por ser o mesmo tema – a precariedade e as consequências que isso tem para todos nós, o enclausuramento e a memória como salvação, que culmina em “Seja como for”, uma história selecionada para o Festival de Curta Metragem Clermont-Ferrand, um evento que acontecerá no dia 29 de janeiro, em França.

Trata-se de uma animação sobre uma mulher fechada em casa há muito tempo, desempregada e “aparentemente enclausurada do lado de fora das possibilidades do seu tempo histórico, “que acaba por ser um corpo sem tempo, num espaço sem tempo”. Está ali trancada e do lado de fora do mundo e das suas possibilidades, mas que, depois, arranja uma maneira interna de poder reagir, dar a volta, libertar-se.

A autora tem formação em Cinema de Animação tradicional e de volumes no Centro de Imagem e Técnicas Narrativas da Fundação Calouste Gulbenkian, e participação no programa Gulbenkian Criatividade e Criação Artística, no Curso de Realização de Cinema de Animação 3D, dirigido pela escola SUPINFOCOM, tendo sido selecionada para continuar os estudos em Valenciennes, França, onde participou da curta-metragem “Rendez-vous Dans mon Sandwich”, em 3D.

Em 2009, ocupou o argumento, realização e animação do programa “Ilha das Cores”, uma produção da RTP e, como trabalho autoral, reúne as curtas-metragens de animação “A casa ou a máquina de habitar” (2016) e, em 2020, “Seja como for”, as duas, com apoio do Instituto de Cinema e Audiovisual (ICA).

Neste momento, ocupa o coração do Gerador, com as questões destes e de outros tempos numa entrevista, sobre a mais recente curta-metragem “Seja como for”.

“A partir daí, começa a ideia para o filme”

O pensamento para a criação surge da realidade, dos efeitos da crise de 2008, em que se realizaram reformas laborais, “perderam-se uma série de direitos e as coisas nunca voltaram exatamente a estar como estavam antes”.

“Em situações de precariedade e exclusão, se não se tem trabalho, não se tem dinheiro para ir ao café, ao cinema...tudo implica dinheiro, e as pessoas começam-se a isolar dentro de si próprias. Ganham uma certa tristeza, uma folia”.

A preocupação prende-se às mulheres ou “não homens”, aquelas que “sabemos pelos dados estatísticos” serem “as primeiras a perder o emprego e a entrar em situações precárias”, tal como, algumas amigas que estavam, de repente, a viver uma situação de dependência económica com o seu parceiro, e que as deixavam numa situação que quase parecia que tinham voltado atrás no tempo, em que o enclausuramento apresentava-se em conventos, dentro de casa e, ainda mais, numa ausência de oportunidades, de escrever, criar e pintar, por exemplo.  “Todas as oportunidades ficavam para lá de nós”.  “Parecia que estavam a viver a história das suas avós”.

 “Todas as questões relacionadas com o feminismo estavam a ser discutidas na altura, estava tudo muito ao rubro. Houve uma sensação de que o tempo estava a avançar por uma série de questões que estavam a ser discutidas, que eram muito importantes, e sobre as quais precisamos de pensar e, ao mesmo tempo, a sensação de que o tempo estava a voltar, no sentido em que as condições para muitas de nós, acabam por piorar nestas alturas. A partir daí, começa a ideia para o filme”.

Essa mulher de cabelos brancos, entre lençóis  que a revelam e, ao mesmo tempo, criam um mistério com memórias “não muito claras, mas doces” e a que se vai tendo acesso aos poucos, também entra, como símbolo do que “nos trouxe até aqui”, a memória, e enquanto homenagem para todas as mulheres que não foram enclausuradas a cuidar da casa e dos filhos, “porque tinham de trabalhar para poderem comer e eram sujeitas a tudo”. Também ceifeiras, costureiras e criadas, mulheres de uma zona rural, muito representativa para a autora, visto que está presente nas suas origens.

Animação “Seja Como for”

Juntamente à constatação da consciência de que não consegue representar certos grupos de pessoas, porque diz não ter o direito de se apropriar de outras existências, e não querer voltar a estar no papel “das feministas que excluem as pessoas que não pertencem à sua classe, que não têm a sua cor de pele”, nasce a personagem.

“É um filme que não representa toda a gente”

Acabou por ser uma mulher branca, “talvez vinda de classe média ou qualquer coisa assim do género”, uma personagem com proporções inspiradas num tempo “mais clássico” e, por isso, idealizada pelo homem, “onde as mulheres só são representadas e não representam”, com a ideia de dar vida a essa mulher, deixá-la existir e viver a sua própria vida.

Animação “Seja Como for”

 “A partir daí, se olharmos para essas histórias podemos dizer que, finalmente, a personagem, se for feita a partir do nosso olhar, não se vai matar. É um filme que não representa toda a gente, é uma curta, mas tentei, um bocadinho, dar a volta à situação”.

Catarina Romano tenta brincar “um pouco” com a ideia de uma câmera interna, “ou seja, como se a câmera visse de um ponto subjetivo, quase inconsciente e interno da personagem e, por isso, acabo por esconder, aproximar muito, por dar detalhes e por tratar emocionalmente a história dessa forma. É como se visse as coisas por dentro”.

“O entrar para o mundo de fora está no som”

A obra, em momentos, acompanhada pelo ritmo do trabalho com a repetição de inchadas, para dar um contexto rural, uma composição de André Aires, com   a canção popular, cantiga da ceifa, no fim, materializa “alguma coisa nova”, a passagem para uma vida como sujeito ativo, que acontece também com a dança.

“Acaba por ser uma brincadeira com os avisos que nos vão dando, que eram condições difíceis e, embora tivessem de trabalhar para viver, tendo um homem nas suas vidas, era ele que tinha o poder. No entanto, foram-nos dando ensinamentos e a letra da música é muito engraçada, por causa disso, também, fala de coisas muito práticas e muito simples.”

“O entrar para o mundo de fora está no som. A partir do momento em que ela tem acesso a uma memória e volta à sua infância, faz-nos mexer, pensar noutras coisas e receber”.

E outras questões, como a memória e os sentimentos que nos são trazidos através do tempo, “a ausência de tempo, o voltar atrás e se um corpo se confronta com o tempo, o que é que lhe acontece,  será que se pode materializar outro futuro ou não”, são temáticas em que a artista está a trabalhar e que “acabam por ser uma base, mas não sei se é evidente”.

“Mas nós estamos todos perante o fim do mundo e são questões que começam a aparecer, não se pode olhar para trás, porque atrás correu tudo mal e parece que estamos numa zona difícil de resolver, sem futuro e sem poder olhar para o passado. E o que é que nos resta e como isto tudo se faz.”

Para a realizadora, falar sobre a realidade é uma questão de princípios: “se fossemos todos felizes e tivéssemos todos bem e não houvesse problemas talvez não o faria. Neste momento, acho que é importante fazê-lo e temos todos de pensar que temos de fazer alguma coisa para termos os nossos futuros nas nossas mãos”. Refere ainda que são tempos muito difíceis, em que se fala muito do fim do mundo, com a crise ambiental ou as possibilidades de guerras nucleares, e acha que tem de existir mudança, e, falar sobre a realidade, talvez seja uma forma de se estar mais perto da mesma.

O retorno que tem tido da obra espelha-se na ideia de que, como diz, a maior parte das pessoas, ao longo da vida, já viveu algum tipo de situação parecida e, por isso, “não é difícil existir uma identificação com uma história desse género”.

“Poderá haver algumas pessoas que tiveram muita sorte e nunca sofreram, mas, acho que, mais ou menos, já passamos por alguma coisa, portanto, é claro que posso ir buscar, às minhas memórias, recordações, momentos e situações que me possam inspirar e ajudar a resolver. Um realizador para fazer o seu filme terá sempre de fazer isso, de qualquer maneira. Embora não seja a sua história, acho que não vale a pena fazermos sobre nós próprios, importante é tentarmos procurar qualquer coisa que se aproxime mais daquilo que é universal. Talvez seja esse o caminho”.

 Catarina Romano não sabe dizer o que se pode esperar da próxima obra que está a produzir, nem de quando será lançada — “talvez daqui a um ano e meio, dois anos, se tudo correr bem”­—, porque está dentro da incerteza e, por isso, é complicado desenvolver um discurso.  Adianta que “em cada uma das histórias existem ecos em pequenos detalhes que as unem. Objetos, cenários, desdobramentos e outros detalhes que geram uma conversa entre todas as obras”.

Texto de Filipa Bossuet
Fotografias da cortesia de Catarina Romano

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